Em salão lotado, presidente resiste a provocações da militância

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Image caption Militantes petistas interromperam discurso da presidente reeleita, que não esboçou reação

Interrompida três vezes em seu discurso por provocações ao tucano Aécio Neves, a presidente reeleita, Dilma Rousseff, não esboçou reação.

No auditório montado para recebê-la em um hotel ao lado do Palácio da Alvorada, em Brasília, cerca de 200 pessoas vestidas de vermelho saltavam e gritavam "quem não pula é tucano". Eram em sua maioria militantes petistas e membros da campanha de Dilma no Distrito Federal que esperavam que, como em ato de campanha na semana passada na PUC em São Paulo, ela entrasse na brincadeira. Mas a candidata vitoriosa se manteve impassível.

A presidente foi interrompida outras vezes por gritos contra a TV Globo ("o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo") e à revista Veja - que na sexta-feira, publicou uma reportagem segundo a qual o doleiro Alberto Youssef disse em depoimento que Dilma e seu antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sabiam do esquema de corrupção na Petrobras sob investigação.

Ela disse em seu programa eleitoral que processaria a revista, mas não tocou no assunto em seu discurso.

Parecia preocupada – e sua fala deixou isso claro – em acalmar os ânimos após a mais acirrada disputa à Presidência da história recente do país.

"Não acredito sinceramente, do fundo do meu coração, não acredito que essas eleições tenham dividido o país ao meio. Entendo, sim, que elas mobilizaram ideias e emoções às vezes contraditórias, mas movidas por um sentimento comum: a busca de um futuro melhor para o país", disse.

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Serenidade

Ao seu lado, Lula e os presidentes dos partidos que compuseram a chapa governista também se mantinham sóbrios quando as provocações dos militantes vinham à tona. A ordem era manter a serenidade. Numa das interrupções, Dilma chegou a pedir silêncio aos militantes, alegando estar sem voz.

Uma breve concessão à emoção ocorreu quando ela agradeceu o ex-presidente Lula pela vitória, chamando-o de "militante número um das causas do povo brasileiro". Lula chorou e abraçou a sucessora.

A presidente já entrou no auditório rouca. Pouco antes dela, chegaram assessores e ministros do governo, entre os quais Tereza Campello (Desenvolvimento Social), Ideli Salvatti (Direitos Humanos) e Thomas Traumann (Comunicação Social). Sentados à frente do palco, alguns estavam acompanhados por filhos e netos. Já cientes da vitória, conversavam tranquilos e aliviados.

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O momento mais tenso do dia havia ocorrido a poucos minutos das 20h, quando os cerca de 200 militantes começaram uma espécie de contagem regressiva à espera do resultado da eleição.

Todos olhavam para seus celulares quando surgiram os primeiros gritos. Separados dos jornalistas por grades e trajados de vermelho, eles haviam tomado conhecimento da primeira parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que apontava ligeira vantagem de Dilma.

Houve abraços e pulos. Bandeiras foram agitadas, e alguns militantes choravam.

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Image caption 'Hoje foi o dia mais tenso da minha vida', disse Max de Oliveira

A comemoração para valer, porém, só ocorreu mais à frente, quando o TSE confirmou que não Dilma não podia mais ser ultrapassada por Aécio. Cantavam "olê, olê, olê, olá, Dilma, Dilma" e "Partido, partido, é dos trabalhadores".

O jingle Dilma Coração Valente começou, então, a tocar em looping por mais de uma hora. Com o tempo, os militantes iam desistindo da cantoria. Telefonavam então amigos e familiares, conferiam o celular e postavam fotos da festa no Facebook.

Ao fim do discurso de Dilma, saíram atrás de um trio elétrico contratado pelo PT para conduzir a comemoração madrugada adentro.

"Agora não quero nem saber", disse Max de Oliveira, um dos coordenadores da campanha da petista no Distrito Federal. "Hoje foi o dia mais tenso da minha vida, mas valeu a pena."