Quatro motivos para acompanhar o G20

Brisbane, sede de cúpula do G20 (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Encontro, realizado na Austrália, tem como missão definir medidas para retomada de economias

A presidente Dilma Rousseff participa, neste fim de semana, da cúpula do G20, grupo que reúne os países mais industrializados do mundo (19 nações mais a União Europeia), em meio a tentativas de destravar relações comerciais e retomar o crescimento econômico global.

O grupo engloba dois terços da população mundial e 85% da riqueza do planeta. Os encontros do G20 partem do princípio de que o grupo é pequeno o bastante para tomar decisões de forma relativamente rápida e grande o suficiente para que tais decisões tenham um impacto significativo - ainda que nem sempre esses acordos sejam alcançados, e muitas vezes a cúpula tenha mais promessas do que efeito prático.

Há quem diga, porém, que só o fato de tantos líderes mundiais estarem reunidos cara a cara já ajuda a avançar em itens importantes da agenda mundial.

Neste ano, em Brisbane (Austrália), estes são alguns dos temas em debate, mesmo que não colocados oficialmente em pauta.

Retomada econômica

O G20 foi elogiado, após a crise de 2008, pela implantação de medidas que ajudaram na recuperação da economia global. Mas críticos dizem que houve poucos avanços recentes, em meio à falta de consenso e de reformas para dar continuidade à recuperação.

A meta definida na reunião de ministros das Finanças do grupo, em fevereiro, é de fazer os países do G20 crescerem 2% nos próximos quatro anos.

"Para isso, tomaremos medidas concretas (...), incluindo aumentar investimentos, estimular o emprego, fortalecer o comércio e promover a competição, além de medidas macroeconômicas", diz documento de fevereiro.

A tarefa não é nada fácil: só no caso do Brasil, a previsão do FMI é de que o país cresça meros 0,3% neste ano e 1,4% em 2015. O Fundo também prevê uma recuperação lenta em alguns países europeus.

O G20 também quer colocar na mesa de discussões pontos como coordenação fiscal e a diminuição de barreiras comerciais.

Outro tema que faz parte do que o G20 chama de esforço para o fortalecimento econômico mundial é o combate à corrupção. Um problema que fez o G20 criar em 2010 uma força-tarefa especial para lidar com o assunto.

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Interesses brasileiros

E é justamente com a intenção de reforçar a economia brasileira que a presidente Dilma Rousseff deve discutir comércio e negócios com presidentes como Barack Obama (EUA), Xi Jinping (China) e Vladimir Putin (Rússia). A China é o principal parceiro comercial do Brasil, à frente dos EUA, enquanto a Rússia não faz parte do grupo de 10 nações com que o Brasil mais faz negócios.

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Image caption Dilma deve se reunir com Barack Obama, retomando as relações bilaterais

Com os EUA, a agenda é ampla: além da relação comercial com Washington, acredita-se que o encontro entre Dilma e Obama marque o início de uma reaproximação bilateral após as denúncias de espionagem americana. A conversa deve incluir segurança cibernética e pode significar a retomada de conversas em temas como eliminação dos vistos de viagens para cidadãos dos dois países e acordos de transferência de tecnologia.

Eventuais conversas com os presidentes russo e chinês devem envolver a ampliação do comércio bilateral - por exemplo, mais espaço para a carne brasileira no mercado russo.

De ebola à Ucrânia

Embora não façam parte da pauta oficial das discussões do fim de semana, três assuntos também devem disputar as atenções dos líderes do G20 em Brisbane: a epidemia do vírus ebola na África, a luta contra o grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico", bem como a intervenção da Rússia na Ucrânia.

Na reunião dos ministros da área econômica, os países do G20 reconheceram que o ebola poderá afetar seriamente o crescimento e a estabilidade econômica nos países afetados e na África como um todo. Um recente relatório mundial estimou que o ebola pode ter um impacto econômico da ordem de US$ 30 bilhões até o final de 2015. Dados oficiais apontam que 5,1 mil pessoas já morreram da doença no oeste da África, além do registro de casos isolados do vírus em países como EUA e Espanha.

O "Estado Islâmico", cujo avanço na Síria e no Iraque desafia a campanha de bombardeios realizada pela coalizão comandada pelos EUA, também é um assunto que deverá vir à tona nos pronunciamentos.

O tema mais sensível, porém, é a Rússia: a crise na Ucrânia, país sob a esfera de influência de Moscou, deve ser discutida. O assunto pode causar uma saia-justa para a presidente Dilma Rousseff: além de o Brasil fazer parte do grupo de países emergentes Bric - do qual a Rússia faz parte -, o governo brasileiro até agora se esquivou de comentários sobre a questão ucraniana.

O governo da Ucrânia e o Ocidente acusam a Rússia de enviar soldados para combater ao lado de separatistas no leste ucraniano. O Kremlin nega as acusações. O conflito deixou ao menos 4 mil mortos nas regiões de Donetsk e Luhansk.

O Ocidente diz ainda que há fortes evidências de que o voo da Malaysia Airlines MH17, que caiu no leste da Ucrânia durante uma viagem entre Amsterdã e Kuala Lumpur (com 298 pessoas a bordo, todas mortas), teria sido derrubado por mísseis fornecidos pela Rússia a rebeldes. Moscou, por sua vez, culpa as tropas do governo ucraniano.

Clima

O jornal britânico Guardian relata que o comunicado final do G20 pode incluir um parágrafo sobre mudança climática. O tema é polêmico, já que a posição original da Austrália (anfitriã do encontro) era de que a cúpula deveria focar apenas em "temas econômicos".

O que mudou o cenário foi o acordo sem precedentes, anunciado na quarta-feira, entre Barack Obama e Xi Jinping, limitando futuras emissões de gases do efeito estufa por parte de EUA e China.

O anúncio não apenas coloca o clima como um tema "quente" no G20, como pode ajudar a levar adiante as negociações para um acordo climático global.