Violinista causa polêmica ao repreender pais de criança que tossia em concerto

Kyung-Wha Chung (BBC)
Image caption Crédito: Southbank CentreReconhecida internacionalmente, sul-coreana Kyung-Wha Chung interrompeu apresentação em Londres para reclamar de criança

Uma famosa violinista chocou os espectadores de uma casa de espetáculos em Londres ao repreender abertamente os pais de uma criança que tossia na plateia.

A sul-coreana Kyung-Wha Chung tocava a Sonata em G Maior de Mozart - sua primeira apresentação na capital britânica depois de uma ausência de 12 anos - quando de repente interrompeu o ato para ralhar com as tosses durante momento inoportuno.

"Tragam-na de volta quando ela estiver mais velha", repreendeu Chung, de 66 anos, referindo-se à criança.

A atmosfera na casa de espetáculos, que já estava carregada por causa da expectativa sobre o retorno da violinista, ficou ainda mais tensa, escreveu a crítica do jornal The Times, Anna Picard.

"Após essa repreensão pública, a atmosfera, que já estava azeda, ficou tóxica."

O violinista britânico Thomas Gould, que também estava na plateia, tuitou: "Difícil ser envolvido pelo Mozart de Kyung-Wha Chung depois da curiosa explosão com os pais de uma criança que tossia".

Já a violinista Elizabeth Stahlmann notou que havia "muitas pessoas tossindo durante a apresentação" e que "não foi legal criticar somente a criança".

O repórter da BBC Magnus McGrandle, que também assistia ao concerto, disse que "não havia mais ou menos gente tossindo" durante o espetáculo do que em qualquer outro durante o inverno do hemisfério norte.

"O que era notável era o número de crianças entre o público - talvez umas 50 no total."

O repórter disse que, após o sermão, a violinista passou os 20 minutos seguintes olhando de relance de vez em quando para a direção da família enquanto tocava.

"Não havia dúvidas do que ela estava expressando: sua filha não deveria estar aqui", contou McGrandle.

Apoio

Algumas pessoas, no entanto, se solidarizaram com a atitude da violinista.

"Gostaria de expressar publicamente a minha gratidão a Chang por chamar atenção para esse problema", disse o compositor Sasha Valeri Millwood no site Slipped Disc.

"O mau comportamento da plateia tem arruinado muitos bons concertos na minha própria experiência, tanto em ocasiões onde eu me apresentava quanto quando estava apenas na plateia."

Direito de imagem BBC World Service

A tosse é um elemento conhecido dos músicos clássicos. Um estudo acadêmico divulgado em 2013 sugeriu que as pessoas pareciam tossir mais em concertos do que na vida normal. O problema é mais agudo no inverno.

"Nessa época do ano em particular, tossir não é incomum em eventos em qualquer lugar", afirmou a casa de espetáculos, o Royal Festival Hall, em comunicado.

O centro cultural, que recebeu uma queixa formal dos pais da criança após o concerto, procurou pôr panos quentes na polêmica.

"Não desencorajamos pais que tragam seus filhos a qualquer evento noturno e sempre fazemos questão de checar que eles estejam conscientes da natureza do evento", afirmaram os organizadores.

"Sabemos que Kyung Wha Chung é uma incentivadora dos jovens no universo da música clássica".

Em entrevista ao programa Today, na BBC Radio 4, no ano passado, a pianista Susan Tomes observou que a percepção da tosse em concertos clássicos pode estar associada aos níveis de ruído aos que estamos acostumados na nossa vida cotidana.

"Há dezenas de tipos de música que são normalmente tocados muito alto, mas a música clássica não é. Só quando você vai a um concerto de música clássica se dá conta de quão silenciosos os instrumentos acústicos são", afirmou a pianista.

Personalidade intensa

O concerto de Kyung-Wha Chung, ausente da cena londrina por mais de uma década em parte em decorrência de um problema nos dedos, estava carregado de expectativa.

Pôsteres em tamanho real da artista sul-coreana se multiplicaram pela cidade alardeando "o retorno da lenda".

Chung ganhou fama mundial em 1970 após executar o Concerto para Violino de Tchaikovsky com a Orquestra Sinfônica de Londres.

O jornal The Sunday Times a descreveu como uma das mais proeminentes violinistas no século 20.

Em 1990, a artista teve de voltar ao palco oito vezes para saudar a plateia após tocar o 2º Concerto para Violino de Bartok no Teatro de Champs Elysées em Paris.

Mas sua carreira sofreu um revés quando ela perdeu a sensibilidade do dedo indicador esquerdo em 2005. Segundo rumores, devido a uma overdose de cortisona, usada para tratar inchaço.

Chung, no entanto, continuou a praticar os atos em sua cabeça – uma alternativa, segundo ela, que lhe permitiu manter-se em forma.

Apesar do polêmico retorno à ativa, as críticas sobre o seu concerto em palcos londrinos foram, na maioria, positivas.

"Na segunda metade, ela definitivamente se acalmou. No fim, ela era só sorrisos - e tocou três ou quatro bis", disse o repórter da BBC.

"Mas os aplausos ensurdecedores da plateia não foram suficientes para acordar as dezenas de crianças que tinham caído no sono há muito tempo."