Dilma se diz surpresa e chama de 'fantástico' diálogo EUA-Cuba

Dilma Rousseff e Cristina Kirchner na reunião do Mercosul | Foto: EPA Direito de imagem EPA
Image caption Dilma afirmou que política de investimento brasileiro em Cuba demonstra sua importância para a região

A presidente Dilma Rousseff disse, nesta quarta, na Argentina, que não imaginava a retomada da relação diplomática entre Estados Unidos e Cuba e definiu o fato como "fantástico".

A presidente falou durante discurso ao receber a presidência temporária do Mercosul, que ficará com o Brasil durante os próximos seis meses – uma rotatividade de praxe que é feita por ordem alfabética entre os países do bloco.

"Imaginamos que nunca veríamos esse momento do início da relação entre Estados Unidos e Cuba. Quero saudar o presidente de Cuba e o presidente dos Estados Unidos e, principalmente, o Papa Francisco", afirmou, referindo-se à intermediação do diálogo feita pelo pontífice.

Dilma disse ainda que este é um momento que "marca uma mudança na civilização nos nossos dias". Ela voltou a falar no assunto quando abordada por cinegrafistas das televisões brasileiras que a esperavam à saída do encontro, minutos antes do seu retorno para Brasília.

"Eu achei fantástica essa retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba. Acredito que isso é um marco das relações da nossa região e no mundo. Acredito que a possibilidade de relacionamento, o fim do bloqueio, o fato de que Cuba tem hoje condições plenas de conviver na comunidade internacional é algo extremamente relevante para o povo cubano e para toda a América Latina."

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Presença brasileira

A presidente falou ainda sobre a presença do Brasil em Cuba através de investimentos ampliados nos últimos anos.

"Fico muito feliz, porque toda a política do governo brasileiro até agora tem sido enfatizar – não só do ponto de vista retórico, mas com ações concretas – que a forma pela qual Cuba tem de ser integrada são ações concretas. Algo que foi tão criticado durante a campanha", afirmou.

Ela se referia ao investimento brasileiro no porto de Mariel, criticado durante a campanha eleitoral para a presidência pelo candidato Aécio Neves, do PSDB. "O porto de Mariel mostra, hoje, a sua importância para toda a região. E para o Brasil, na medida em que é estratégico pela sua proximidade com os Estados Unidos", disse Dilma.

A reaproximação entre Cuba e Estados Unidos acabou virando um dos principais temas da reunião do Mercosul.

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Image caption Presidente venezuelano afirmou que Obama teve "ato de coragem" ao se reaproximar de Cuba

Até então, o encontro vinha sendo marcado pelas preocupações com a queda no comércio bilateral entre Brasil e Argentina – cerca de 27% nos 11 meses deste ano, frente ao mesmo período do ano passado – e pela expectativa em torno da retomada das discussões para a entrada da Bolívia como membro pleno do bloco.

Em seu primeiro discurso, antes de citar Estados Unidos e Cuba, Dilma tinha dedicado palavras à questão comercial na região e agradeceu ao presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, pela "contribuição" ao bloco.

Esta é a ultima reunião do Mercosul da qual Mujica participa, já que ele passará a presidência para o sucessor em março próximo.

Dilma ficou com a voz embargada ao falar sobre Mujica. Ele também mostrou-se emocionado e acabou aplaudido de pé. Ex-guerrilheiro, preso e torturado na ditadura uruguaia, Mujica disse que "não nasceu presidente e que continuará sendo um lutador social".

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'Ato de coragem'

Mujica também foi elogiado pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. No entanto, Maduro falou muito mais sobre a reaproximação "histórica" dos Estados Unidos e Cuba.

"Estamos felizes pela liberação dos três heróis cubanos (os espiões devolvidos a Havana pelo governo americano). É uma vitória de Fidel, vitória histórica do povo cubano, hoje, 17 de dezembro. É preciso reconhecer que o gesto de Obama é um gesto de coragem", afirmou Maduro.

Maduro, Cristina Kirchner, anfitriã do encontro, e Dilma exaltaram o papel do papa Francisco, que mediou o diálogo entre os dois países. Quando Maduro citou o papa, ex-cardeal de Buenos Aires, Cristina o interrompeu e disse no microfone: "E hoje é o aniversário dele, do papa Francisco".

O assunto dominou os discursos do Mercosul. Cristina foi a primeira a citar o tema internacional do dia. "Este é um fato que nos comoveu. Que bom que ocorreu durante uma reunião do Mercosul. O presidente Obama anunciou que abrirá embaixada em Cuba, foi uma decisão inteligente do presidente dos Estados Unidos", disse.

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Image caption Reaproximação entre EUA e Cuba dominou encontro entre presidentes do Mercosul

Microfone aberto

A reunião entre as autoridades do Mercosul durou menos de seis horas e questões especificas, como as barreiras comerciais argentinas, criticadas por empresários brasileiros, não foram discutidas publicamente.

Quando a transmissão dos discursos dos presentes para a imprensa terminou, os microfones continuaram abertos – provavelmente sem que Dilma e Cristina soubessem.

Cristina perguntou a Dilma sobre a "mudança ministerial" e Dilma respondeu que "estava difícil". Cristina perguntou ainda se ela tomará posse nesta quinta, e Dilma respondeu: "Não, não, amanhã é a diplomação".

De blusa vermelha, a presidente brasileira mostrou-se sorridente no desembarque, quando até assinou autógrafo na camiseta de futebol pedida por um argentino na pista do aeroporto.

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