Economia de 'compartilhamento' ameaça donos de hotéis e taxistas

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Image caption Hoteleiros e taxistas reclamam que usuários do Airbnb e Uber não seguem normas ou pagam impostos

Há cinco anos, sempre que havia um grande acontecimento na cidade de Saskatoon, no Canadá, o albergue Chaplin Country Bed and Breakfast ficava lotado – mesmo estando localizado na cidade vizinha.

"Estou a dez minutos da cidade, então quando os hotéis e albergues de lá ficavam lotados, eu dava conta do excesso de demanda", diz a proprietária Kathy Chaplin.

Isso agora é coisa do passado. Com o crescimento da popularidade do site Airbnb – em que várias pessoas comuns oferecem quartos em suas casas para aluguel – a indústria hoteleira da região central do Canadá está em crise.

Só nas redondezas de Saskatoon, é possível se hospedar em 48 lugares diferentes, desde uma casa de três quartos a um sofá na sala de uma pessoa.

Sites de negociação direta – como Airbnb, Lyft, Uber e Taskrabbit – deram impulso a uma nova economia, em que vendedores e compradores se encontram sem intermediários.

Pessoas comuns, que talvez não tivessem intenção de colocar nada à venda nem oferecer nenhum serviço no mercado, se vêem incentivadas a ganhar um pouco de dinheiro com uma cama extra ou um banco do passageiro vago.

Já quem busca hospedagem consegue economizar dinheiro, se comparado com o que gastaria em um hotel. Uma vitória para todos os "pequenos" do mundo tudo.

Mas isso desperta a ira de alguns empresários de ramos tradicionais. Eles reclamam que estão em desvantagem, já que precisam pagar impostos e seguir várias normas de segurança e higiene que são dispensadas aos cidadãos comuns.

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Image caption Kathy Chaplin e seu marido não conseguem mais preencher a ocupção de seu albergue

"Há muitas pessoas que vivem disso, e se elas não conseguem clientes acabam perdendo sua fonte de sustento", diz o economista Guy Standing, da Universidade de Londres.

Mudando de ramo

Em São Francisco, serviços de compartilhamento de caronas como Uber, Lyft e Sidecar estão diminuindo a rentabilidade dos táxis tradicionais. Um relatório do departamento de trânsito da cidade revelou que o número de viagens de táxi caiu em 65% de janeiro de 2012 a julho de 2014.

Barry Korengold, taxista há 33 anos, está pensando em mudar de emprego.

"Não me agrada contemplar uma mudança de carreira com mais de 50 anos", diz Korengold. Mas ele explica que perdeu entre 25% e 50% da sua renda mensal desde janeiro de 2013.

Ele preside o sindicato dos taxistas de São Francisco. Korengold conta que seus colegas estão em situação ainda pior.

"Muitas dessas pessoas não conseguem sustentar suas famílias ou pagar o aluguel", diz. Ele compara a situação com o que teria acontecido com várias pequenas lojas e armazéns após a chegada de um gigante do varejo como o hipermercado Wal-Mart.

"Eles chegam, acabam com os pequenos negócios e de repente todo mundo tem de pedir emprego no Wal-Mart."

Concorrência

Os profissionais afetados por essas tecnologias não reclamam da ideia de enfrentar concorrência. O problema, segundo eles, é ficar em desvantagem por enfrentar regras e impostos mais rígidos.

Ter um táxi em São Francisco custa caro. A licença sai por cerca de US$ 250 mil (mais de R$ 620 mil) e o seguro pode custar US$ 10 mil (R$ 25 mil). Outros US$ 10 mil são necessários para converter o táxi para flex – uma exigência ambiental das autoridades.

Na cidade canadense de Waterloo, a dona do albergue Les Diplomates Executive Suites diz que paga 13% em impostos. Hoda Mohtar também paga US$ 4,7 mil (cerca de R$ 11 mil) em custos diversos, como seguro e publicidade.

A BBC entrou em contato com vários usuários do Airbnb em Saskatoon, no Canadá, para ouvir o seu lado da história, mas ninguém quis falar.

Regulação e multas

Para o economista Eric Brousseau, da Universidade Paris-Dauphine, a economia de compartilhamento ainda está no seu começo, e a legislação tributária e as normas de segurança ainda vão se adaptar no futuro, aumentando os custos para os usuários.

Ele diz que isso aconteceu na França, quando muitos fazendeiros receberam permissão para abrir albergues e hospedagens no campo. Inicialmente eles não seguiam as regras do setor hoteleiro, mas no fim isso mudou.

Isso já está acontecendo em alguns lugares, como Nova York. O procurador de Nova York, Eric Schneiderman, divulgou um relatório que apontou que 72% dos aluguéis via Airbnb na cidade são ilegais, por violar normas de segurança.

Em São Francisco e Portland, o Airbnb recolhe um tributo exigido pelas autoridades locais. O imposto é cobrado de quem aluga, e está embutido no preço da transação.

Na Espanha, motoristas sem licença de táxi que pegam passageiros através do Uber recebem uma multa de até 18 mil euros (mais de R$ 56 mil).

Na Alemanha, a Justiça determinou que os preços cobrados pelo aplicativo UberPop só podem cobrir os custos de quem aluga, e não dar lucro – ou seja, só pode fomentar o compartilhamento, não o negócio.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Capital.

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