Dilma recebe relatório, chora e tenta apaziguar ânimo de militares

Dilma se emociona na apresentação do relatório da Comissão da Verdade (Ag Brasil) Direito de imagem Ag Brasil
Image caption Presidente prestou homenagem aos que 'viveram tempos de morte, dor e sofrimento'

Muito emocionada, a presidente Dilma Rousseff recebeu das mãos de Pedro Dallari, presidente da Comissão Nacional da Verdade, o relatório final do órgão nesta quarta-feira.

Ela, que lutou contra o regime milita e foi presa e torturada por isso, chorou ao mencionar as vítimas da repressão e seus familiares. Foi aplaudida de pé.

No entanto, a presidente indicou que não apoia o pedido de punição de agentes da ditadura que cometeram graves violações aos direitos humanos, como tortura, execuções, ocultação de cadáveres e estupros.

Numa menção indireta à Lei da Anistia, que em 1979 perdoou crimes praticados tanto por militares quanto pelos opositores do regime, Dilma defendeu o respeito aos pactos políticos que permitiram a transição da ditadura ao regime democrático.

"Nós reconquistamos a democracia à nossa maneira, por meio de lutas duras, por meio de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais que estão muitos deles traduzidos na Constituição de 1988", afirmou.

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"Assim como respeitamos e reverenciamos – e sempre o faremos – todos que lutaram pela democracia, todos que tombaram nesta luta de resistência, enfrentando bravamente a truculência ilegal do Estado, também reconhecemos os pactos políticos que nos levaram à redemocratização", acrescentou.

A presidente procura assim apaziguar os ânimos com os militares, diante de um possível desconforto criado pela recomendação do relatório final da Comissão da Verdade de que militares que cometeram graves violações de direitos humanos sejam levados a julgamento.

Em algum dos vários momentos em que se emocionou, Dilma prestou homenagem aos "que viveram tempos de morte, dor, sofrimento e, por isso, de grandes perdas".

Futuro da democracia

Num momento em que uma parcela muito pequena – mas barulhenta – da população pede nova intervenção militar no governo, a presidente também destacou a importância do trabalho da CNV para o futuro da democracia e para que as gerações que não viveram o golpe militar tenham consciência dos arbítrios do passado.

"O trabalho dessa comissão faz crescer a possibilidade do Brasil ter uma futuro plenamente democrático e livre de ameaças autoritárias".

Antes de Dilma, discursou o presidente da CNV, Pedro Dallari, que prestou homenagem ao ministro da Defesa, Celso Amorim. Ao longo do trabalho da comissão, seus membros não pouparam críticas às Forças Armadas, que não estariam colaborando adequadamente com os trabalhos de investigação do regime militar.

"Em que pese as circunstâncias difíceis, por razões óbvias, em nenhum momento deixou de haver um diálogo respeitoso entre entes do Estado brasileiro. E isso se deveu em grande parte à forma como o ministro Celso Amorim se conduziu nesse relacionamento".

O documento entregue hoje tem três volumes de 4.400 páginas. O maior deles, o terceiro, trata das 434 vítimas cujas mortes e desaparecimentos estão confirmados.

Dallari ressaltou que esse registro não é definitivo e que mais casos ainda devem ser revelados com a continuidade das investigações, principalmente entre camponeses e indígenas.

A CNV recomendou em seu relatório final a criação de um órgão permanente para dar continuidade aos trabalhos do órgão.

Ao final da cerimônia, militantes do Levante Popular leram o poema Rondó da Liberdade, de Carlos Marighella, e gritaram palavras de ordem: "levante pela justica, levante pela verdade, levante está na rua para acabar com a impunidade".

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