Desemprego baixo ajuda governo, mas taxa de ocupação mantém incertezas

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Image caption Taxa de ocupação caiu no mesmo período, indicando que mais pessoas pararam de procurar emprego

A queda no desemprego em setembro, anunciada nesta quinta-feira pelo IBGE, dá força para a campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff nesta reta final do segundo turno, mas outro dado – a taxa de ocupação - mantêm a margem para críticas ao desempenho econômico do governo.

De acordo com o IBGE, o desemprego caiu para 4,9% em setembro, a menor taxa registrada para esse mês desde 2002. Analistas vinham esperando que o índice aumentasse cerca de 0,1 ponto percentual.

A pesquisa é feita em seis regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre), que em agosto haviam registrado um desemprego de 5% de acordo com o instituto.

O IBGE também registrou um aumento da renda média dos trabalhadores em setembro, de 0,1% na comparação com agosto, e de 1,5% em relação ao mesmo período do ano passado.

O PT vem defendendo que a recente desaceleração da economia teria sido motivada principalmente pela crise mundial e o fato de o desemprego estar em níveis historicamente baixos seria uma prova do sucesso das políticas adotadas pelo atual governo para "proteger o emprego e a renda dos trabalhadores" nesse cenário pouco favorável.

"Trata-se de uma pesquisa que provavelmente será usada politicamente porque corrobora essa tese do governo, mas que se for olhada no detalhe não é tão positiva e também dá subsídios para quem tem uma visão mais crítica da atual gestão", diz a economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências.

A questão, segundo Ribeiro, é que, apesar de o desemprego ter caído, o número de pessoas ocupadas também encolheu.

Em setembro 23,10 milhões de brasileiros estavam trabalhando, uma pequena queda de 0,2% frente ao contingente ocupado em agosto, de 23,13 milhões.

A diferença é classificada pelo IBGE como "estabilidade". Em relação a setembro de 2013 (23,19 milhões), a queda foi de 0,4%.

"Ou seja, apesar de o índice ter caído, temos menos geração de emprego e até o fechamento de alguns postos de trabalho. Como o número de pessoas que está buscando emprego também caiu - e caiu de forma mais acentuada - o desemprego encolheu. Mas a tendência geral é mesmo de uma deterioração do mercado de trabalho", opina Ribeiro.

Explicação

O aumento do número de pessoas que não estão nem trabalhando nem buscando trabalho e a consequente redução da População Economicamente Ativa (PEA) brasileira não é um fenômeno novo.

Especialistas o atribuem a uma série de fatores - alguns deles positivos, outros nem tanto.

"Por um lado, cada vez mais os jovens estão adiando sua entrada no mercado de trabalho para estudar e se qualificar. Por outro, também temos um aumento dos nem-nem - os jovens que nem trabalham nem estudam", diz Ribeiro.

"Além disso, o aumento da renda das famílias tem permitido que alguns de seus membros decidam ficar em casa em vez de trabalhar - seria esse o caso de algumas mulheres com filhos pequenos."

O dado sobre o desemprego foi anunciado em meio a denúncias feitas pelo jornal Folha de S. Paulo de que órgãos governamentais, ou ligados ao governo, teriam adiado para depois das eleições a divulgação de indicadores cujos resultados seriam negativos para a campanhad a presidente Dilma Rousseff.

Entre eles, estariam, por exemplo, os dados da Receita Federal para a arrecadação de tributos em setembro.

A expectativa do mercado é que a arrecadação caia em função do recuo no ritmo da atividade econômica e das desonerações fiscais - o que poderia dificultar ainda mais o alcance das metas fiscais.

Segundo a Receita Federal, a divulgação não foi feita nesta semana porque os responsáveis pelos cálculos da arrecadação estariam em reuniões internas.

Na semana passada, o diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas Amplicadas (Ipea) Herton Araújo teria colocado seu cargo à disposição por discordar da decisão da cúpula do instituto - um centro de pesquisa ligado ao governo - de adiar um estudo sobre a evolução no número de miseráveis no Brasil.

O Ipea informou, em nota citando a lei eleitoral, que suspendeu até depois das eleições a divulgação de estudos não periódicos para evitar que eles possam favorecer algum candidato.

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