A revolução foi pior para a Líbia do que Khadafi?

Gaddafi (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Gaddafi comandou um brutal regime na Líbia e foi derrubado em 2011

Quando a cura é pior que a doença? Esta é uma pergunta sem resposta, mas quando se trata da Líbia pós-revolução, é uma questão a ser analisada.

A doença era a tirania brutal de Muamar Khadafi. A cura foi uma revolução apoiada por ataques aéreos internacionais, sucedida por um Estado fracassado que se tornou um campo para extremistas islâmicos.

Diplomatas tendem a ser otimistas profissionais. A maioria acredita que é possível chegar-se a um bom resultado em quase qualquer crise - pelo menos na teoria. Mas conversar sobre o colapso da Líbia é um teste duro para o sangue frio que eles costumam ter.

Sempre que, por exemplo, há algum pequeno sinal de progresso em meio a um aparente desastre, diplomatas britânicos costumam falar em "progresso na direção certa". Mas ninguém usa essa frase sobre a Líbia atual.

Leia mais: Primavera Árabe: Dez consequências que ninguém conseguiu prever

Em vez disso, os conselhos de viagem emitidos pela chancelaria britânica não deixam espaço para dúvidas. "Desaconselha-se qualquer viagem à Líbia devidos aos combates e a grande instabilidade no país".

"Cidadãos britânicos na Líbia são instados a deixar imediatamente (o país) por meios comerciais. A embaixada britânica em Trípoli foi fechada temporariamente e não é possível prestar assistência consular".

O alerta foi seguido pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas esta semana, ao anunciar sanções contra dois grupos islâmicos líbios acusados de terem ligações com o grupo Al-Qaeda no Magrebe Islâmico.

O governo britânico não chega a dizer que a Líbia está em colapso total mas analistas são mais diretos.

Forças rebeldes

O grupo de estudos Menas aponta para a decisão extraordinária da Suprema Corte da Líbia que considerou a Câmara dos Deputados do país inconstitucional.

"Esta decisão foi especialmente chocante para a Câmara", disse o Menas, "já que a decisão do tribunal era sobre se a realização de suas sessões (na cidade de) Tobruk era legal ou não.

"Por isso, a decisão de que a própria existência da Câmara (ao invés apenas sobre a sua localização) é ilegal foi um grande golpe contra o Parlamento. O tribunal também determinou que sua decisão não pode ser apelada e que todas as decisões tomadas pela Câmara deveriam ser consideradas nulas e sem efeito".

Direito de imagem Reuters
Image caption Facções rivais e forças do governo se enfrentam constantemente na Líbia

Então, o que aconteceu com o país "libertado" em 2011 de décadas de ditadura Khadafi?

Ocorreu-se o colapso - previsto por muitos especialistas - de uma frágil aliança de conveniência entre os rebeldes.

Em junho de 2014, a Líbia realizou sua segunda eleição nacional desde a derrubada de Khadafi. Mas poucos meses depois de ser eleito, o novo Parlamento foi forçado a deixar a capital, Tripoli, expulso por islamistas e milícias tribais em um país fragmentado e excessivamente armado.

A Câmara dos Deputados foi forçada a um exílio interno, reunindo-se na cidade de Tobruk, perto da fronteira leste da Líbia. Os islamitas têm a sua própria legislatura alternativa em Trípoli, o Conselho Nacional Geral.

Analistas apontam que, além do efeito desastroso desta ruptura interna, a guerra civil é um golpe fatal nas perspectivas de investimento estrangeiro, vitais para a Líbia. Quem deve negociar com os investidores? Há qualquer lugar do país que seja seguro para eles investirem?

Luz no fim do túnel?

Há alguma esperança de uma cura para a Líbia?

Os Estados Unidos foram forçados a deixar o país. A embaixada americana agora tem sede em Malta, despojada da maior parte de sua influência. Diplomatas britânicos trabalham na embaixada em Túnis.

A ONU está tentando atuar como mediadora entre as facções rivais mas, até agora, sem sucesso - o que não é totalmente surpreendente já que acredita-se haver mais de 1.700 diferentes grupos espalhados por todo o país brigando por poder.

Leia mais: Democracia ou desordem? As quatro lições da Primavera Árabe

A inteligência ocidental tende a confirmar a crescente infiltração de extremistas islâmicos, o surgimento de grupos ativamente envolvidos com o grupo 'Estado Islâmico' ou pelo menos simpáticos à ideia de um califado conquistar o que for possível no Norte da África e o Oriente Médio.

A Líbia pode tornar a situação grotesca na Síria parecer relativamente simples.

Mas nada disso equivale a dizer que a Líbia era melhor sob Khadafi. Foi o controle absoluto, disfarçado de ideologia, imposto por ele e sua família que destruiu qualquer fundação de um governo representativo.

Muamar Khadafi foi uma doença terrível. E a cura ainda não foi encontrada.

Notícias relacionadas