As aventuras do goleiro que jogou em cinco continentes

O ex-jogador Lutz Pfannenstiel Direito de imagem Getty
Image caption Pfannenstiel publicou livro contando suas peripécias futebolísticas, incluindo acidente que quase o matou em 2002, numa partida na Inglaterra

Treze países, 25 clubes, seis confederações de futebol e cinco continentes. Os números de Lutz Pfannenstiel não são apenas impressionantes, como também exclusivos.

O alemão é o único jogador da história a ter atuado em todos os cantos do mundo. Inclusive no Brasil, ainda que mesmo fãs de futebol do país possam jamais ter ouvido falar do Atlético de Ibirama, de Santa Catarina.

Mas Pfannenstiel, de 41 anos, quer fazer ainda mais história: ele sonha disputar uma partida na Antártica como parte de um projeto de conscientização sobre o aquecimento global. Ele fundou uma ONG, a Global United Football Club, que busca aumentar a conscientização sobre as mudanças climáticas.

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Embora nunca tenha jogado em grandes times, ele conseguiu atrair o endosso de nomes de peso como Zinedine Zidane e Ronaldinho Gaúcho.

E um eventual jogo sobre o gelo não seria a aventura mais incrível vivida por Pfannenstiel.

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Image caption O alemão cumpriu prisão no início da década passada, acusado de participar de manipulações de resultados no futebol asiático

As histórias do hoje aposentado goleiro incluem três meses de prisão em Cingapura, ter sido dado como morto na Inglaterra e contratos para trabalhar como modelo.

Aventuras

Desde o início de sua carreira, Pfannenstiel não foi um jogador comum. Em 1991, quando tinha 19 anos e atuava pelo minúsculo clube alemão FC Bad Kotzting, ele recebeu uma proposta do poderoso Bayern de Munique, um dos mais famosos times do mundo. Recusou-a por achar que poderia ganhar mais experiência e mais tempo de jogo ficando onde estava.

"Sempre fui um pouco impaciente. Minha carreira não estava engrenando e eu preferi ir para a Ásia", diz o ex-goleiro, que acaba de publicar uma autobiografia, intitulada Unhaltbar: Meine Abenteuer als Welttorhüter (Indefensável: Minha Aventura como Goleiro do Mundo, em tradução livre).

"Sei que não é muito comum alguém dizer 'não' para o Bayern".

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Image caption O brasileiro Ronaldinho Gaúcho é um dos ídolos do esporte apoiando a ONG de Pfannenstiel

Porém, em 1993, ele surpreendeu ainda mais ao topar uma transferência para a Malásia, país sem nenhuma tradição no futebol. Depois de apenas um ano, foi parar na Inglaterra, mais precisamente no Wimbledon, na época disputando a Primeira Divisão.

Foi lá que ele experimentou de perto as estripulias de um notório grupo de jogadores apelidados de "Crazy Gang". Durante um treino num parque de Londres, ele foi agarrado pelos companheiros de equipe, despido e abandonado pelado.

"Tive que correr quase 5 km como vim ao mundo", lembra o alemão.

Pfannestiel também jogou pelo Nottingham Forest antes de mais uma vez pegar a estrada e assinar contrato com o Orlando Pirates, da África do Sul, em 1996.

Ficou lá por apenas uma temporada antes de novamente mudar de país - dessa vez para a Finlândia.

"Nunca planejei tantas mudanças, mas foi parte das circunstâncias. Técnicos que eram demitidos, times indo à falência foram alguns fatores", lembra.

Prisão

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Image caption Pfannenstiel pretende organizar uma partida na Antártica como parte de campanha de esclarecimento sobre as mudanças climáticas

Houve, porém, episódios mais graves: em 2000, quando defendia o Geyland United, em Cingapura, Pfannenstiel foi acusado de participar de um esquema de manipulação de resultados de partidas para uma máfia de apostas.

Embora tivesse negado as acusações, ele foi condenado e trancafiado na prisão de Changi, notória pelas condições precárias para os presos. Pfannenstiel conta ter sido agredido diversas vezes por outros presos e submetido a violentos interrogatórios com policiais.

O alemão foi libertado em 2001.

"Não guardo mágoas, mas foi um duro momento na minha vida".

'Morte'

Com a reputação abalada, ele precisou ir para mercados ainda mais alternativos. Jogou na Nova Zelândia antes de voltar à Inglaterra para jogar nas divisões semiprofissionais.

E foi num gramado acanhado que sua tentativa de reconstruir a carreira quase terminou em tragédia: em 2002, Pfannenstiel se chocou com um adversário durante uma partida e sofreu uma grave lesão pulmonar e uma parada cardíaca.

"Fiquei sem pulso e por trêz vezes fui declarado morto. Só fui acordar no hospital três horas mais tarde. Fiquei zangado apenas porque o jogo foi cancelado. Estávamos ganhando", conta.

O flerte com a morte só o fez ter menos vontade de sossegar: nos seis anos seguintes, Pfannenstiel passou por Noruega, Canadá e Albânia antes da guinada que o levou ao Brasil.

Pfannenstiel tinha acertado para jogar pelo América (RJ), mas a fraca situação financeira do time carioca o levou para Ibirama, cidade catarinense com menos de 20 mil habitantes e um histórico de imigração alemã que casou perfeitamente com a presença de um jogador alemão.

"Foi algo bom pelo lado do marketing. No meu primeiro treino tinha mais gente no estádio do que vivia na cidade. Aprendi muito no Brasil", disse Pfannenstiel à ESPN.com.br no início do ano.

A passagem não durou nem um ano e o alemão jogou apenas 12 partidas pelo Atlético, cuja estrutura é pequena demais até para disputar as divisões inferiores do Campeonato Brasileiro. Pfannenstiel voltou para a Noruega - antes, trabalhou em Cuba como preparador de goleiros da seleção naciona.

Passou pela Namíbia, na África. E foi lá que se aposentou em 2011.

Atualmente, Pfannenstiel trabalha como observador de jogadores para o clube alemão Hoffenheim.

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