'Eles choravam, eu os confortava'; veja relato do psiquiatra que tratava talebãs

Arquivo/Getty Direito de imagem BBC World Service
Image caption Combatentes do Talebã durante combate em 1995

No final da década de 1990, o Talebã controlava o Afeganistão. Mas os anos de guerra que levaram o grupo militante islâmico ao poder deixaram vários de seus combatentes sofrendo de graves problemas psicológicos.

Ao perceber a extensão do problema, um psiquiatra afegão aceitou tratar ex-combatentes do grupo, mesmo não concordando com a ideologia do Talebã.

"Lembro do primeiro grupo do Talebã que veio me ver", contou Nader Alemi à BBC. "Eles costumavam vir em grupos, não como indivíduos. Quando eu tratava um, ele espalhava a notícia".

"Combatentes apareciam com um pedaço de papel com o meu nome. Eles diziam que eu tinha curado o amigo e queriam ser curados também. A maioria nunca tinha ido a um médico antes."

Alemi é conhecido no Afeganistão e trabalha no norte do país, em Mazar-e-Sharif. As forças do Talebã capturaram a cidade em agosto de 1998 e assumiram o controle de grande parte dos arredores.

Ele era o único psiquiatra do norte do Afeganistão que também falava o idioma corrente entre os talebãs, o pashto.

"(O) Idioma era muito importante, por eu falar o idioma deles, eles se sentiam confortáveis para se abrir", disse.

Audiência com o governador

Alemi relata o episódio de quando foi convocado pelo governador de província e membro do Talebã Akthar Osmani. O mulá Akhtar era o segundo em comando do grupo, atrás apenas do mulá Omar, que também era líder espiritual do Talebã.

"Ele estava ouvindo vozes e sofrendo alucinações, os guardas-costas me disseram que ouviam quando ele delirava à noite", disse Alemi.

"Este homem esteve na linha de frente sabe-se lá por quanto tempo, e vai saber quantas pessoas ele viu morrer. Todas aquelas explosões e gritos podem ainda estar ecoando na cabeça dele, mesmo no conforto de seu gabinete."

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Alemi queria fazer consultas regulares com o mulá Akhtar. Mas o paciente tinha que sair em missões do Talebã a cada três meses, e comparecia apenas a poucas consultas. Em 2006, Akhtar foi morto em um ataque aéreo.

O psiquiatra também tratou outros membros importantes do Talebã.

"Ficamos meio que amigos. (Um deles) Me pediu para ir vê-lo em seu quartel-general - ele estava sofrendo de depressão e dores crônicas, receitei remédios para aliviar os sintomas", afirmou.

"Não lembro os números exatos dos que vieram me consultar, mas devem ser milhares. Tratei deles por quase três anos, antes de Mazar ser recapturada em novembro de 2001."

Sem tempo

A grande maioria de seus pacientes nunca tinha a um médico antes, e Alemi constatou que isso não era devido a algum tipo de proibição imposta pelos seus comandantes.

"Para ser honesto, eles estavam tão envolvidos com a missão e rotina diáia que não tinham tempo para medicação. Surpreendentemente, todos eles acreditavam em meus tratamentos."

"A razão que me davam para tentar explicar a confusão em suas mentes era a incerteza de suas vidas. Eles não tinham controle sobre o que estava acontecendo com eles. Tudo estava nas mãos de seus comandantes. Eles ficavam deprimidos pois nunca sabiam o que aconteceria de um minuto para outro", afirmou.

"A maioria deles não via a família havia meses ou anos, eles não tinham visto os filhos que já estavam crescidos."

O psiquiatra descobriu que muitos combatentes queriam morrer e detestavam suas vidas. "Eles me diziam que (queriam) cometer suicídio, mas não podiam, por causa dos valores islâmicos."

Image caption Alemi conta que, apesar de não concordar com a ideologia, tratava os talebãs como seres humanos

"Eu costumava tratar os talebãs como seres humanos, o mesmo que faço com meus outros pacientes... mesmo sabendo que eles causaram todos os problemas de nossa sociedade. Às vezes, eles choravam e eu os confortava", disse.

Saúde mental afegã

Em 2010, o Ministério da Saúde do Afeganistão informou que dois terços da população sofria de alguma doença mental e que as principais razões seriam violência, pobreza, violência doméstica, desemprego e vício em drogas.

Em 2006, a Organização Mundial de Saúde (OMS) relatou que menos de 1% do treinamento médico estava voltado para saúde mental.

Em meio a este quadro, fica mais fácil entender o tamanho do desafio enfrentado por Alemi.

Ele relata as dificuldades de dar continuidade ao tratamento de combatentes, que estavam sempre saindo para novas missões.

O preço de uma consulta era o equivalente a US$ 1 (cerca de R$ 2,53) e ele também passou a tratar de esposas e filhas de combatente.

"Elas também sofriam de depressão, pois não viam os maridos, pais, por um longo tempo e não sabiam o como seria o futuro."

Até a famosa polícia religiosa, a Amr Bil Ma'ruf, deixava Alemi trabalhar. O psiquiatra lembra como um dia os policiais estavam gritando em um alto-falante, falando para as pessoas saírem do trabalho e ir para a mesquita rezar, mas ele ainda estava em meio às consultas com pacientes.

"Um dos meus funcionários gritou de dentro do prédio: 'o doutor está ocupado vendo pacientes'", disse Alemi. Os policiais do Amr Bil Ma'ruf gritaram de volta: "Tudo bem, deixe ele trabalhar".

Escola clandestina

Ao mesmo tempo em que atendia os talebãs, a esposa de Alemi, Parvin, mantinha uma escola clandestina que dava aulas a cerca de cem meninas. Sob o governo do Talebã as meninas não podiam estudar.

Image caption O hospital particular onde Alemi atende, em Mazar-e-Sharif

"Tudo o que eu queria era educar as meninas. Agora, algumas são médicas, engenheiras e professoras. (...) Elas dizem que teriam ficado analfabetas se eu não as tivesse ensinado", disse Parvin.

Entre as alunas estavam as filhas do psiquiatra. Hoje, uma é médica e duas são professoras.

"Mantínhamos a escola em segredo. Pedíamos a nossas alunas que não contassem a ninguém. Era uma decisão perigosa, mas tenho orgulho que ter assumido o risco", acrescentou.

O casal temia ser pego, mas Alemi afirma que talvez o Talebã o visse de forma mais benevolente.

"Como eu não tinha nenhuma ambição ou interesse político, tenho certeza de que, mesmo se eles descobrissem nossa escola clandestina, ficariam calmos, pois sabiam que tudo o que eu queria era ajudar os outros."

Mais de 15 anos depois, Alemi ainda trata de afegãos traumatizados pelo conflito. As filas em seu hospital avançam pelos corredores, homens e mulheres em grupos separados. Eles sofrem de depressão e pesadelos.

Os problemas continuam os mesmos: incerteza, privações e não saber o que o futuro pode trazer.

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