O que as crianças devem aprender sobre dinheiro e negócios?

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Image caption Teste mostrou que 'alfabetização financeira' é deficiente em vários países

Carolin Hasse aprendeu algumas das suas primeiras lições sobre economia em um mercado de pulgas na sua cidade natal de Kronberg, na Alemanha, quando tinha apenas seis anos de idade.

Seu pai ensinou-a a pechinchar. Ele explicava como fazer e depois assistia a tudo de longe.

"Ele me mandava perguntar o preço. Quando dissessem '10 euros', eu tinha que responder: 'Bem eu só tenho cinco. Ainda posso comprar?'", conta Hasse. "Geralmente funcionava, talvez por eu ser criança."

Hoje com 16 anos, ela tem dois empregos - uma como instrutora de hipismo e outra como professora de inglês. Ela está economizando para fazer um curso e ganhar um certificado em hipismo. Seu tino de negócios nasceu cedo, com as lições que aprendeu em casa.

Mas nem todos são assim. Um teste recente da OCDE revelou que a "alfabetização financeira" - o grau de familiaridade de pessoas com aspectos práticos da economia - é uma deficiência mundial. Em 13 países, apenas um em cada sete alunos conseguiu tomar decisões simples de gasto de dinheiro, pelo teste.

Daryl Bernstein, empreendedor de 38 anos de Santa Barbara, na Califórnia, acredita que a infância é o momento certo para se aprender sobre o mundo dos negócios. Aos 15 anos, ele escreveu seu primeiro livro de negócios - "Melhor que uma banquinha de limonada: Ideias de Pequenos Negócios para Crianças".

Para ele, a infância tem várias vantagens para empreendedores.

"Você não precisa largar o emprego e tem bastante tempo para se dedicar", diz Bernstein. "Várias pessoas que atingiram sucesso estrondoso aos 20 ou 25 anos, como os Mark Zuckenbergs deste mundo, estavam aperfeiçoando suas técnicas dez ou 15 anos antes disso."

Bernstein, que acabou de vender seu negócio digital, diz que aprendeu desde cedo a entender as necessidades das pessoas e atender essas demandas. Seu primeiro negócio foi levar jornais até a porta da frente de seus vizinhos. O jornaleiro deixava o jornal muito longe da porta, obrigando muitos a sair de casa enfrentando o frio.

Bernstein conta que muitos estavam dispostos a pagar mais que o valor do jornal pelo serviço de "entrega final" que ele criou.

O empreendedor dá três dicas a crianças que queiram empreender.

DICA UM: TRABALHO É DINHEIRO

A consultora americana Peggy Rosser dá moedinhas de dez centavos de dólar a sua neta Hannah desde que ela tinha três anos de idade cada vez que a menina ajuda com alguma tarefa na casa.

"Hannah aprendeu desde cedo que trabalho é dinheiro, e que isso gera poder de compra", diz Rosser.

Aos cinco anos, Hannah usou 15 moedinhas que havia juntado para comprar um refrigerante em uma máquina. Rosser diz que agora o desafio é ensinar Hannah sobre a importância da poupança.

"Agora a bolsa dela tem bem menos dinheiro e ela já está aprendendo a não gastar tudo com bobagens."

DICA 2: BUCKETING

Um princípio do mundo dos negócios é o "bucketing", que pode facilmente ser ensinado a crianças. O termo vem da palavra inglesa para "balde". A ideia é ensinar a criança a colocar seu dinheiro em diferentes "baldes" de poupança. Ela pode criar um sistema em que economiza simultaneamente para conseguir atingir grandes metas - como comprar um videogame - ou para ter dinheiro no bolso para compras de "impulso" - como balas e doces.

É interessante estimular as crianças desde cedo a poupar algum dinheiro para doação a instituições de caridade, cultivando bons hábitos de gasto.

"Se você ensina as crianças desde cedo a tomar decisões boas, isso será levado adiante na vida adulta", diz Rosser.

A autora alemã Barbara Kettl-Romer diz que as crianças devem receber sugestões dos adultos, mas devem sempre estar em controle pleno das suas finanças.

É importante observar o comportamento delas. Algumas crianças imitam exatamente o que seus pais fazem com seu dinheiro - então aqueles pais que gastam demais podem acabar passando isso aos filhos.

Mas há os que passam por algum "trauma", com pais que são excessivamente cautelosos com o dinheiro, e acabam fazendo o oposto deles e gastando muito.

A psicóloga especializada em administração financeira Kathleen Gurney diz que há nove "personalidades diferentes" em relação ao dinheiro e que muitas dessas características são definidas cedo. Algumas pessoas se tornam "aventureiros", dispostos a gastar bastante em busca de um grande retorno com alto risco. Outros são "investidores cautelosos", que raramente dão um passo maior que a perna.

DICA 3: APRENDER A VENDER

Kettl-Romer lançou em 2009 um dos poucos livros alemães sobre negócios voltado para crianças.

"Na Alemanha, falar sobre dinheiro é tabu. Talvez tenha a ver com a herança da igreja protestante luterana ou com a preocupação de que falar muito sobre dinheiro vai atrair inveja."

Na Alemanha, as pessoas que se "vendem demais", buscando formas agressivas de autopromoção, costumam ser mal vistas.

"Em um país em que os engenheiros são idolatrados, se vender de forma muito agressiva é geralmente visto como uma tentativa de manipulação", diz.

Mas aprender a vender - seja a si mesmo ou algum produto - é uma parte fundamental do mundo dos negócios. A técnica é antiga e segue os mesmos princípios da barraquinha de limonadas.

O vendedor cria uma necessidade ("Como está quente hoje"), mostra as vantagens de seu produto ("nossa limonada é feita com limões orgânicos"), reage à concorrência ("é mais barato do que o cobrado nos cafés e lanchonetes") e fecha negócio ("Vai uma limonada grande ou pequena?").

Bernstein diz que praticar isso desde cedo rende lucros no futuro.

"Meu conselho é: dê a cara a tapa e tente coisas diferentes. Costuma-se dizer que é preciso praticar por 10 mil horas para virar um especialista. Muitos dos líderes que nos inspiram na vida começaram a praticar em suas 10 mil horas quando eram crianças."

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Capital.

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