Tecnologia 'antifracasso de bilheteria' tenta ler emoções de espectadores

Cinema Direito de imagem THINKSTOCK
Image caption Softwares podem mostrar o que questionários não revelam sobre opinião de espectadores

Um dos negócios mais arriscados é investir dinheiro em filmes e seriados de televisão. Por mais que se pense no roteiro e nos personagens, sempre existe uma grande chance de o público não gostar do que viu.

Por isso, algumas produtoras estão desenvolvendo e testando tecnologias que "leem" as emoções do público, para entregar a ele algo mais parecido com o que querem ver.

A BBC preparou algumas perguntas e respostas sobre o tema.

Por que tantas empresas estão interessadas em ler as reações da plateia?

Um dos problemas da indústria cinematográfica é a grande perda de receitas com fracassos de bilheteria. Este ano, O Cavaleiro Solitário deu aos estúdios Disney um prejuízo de US$ 200 milhões, segundo relatos na imprensa. Uma tecnologia de leitura de sentimentos é importante para investidores decidirem onde querem aplicar seu dinheiro.

Que tipo de nova tecnologia está sendo desenvolvida?

Alguns estão apostando em softwares que detectam emoções, como o Affectiva, de uma empresa originada no Massachusetts Institute of Technology. Essa tecnologia faz uma "leitura facial" das emoções de pessoas em uma plateia.

Antes do lançamento oficial de um filme, estúdios de Hollywood costumam exibi-lo a um público específico para medir sua reação. O Affectiva é feito para isso: assistir a quem assiste a um filme.

Mas para que fazer isso? A plateia de exibições prévias já não respondem a questionários?

Sim - mas não se pode confiar na resposta das pessoas. Muitos esquecem cenas que apreciaram durante o filme, ou não sabem articular muito bem o que sentem pela obra. A tecnologia serve para Hollywood compreender cena por cena o que se passa na cabeça do público. Os estúdios prestam atenção especial aos momentos em que as pessoas começam a querer deixar a sala de cinema.

Ter emoções analisadas por um computador - isso não é um pouco sinistro demais?

Há temores de que essa tecnologia tem poderes demais. Ela tem capacidade, por exemplo, de verificar o batimento cardíaco. Os fundadores da Affectiva dizem que se comprometem sempre a usar a tecnologia apenas em plateias que consentiram com seu uso. Mas a diretora da companhia, Rosalind Picard, admitiu que já teve que recusar uma proposta feita por uma empresa de usar o software secretamente durante a exibição de um filme.

É possível ajudar a evitar fracassos de bilheteria antes de rodar o filme?

Talvez. Se cineastas e programas de televisão souberem o suficiente sobre seu público-alvo, em tese eles podem dar à plateia exatamente o que querem ver. Aliás, isso já vem acontecendo.

Em quais filmes ou séries?

A Netflix, empresa de transmissão de filmes e seriados, investiu bastante para produzir um seriado próprio, o House of Cards, que é uma versão americana de um drama político britânico dos anos 1990. A Netflix concorreu com outras redes, como HBO e AMC, pelos direitos de refilmagem depois que uma análise dos gostos de consumidores apontou que o House of Cards tem quase todos os elementos que garantem o sucesso de audiência. A série foi feita pela empresa, com o ator Kevin Spacey no papel principal.

Direito de imagem AP
Image caption Filmes com Kevin Spacey no Netflix exibiam trailer promovendo 'House of Cards'

O próprio site Netflix é uma "mina de ouro" do ponto de vista de coleta de dados. A empresa sabe exatamente quando seus consumidores param um filme, repetem uma cena ou desligam o aparelho. Com isso, a empresa tem um banco de dados detalhado sobre seus 44 milhões de clientes.

O Netflix também tem poderosas táticas de marketing. Clientes seus que assistiam a qualquer filme com Kevin Spacey viam antes um trailer em que o ator promove "House of Cards".

Esse tipo de informação está ajudando a determinar quais seriados e filmes são feitos no futuro.

E isso é bom? Ou não?

Depende da perspectiva de cada um. Por um lado, se muitas empresas seguirem o Netflix, elas terão mais confiança para investir em formatos que conhecem e que foram testados. Mas isso pode torná-las mais avessas a arriscar em algo ousado.

A verdade é que com ou sem essas tecnologias, muitas produtoras já repetem várias fórmulas à exaustão.

Por outro lado, algumas tecnologias ajudam diretores a financiarem projetos da preferência do próprio público. Recentemente dois filmes - Veronica Mars e Wish I Was Here - foram financiados por campanhas do Kickstarter, em que fãs doam dinheiro para uma produção.

Então os fracassos de bilheteria acabaram?

Provavelmente não. Os produtores do filme O Quinto Poder, sobre o site Wikileaks e seu fundador Julian Assange, achavam que estavam investindo em um campeão de bilheteria. O filme tinha tudo para dar certo segundo os parâmetros normais de audiência, mas isso não o impediu de ser um dos maiores fracassos do ano. A verdade é que as tecnologias ainda não chegaram ao ponto de conseguir prever o que realmente vai agradar ao público.

Leia a versão em inglês desta reportagem no site BBC Future.

Notícias relacionadas