Poluição dificulta contratação de estrangeiros em Pequim

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Image caption Empresas oferecem condições especiais a quem encarar poluição de Pequim

Depois de cinco anos em Pequim, Hannah e Ben Sanders - um casal de britânicos que trabalha na filial chinesa da renomada escola Harrow - decidiram fazer as malas e voltar para o Reino Unido.

"Nós havíamos planejado ficar seis anos. Mas a poluição foi o fiel da balança", diz a britânica de 34 anos, mãe de duas crianças. "Não me sinto segura em deixar meu filho de dois anos de idade brincar ao ar livre. A poluição limita as atividades que se pode fazer como família."

Sem estatísticas oficiais sobre o assunto, a BBC conversou com pessoas de diversas empresas, escolas, embaixadas e consultorias. Todas elas repetiram o mesmo raciocínio: a China é uma plataforma essencial para inúmeros negócios no mundo de hoje, mas Pequim está perdendo atratividade junto aos estrangeiros por causa da poluição.

Em um questionário, a Câmara Americana de Comércio pergunta a seus 365 membros se suas empresas tiveram dificuldade em recrutar pessoas para trabalhar na China devido à qualidade do ar no país.

A resposta em 2014 foi "sim" para 48% dos entrevistados. Em 2013, esse índice havia sido 34%; em 2008, 19%.

Profissionais relatam pedir transferência para outras empresas só para fugir da poluição. Quem sofre com isso são as agências de recrutamento, que têm dificuldades de trazer grandes executivos para o país.

"Pequim tem perdido alguns pontos a cada ano que se passa", diz Angie Eagan, diretora da MRCI, que contrata funcionários para outras empresas.

Atração menor

"Quando voltei para Pequim depois das férias de verão do ano passado, eu pensei 'o que eu ainda estou fazendo aqui?'", conta a professora de jardim de infância, Alison Thompson.

Ela e o marido, um executivo de uma empresa de petróleo e gás, se mudaram para Tóquio. A empresa de seu marido ainda não conseguiu achar um substituto para ele.

Devido aos altos salários oferecidos, a China é o destino favorito entre funcionários do banco multinacional HSBC, segundo uma pesquisa interna.

Mas outra pesquisa recente com 5 mil estrangeiros que trabalham em diversas empresas de Pequim indicou que 56% mudariam de emprego e cidade devido à poluição.

Em condição de anonimato, vários reitores de escolas internacionais com filiais em Pequim disseram à BBC que o número de alunos estrangeiros caiu 5% no ano passado. Duas embaixadas revelaram que estão com problemas para preencher vagas.

Os pais estão preocupados com os efeitos de longo prazo da exposição de seus filhos à poluição. Muitos lembram do fenômeno apelidado de "arpocalipse" no ano passado, quando uma nuvem marrom de poeira pairou no céu da capital chinesa por semanas.

Reagindo à indignação coletiva, o premiê Li Keqiang prometeu "lutar na guerra contra a poluição". Sistemas de monitoramento foram lançados em várias cidades.

Um estudo da OMS afirma que a poluição do ar contribuiu para 1,2 milhão de mortes prematuras na China em 2010 - 40% do total global.

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Image caption 'Arpocalipse' de Pequim fez muitas famílias desistirem da cidade

No país, vários acadêmicos criticaram esses números - dizendo que na verdade eles devem ser bem maiores.

Salários e extras

Mas apesar de tudo, Pequim continua sendo a capital política e financeira da segunda maior economia do planeta e portanto, um imã para profissionais estrangeiros.

Para tentar amenizar seu problema imediato, algumas empresas estão adotando táticas radicais: oferecem pacotes de salários generosos e pagam passagens aos executivos para que suas famílias possam morar em lugares menos poluídos.

Escritórios e casas têm sistemas sofisticados de filtros de ar. Máscaras contra poluição são distribuídas no ambiente de trabalho.

"As empresas fazem o que podem. Mas a verdade é que as pessoas estão indo embora. E está ficando cada vez mais difícil atrair substitutos", diz o secretário geral da Câmara Europeia de Comércio da China, Adam Dunnett.

"As pessoas estão surpresas que a poluição só piora e já perceberam que não é apenas um problema momentâneo", disse Adam Dunnett.

Leia a reportagem original em inglês no site BBC Capital.

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