Ataques estremecem imagem pacata do Canadá

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Image caption O incidente ocorreu horas depois do país elevar o nível de risco de terrorismo de baixo para médio

Os tiroteios que deixaram ao menos dois mortos no Canadá chocaram um país tradicionalmente tranquilo e despertaram questões sobre ameaças extremistas e eventuais riscos resultantes do maior alinhamento de Ottawa com os Estados Unidos.

Na quarta-feira, um soldado canadense foi morto a tiros no Memorial de Guerra Nacional na capital. O autor dos disparos, então, correu em direção ao complexo do Parlamento, próximo ao memorial, onde um suposto atirador – possivelmente ele próprio – morreu após trocar tiros com a polícia. Três pessoas foram feridas.

O incidente ocorreu horas depois do país elevar seu nível de alerta e dois dias depois de a polícia matar a tiros um motorista que atropelou dois soldados em um estacionamento no Quebec. O motorista foi descrito como muçulmano "radicalizado". Um dos soldados morreu.

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No início do mês, o Canadá anunciou planos para unir-se à coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o grupo autodenominado 'Estado Islâmico' no Iraque, apesar de não haver confirmação de que os ataques desta semana estariam vinculados à campanha militar.

O primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, disse em cadeia nacional de TV que o país "não será intimidado pela violência" e que o ataque só reforçou a resolução do país de lutar contra o extremismo ao lado de seus aliados.

Os ataques de quarta-feira surpreenderam, inclusive, a polícia de Ottawa. No momento do tiroteio, parlamentares estavam em sessão dentro do prédio do legislativo canadense e relataram ter ouvido os tiros e se escondido com medo.

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A maioria dos prédios públicos de Ottawa foi fechada, incluindo bibliotecas e escolas, e uma área foi cercada por oficiais de segurança - cenas pouco comuns numa cidade conhecida por sua tranquilidade.

O que pode estar por trás?

Horas após o tiroteio, muitos passaram a se perguntar se a aproximação do Canadá com as políticas americanas estaria por trás destes ataques recentes.

"Isto é um fato isolado ou poderemos esperar mais coisas assim no futuro agora que o Canadá decidiu unir-se à luta contra o 'Estado Islâmico'?", disse Mark Brooks, funcionário do Ministério da Fazenda.

Não há uma resposta clara a essa pergunta, pois estes casos poderiam ser ações isoladas. Mas o especialista canadense em terrorismo, Tom Quiggin, diz que houve uma avanço do discurso extremista "radical" no país.

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"Eles estão criando um espaço político onde promovem a violência, tanto em casa quanto no exterior, de uma maneira que está se convertendo em algo 'aceitável'", disse Quiggin.

"Anteriormente, as vozes extremistas, como a do canadense de origem egípcia Ahmed Said Khadr, que era suspeito de ligações com a Al Qaeda, aconselhava que a violência jihadista no exterior era necessária, mas que deveria ser evitada no Canadá".

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Image caption A área do Parlamento foi isolada pela Polícia de Ottawa
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Image caption Soldado foi morto nesta semana por um militante procurado pelas autoridades

Agora, segundo ele, isso parece estar mudando. Quiggin disse que um número crescente de jovens canadenses foi ao Oriente Médio nos últimos anos para atuar como homens-bomba ou como combatentes do grupo 'Estado Islâmico'.

Na semana passada, a polícia montada real do Canadá informou ter identificado 90 suspeitos em questões de segurança nacional relacionadas a ações extremistas. Segundo Quiggin, a lista inclui pessoas que planejavam viajar para o exterior e outras que haviam retornado.

"O Canadá, como o Reino Unido e outros países europeus, tem permitido um fluxo contínuo de indivíduos extremistas, dinheiro e ideologia para o país".

Aproximação com Washington

A aproximação de Ottawa com Washington, sobretudo no Oriente Médio, poderia estar exacerbando o extremismo doméstico.

"Nos últimos anos, este país perdeu, por vezes de maneira controversa, sua imagem como um mediador neutro em conflitos estrangeiros, e também tem trabalhado cada vez mais de perto com autoridades americanas para combater as ameaças terroristas", disse esta semana Lee Carter, da BBC em Toronto.

Segundo ele, apesar de poucos ataques serem registrados no Canadá e o país manter sua imagem de tranquilidade, uma série de planos foi frustrada pelas autoridades.

"O caso mais notório foi o chamado Toronto 18, de 2006, quando um grupo de extremistas inspirados pela Al-Qaeda foi condenado por planejar um ataque a vários alvos, incluindo os edifícios do Parlamento".

"No entanto, os críticos acusaram as agências policiais e de inteligência de responderem com lentidão ao desafio mais recente representado pela cada vez mais sofisticada propaganda extremista".

Embora ainda seja cedo para determinar as razões por trás dos ataques desta semana no Canadá, o que já está claro é que colocou em alerta a um país que normalmente é tranquilo. Um conhecido colunista político local, John Ivison, disse no Twitter que "o Canadá acabou de perder sua inocência".

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