Massacre no México: Identificados restos mortais de primeiro estudante

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Image caption Família faz homenagem a estudante assassinado no massacre; 43 jovens foram mortos

Era a notícia que muitos esperavam e que ninguém desejava. O procurador geral do México, Jesús Murilo Karam, confirmou neste domingo que alguns fragmentos de ossos encontrados em Cocula, correspondem "um bilhão de vezes" a Alexander Mora Venancio, de 19 anos de idade, um dos 43 estudantes desaparecidos há 70 dias.

"É ao menos um bilhão de vezes mais provável que se trate do filho biológico de Ezequiel Mora Cháves, assim como o irmão biológico de Omar Mora Venancio e Hugo Mora Venancio em comparação com os de qualquer outro indivíduo relacionado", dizia o parecer emitido pela Universidade austríaca de Innsbruck, que realizou a análise do DNA.

Trata-se do jovem estudante do primeiro ano da Escola Normal de Ayotzinapa, o caçula de oito filhos de um casamento camponês, que sempre quis ser agrônomo, mas escolheu para perseguir seu sonho de se tornar um professor rural.

Sonho que terminou na sexta-feira, 26 de setembro, no lixão do povoado de Cocula, Guerrero.

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Confirmação

O resultado do teste confirma a versão divulgada pelo próprio Murilo Karam em 8 de novembro e que foi amplamente repetida na coletiva de imprensa deste domingo.

Os estudantes foram detidos – por ordens do ex-prefeito de Iguala, José Luis Abarca – por policiais municipais de Iguala e Cocula, que os entregaram a assassinos dos "Guerreiros Unidos".

Logo, segundo confessaram três pessoas, foram assassinados, tiveram seus corpos queimados e os restos jogados no Rio Cocula.

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Image caption Pai de Alexander fica emocionado após saber da confirmação da morte do filho

Os fragmentos ósseos encontrados em uma bolsa no leito do rio foram enviados á Universidade de Innsbruck.

"A mostra foi submetida junto com outros 16 procedimentos de extração de DNA nuclear, ou seja, no núcleo da célula, utilizando uma técnica altamente sensível", disse o promotor em uma declaração à imprensa em que não permitiram aos jornalistas fazerem perguntas.

Ele acrescentou: "O perfil genético completo que foi extraído a partir desta amostra e submetido a procedimentos comparativos, utilizando amostras de referência fornecidos pelo advogado e a equipe argentina de antropologia forense. Houve correspondência com um dos grupos familiares."

Os exames ainda acontecem para identificar mais corpos.

Murillo Karam acrescentou que, até o momento, um total de 70 pessoas já foram presas, incluindo 44 policiais municipais, e insistiu que a investigação vai chegar a uma conclusão "aconteça o que acontecer".

Ele disse que ainda está procurando por mais 14 soldados e outras onze pessoas ligadas ao crime.

Família

A confirmação da identidade do jovem foi recebida com dor especial em uma pequena casa na comunidade de Pericón em Tecoanapa, Guerrero.

Ali vive Ezequiel Mora, o pai de Alexander, com seus filhos. A mãe morreu em 2010.

Conforme relatado pela AFP, dentro da casa há um pequeno altar com uma imagem do jovem – é a foto que estampa os jornais do mundo todo neste fim de semana.

"Alexander era a única criança que queria ir embora. Ele decidiu ir para a escola porque seu sonho era se formar professor e foi isso que tirou sua vida", disse à AFP o pai.

Omar Garcia, um líder estudantil de Ayotzinapa, descreveu Alexander como "um parceiro muito forte perseverante naquilo que ele fazia", ao jornal La Jornada. "É uma grande perda", acrescentou.

Garcia disse que a família reagiu "com grande coragem, muita dignidade e determinação" à morte de Alexander.

"Quando seu pai, Ezequiel ouviu a notícia, apenas disse que queria justiça."

Protesto

A família do jovem Alexandre Mora Venancio foi informada na sexta-feira por especialistas argentinos sobre os resultados.

Os pais dos alunos têm indicado em várias ocasiões que só confiam em especialistas da América do Sul.

A informação foi divulgada neste sábado, por meio de redes sociais. O anúncio coincidiu com um novo protesto pelas ruas da Cidade do México para exigir respostas do governo sobre o paradeiro dos 43 estudantes.

Durante a marcha, os pais dos jovens disseram que continuam pedindo e exigindo justiça e os outros 42 jovens de volta.

O desaparecimento e provável assassinato dos estudantes se tornou a pior crise que o presidente Enrique Peña Nieto enfrentou desde que assumiu o cargo, há dois anos.

Ele também atingiu a esquerda, já que prendeu o ex-prefeito de Iguala do Partido da Revolução Democrática.

O maior protesto sobre o caso até aqui aconteceu em 20 de novembro na Cidade do México, com dezenas de milhares de pessoas cercando a praça da Constituição.