Com boneco a tiracolo, ventríloquo reverte 'ordem de silêncio' em tribunal

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Image caption Conrad Koch, da África do Sul, estava impedido de criticar um cantor africâner o qual acusava de racismo

Um ventríloquo sul-africano conseguiu nesta quinta-feira reverter uma ordem de silêncio que o impedia de criticar um cantor africâner do país.

Conrad Koch foi ao tribunal acompanhado de seu boneco para ouvir a decisão do juiz sobre a proibição.

A ordem de silêncio havia sido imposta depois de Koch acusar Steve Hofmeyr de racismo devido a um tuíte do cantor. Nele, Hofmeyr dizia: "Não quero ofender ninguém, mas pelo que me consta os negros foram os arquitetos do apartheid. Vá saber".

O apartheid foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 na África do Sul no qual os direitos da grande maioria dos cidadãos foram limitados por um governo controlado pela minoria branca. Muitos deles falavam o africâner, variante do holandês que se popularizou no país com colonos europeus.

O magistrado Naren Sewnarain afirmou que o músico "havia exposto a si mesmo a críticas, sátiras e ao ridículo".

"O tribunal não acredita que o Sr. Hofmeyr deva receber tal tipo de proteção do Estado", afirmou o juiz.

Polêmica

No auge da briga que se desenrolou no Twitter no mês passado, Koch criticou os patrocínios aos shows do cantor.

Segundo Pumza Fihlani, correspondente da BBC em Joanesburgo, Hofmeyr sempre se envolveu em polêmicas e é frequentemente acusado de racismo. O cantor nega todas as acusações.

Muitos africâneres o veem como um herói, que tuita sobre injustiças, como os assassinatos de fazendeiros brancos e como esse grupo étnico "vem sendo marginalizado" desde o fim do governo controlado pela minoria branca em 1994, acrescenta Fihlani.

Em sua defesa, os advogados de Koch argumentaram que, como uma figura pública com opiniões fortes, Hofmeyr tinha consciência de que poderia esperar por uma "reação robusta".

A ordem de silêncio temporária impedia Koch de ameaçar, assediar ou fazer qualquer tipo de comentário difamatório sobre o cantor.

O ventríloquo também havia sido proibido de mencioná-lo nas redes sociais.

'Legião de fãs'

Koch tem uma legião de fãs na África do Sul e usa seu boneco multirracial, batizado de 'Chester Missing', para abordar temas espinhosos tais como corrupção, racismo e injustiça social, acrescenta a correspondente da BBC.

Hofmeyr não participou da audiência desta quinta-feira, mas foi representado pelo ativista pró-africâner Dan Roodt, que alegou que o tuíte do cantor não era ofensivo.

"Hofmeyr alega que todos os que viveram na África do Sul antes de 1994 (quando o apartheid acabou)... são corresponsáveis pelo regime de segregação racial, independentemente da cor."

Após a decisão judicial, 'Chester Missing' tuitou: "AMAANDLAAAAA!!!!!!!!!! Viva South Africa, viva!!!!!!"

Amandla, que significa "poder", era um grito de protesto comum entre ativistas anti-apartheid.

Em resposta, Hofmeyr tuitou: "Nós aceitamos a decisão do tribunal. Obrigado", para depois acrescentar, em africâner, "O fim da liberdade de expressão. Talvez a imprensa seja a próxima".

O cantor também foi obrigado a pagar as custas processuais de Koch.