Motorista de ambulância personalidade do ano da 'Time' relata experiência com ebola

Foto: Moe Doiron/Editor de Fotos/The Globe and Mail Direito de imagem BBC World Service
Image caption Foday Gallah dirige uma ambulância em Monrovia e leva os casos suspeitos de ebola para centros de tratamento do MSF

A revista americana Time escolheu como 'personalidade do ano de 2014' médicos, enfermeiras, coveiros e outros trabalhadores do setor de saúde que lidaram com a crise do ebola.

Um dos rostos estampados na capa da revista é o de Foday Gallah, motorista de ambulância em Monróvia, capital da Libéria, que chegou a contrair a doença.

No comovente relato abaixo, ele dá detalhes sobre seu trabalho e a determinação de vencer a doença que quase o matou:

"Em agosto, fui buscar um menininho de quatro anos na casa dele. Conhecia bem o lugar. Já tinha levado sete membros da família dele, todos acabaram morrendo. Ele era o último.

Não tinha buscado ele antes porque ele não tinha apresentado sintomas. Mas pedi aos vizinhos para ficarem de olho nele e me chamar caso ele ficasse doente.

Durante a tarde, depois que busquei o pai, avó e irmãos dele pela manhã, recebi o telefonema. Fui direto para a casa dele e vi o menino em uma poça de vômito.

Leia mais: Pior epidemia de ebola da história começou com a morte de um menino

Peguei-o no colo e, a caminho da ambulância, ele vomitou de novo, no meu peito. Meu traje de proteção não estava completamente selado, mas naquele momento eu estava muito concentrado no que estava fazendo, levando-o para o centro de tratamento dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) o mais rápido possível.

No sábado seguinte tive febre. Tomei remédios, mas a febre não diminuía. Disse à minha família para ficar longe e, no dia seguinte, fui ao centro de tratamento para fazer o exame.

Sabia que ia acabar pegando (a doença). Muitos ótimos médicos e enfermeiros na linha de frente tinham morrido. Eles tentaram se proteger, mas o ebola os pegou.

Eu tinha levado tantos pacientes em minha ambulância e tinha visto tantos morrendo em meus braços. Estava com medo, mas rezei e Deus não permitiu que entrasse em pânico.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Pacientes suspeitos de ebola chegam a centros de tratamento já muito debilitados

Você nem queira saber como é estar com ebola. Se você não for psicologicamente forte e se Deus não estiver do seu lado, você vai cair antes de ser levado para um centro de tratamento, pois a dor é muito grande. Você não tem apetite e nada fica em seu organismo. Você vomita muito, você fica desidratado - e então vem a diarreia. É ruim, terrível, devastador. Faz você querer desistir da vida.

Tudo o que eu queria era ser cuidado, que alguém demonstrasse amor. E os médicos e enfermeiras que me trataram demonstraram muito amor e preocupação comigo.

Fiquei lá por duas semanas. Na mesma barraca em que eu estava, no centro de tratamento, um bebê de dois meses morreu da doença. E eu fiquei deitado ouvindo uma mulher que chorou até morrer. Mas o menininho que me infectou também estava lá - e sobreviveu.

Não sei por que sobrevivi. Talvez por causa de minha fé em Deus, ou talvez por ter ido imediatamente ao centro de tratamento. E, graças a Deus, eu não fui estigmatizado pela minha família. Eles estavam assustados - minha mãe e meu irmão - mas nunca me deram as costas e o meu chefe também, Honorable Joseph. Eles me deram coragem.

Quero que as pessoas saibam que o ebola não é, necessariamente, uma sentença de morte e você pode sobreviver.

Voltei para o trabalho, em meio período, no começo de dezembro. Tenho alguma imunidade à doença agora, mas ainda uso roupas protetoras.

Sempre fui gentil com meus pacientes, mas minha experiência me fez dobrar meus esforços com eles. Agora eu converso com eles quando estão em minha ambulância, para manter viva a esperança deles.

Leia mais: Coveiros cruzam os braços em cidade assolada pelo ebola

Eu falo para eles: 'Olha, você não vai morrer, nós vamos te levar para o centro de tratamento. Lembre de ouvir os médicos de lá, aceitar os conselhos deles e tomar os remédios. Você vai ficar bem, você vai voltar para sua família'.

Em fevereiro, antes do vírus ebola, nosso trabalho era ir até as comunidades buscar mulheres grávidas, vítimas de acidentes e pacientes com hipertensão.

Agora, as equipes de ambulâncias estão trabalhando 24 horas por dia. Quando as pessoas estão morrendo, você precisa estar em toda parte da cidade. É frenético, nossa carga de trabalho triplicou e não temos ambulâncias suficientes em Monróvia para lidar com a doença.

Recentemente, transportei 11 pessoas da área Omega e todas elas morreram. Algumas vezes me sinto tão triste - quando estou olhando alguém e sei que ele ou ela está morrendo. Algumas vezes eu só quero desistir.

A maioria dos meus amigos agora fica longe de mim por causa do meu trabalho. Alguns deles falam comigo pelo telefone, mas não vêm me ver pessoalmente.

Temos uma reação mista das pessoas da comunidade. Algumas vêm olhar as roupas de proteção estranhas que usamos, mas também encontramos resistência forte. E você precisa ficar atento, pois quando está vestindo todo aquele equipamento, você não consegue se mover tão rápido.

Direito de imagem AP
Image caption Gallah, junto com outros profissionais de saúde que enfrentam o ebola, foi capa da 'Time' e personalidade do ano de 2014

Em certa ocasião, no bairro de Montserrado, estavámos colocando um homem e uma senhora idosa na ambulância quando um grupo de jovens começou a nos cercar. Eles gritaram, falando para deixarmos o irmão deles para trás.

'Se vocês o levarem, vamos machucar vocês e acabar com a ambulância', eles disseram. Você podia sentir que eles falavam sério e estavam preparados para causar caos. Meu colega e eu conseguimos sair de lá, mas tivemos que deixar o paciente para trás.

Muitos dos pacientes que pego estão muito assustados. Alguns deles só choram. Eles choram por causa da dor, mas também por causa das famílias, que os abandonaram.

Me lembro de uma senhora de 70 anos. Quando chegamos na casa dela, ela estava sozinha, era um apartamento de quatro quartos - as crianças tinham ido embora, o marido, toda os familiares tinham ido embora e ela estava sozinha e tremendo. Eu podia ver a morte nos olhos dela. Meu colega e eu a pegamos e a levamos para a ambulância. Quase morremos sufocados naquele dia, em nossos trajes de proteção.

Depois eu descobri que ela sobreviveu e, na verdade, nunca tinha contraído ebola. Mas esta é a situação que estamos enfrentando.

Leia mais: Voluntário tenta convencer paciente com ebola a voltar a tratamento

Digo às pessoas para que não abandonem seus parentes. Digo que as coloquem em uma sala, em um lugar isolado, e que os ajudem, empurrando comida e água em sua direção, com um bastão. Digo a eles para dizer: 'olha, mãe ou pai, fique em seu quarto. Não posso chegar perto, não posso te tocar, mas vou cuidar de você até a ajuda chegar'.

Quando fiquei doente, minha família foi afastada e estigmatizada. Acho que esta é a forma errada de lutar contra a doença. É por isso que as pessoas estão escondendo (que têm a doença) e morrendo antes de ser levadas para centros de tratamento.

Estamos lutando contra um inimigo desconhecido. Nos tempos da guerra civil, há pouco tempo, se você ouvisse que o inimigo estava vindo do norte, você podia arrumar as malas e ir para o leste. Você podia ver as balas voando durante a noite, você podia ver homens armados andando nas ruas.

Mas o ebola é invisível e não há como saber de onde virá o próximo ataque. Ele apenas te acerta e é isso."

Notícias relacionadas