Aécio fez ‘aposta arriscada’ no antipetismo

Aécio e sua mulher (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Aécio chegou a ficar em terceiro lugar nas pesquisas durante o primeiro turno

A derrota de Aécio Neves (PSDB) por uma estreita margem na eleição para presidente indica o fracasso de uma estratégia arriscada, em que o ex-governador de Minas Gerais construiu alianças e apostou no sentimento antipetista presente em vários setores da sociedade brasileira, dizem analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Por outro lado, apesar da derrota, o resultado da eleição representa, ainda assim, um triunfo para os tucanos. Esse foi o melhor resultado do PSDB em eleições presidenciais desde a saída do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

"Era uma aposta arriscada porque tinha que ver se o antipetismo ia crescer, já que, ao mesmo tempo, juntamente com esta aposta, crescia a rejeição a Aécio. Era tudo ou nada", disse à BBC Brasil Wilson Gomes, cientista político da UFBA.

Leia mais: Construindo alianças, Aécio fez ‘aposta arriscada’ no antipetismo

"A questão era saber se esta força era maior do que o petismo ou não. As pessoas não estão votando propriamente em Aécio, mas ele aceitou ser a referência deste sentimento", opina.

Ricardo Ismael, cientista político da PUC do Rio de Janeiro, concorda: "Ele mobilizou o eleitorado que está cansado e tem uma grande rejeição ao PT, o que é natural pelo desgaste que traz todo governo. Ele capitalizou um pouco esse voto, um voto antipetista e antidilma".

Articulação, economia e debates

Outro elemento destacado pelos analistas na estratégia aecista foi a capacidade de articulação política do ex-governador, que criou uma base ampla de apoio contra Dilma.

Aécio, que chegou a figurar em terceiro nas pesquisas durante o primeiro turno, conseguiu reverter a situação e no segundo turno passou a contar com apoios de peso, como o da ex-candidata Marina Silva – que chegou a ameaçar Dilma –, do PSB, o partido de Marina, e de políticos com destaque nos Estados.

"Ele fez uma situação de bastidores excelente. Construiu alianças excelentes, como no Rio, com o (governador eleito Luiz Fernando Pezão), que formalmente apoiava a Dilma, mas jogava pelo Aécio também. A sua articulação de bastidores foi muito forte", diz Carlos Pereira, cientista político da FGV do Rio de Janeiro.

"Ele construiu um ótimo suporte político nacional, com palanques fortes. Ele também conseguiu unificar o partido em São Paulo, o que era raro. Ele mostrou resiliência, mesmo em situações em que ele era considerado carta fora do trabalho. Teve muita capacidade de acreditar em si mesmo."

Leia mais: Dilma enfrenta desafio de aliar continuidade e renovação

"Além disso, fez discurso muito forte no que diz respeito ao resgate do equilíbrio macroeconômico para colocar o Brasil na rota do crescimento e assumiu compromissos críveis de manutenção do pacote de proteção."

Ricardo Ismael destaca que, no trabalho de articulação, Aécio foi beneficiado pela força da máquina partidária, que "lhe deu uma vantagem maior" para conseguir apoio dos eleitores no Sudeste, a fim de compensar uma derrota no Nordeste.

"Ele também se saiu bem nos debates, que é um momento de comparação e muita gente gosta de decidir por isso."

Lulismo

Apesar de elogiada pelos analistas, a estratégia de Aécio não foi capaz de vencer a força do projeto político lançado pelo PT na chegada de Luiz Inácio da Silva ao governo, em 2003: o Lulismo.

A vitória de Dilma voltou a evidenciar as falhas tectônicas que já vem se tornando tradicionais na política brasileira. A petista ganhou no Nordeste e no Norte, onde as políticas sociais do governo garantem sua popularidade especialmente em meio à parcela mais pobre da população. Por outro lado, Aécio venceu no Sudeste e no Sul, e isso não foi suficiente para lhe garantir a Presidência.

Além disso, a petista voltou a vencer com folga entre a população com menor faixa de renda, mas a vantagem não foi suficiente para compensar a superioridade de Aécio nos demais grupos.

O Lulismo, segundo artigo do sociólogo da USP Fábio Cardoso Keinert, atualizou um modelo político em voga no Brasil desde o começo do século passado: a crença de que a mudança do país dependia da conciliação entre correntes ideológicas distintas e que caberia ao Estado agir com "benevolência" para sanar os problemas sociais.

Leia mais: Jornais estrangeiros destacam desafio de Dilma de unir o Brasil

A novidade do Lulismo em relação a correntes anteriores, diz Keinert, foi sustentar-se na massa de indivíduos que viram suas vidas melhorares com programas sociais de Lula, como o Bolsa Família. As reformas se deram, contudo, sem a mobilização dessa "vasta camada de subproletários", baseada sobretudo no Nordeste, diz o sociólogo.

A adesão desses eleitores mais do que compensou a perda de apoiadores históricos do PT, em sua maioria grupos escolarizados do Sudeste, que abandonaram a sigla após sua guinada ao centro e aos escândalos de corrupção nas administrações petistas.

Em 2010, a vitória de Dilma Rousseff mostrou que, embora dependesse de Lula, o movimento poderia ganhar eleições sem que ele estivesse pessoalmente na chapa.

Dilma manteve os padrões de votação da reeleição de Lula, tendo contado com expressivo apoio entre os brasileiros mais pobres.

Notícias relacionadas