Temor de crise interna faz Líbano restringir entrada de sírios

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Image caption As novas medidas imigratórias pretendem conter o fluxo de refugiados sírios para o Líbano, onde as autoridades estimam mais de um milhão de entradas desde 2011

O temor de uma crise interna fez com que o governo do Líbano anunciasse no domingo medidas de controle da entrada de refugiados da Síria no país.

A partir dessa semana, sírios precisarão de visto para entrar no Líbano depois de décadas de trânsito relativamente livre entre os dois países.

Segundo estatísticas oficiais do governo, há cerca de 1,1 milhão de refugiados sírios registrados no país, mas estima-se que pelo menos outros 500 mil tenham entrado no Líbano desde o início da guerra civil no país vizinho, em março de 2011.

Esse contingente equivaleria a um terço da população libanesa e as autoridades do país temem uma crise interna. Com uma previsão de crescimento econômico de apenas 1,5% em 2014 e com o custo de vida em alta, muitos libaneses não veem com bons olhos o uso de recursos do governo para dar assistência aos refugiados.

Em algumas regiões do país, autoridades locais impuseram limites no número de entradas de sírios. E há relatos de agressões e depredações.

Equilíbrio

E há o temor de que o "balanço religioso" do Líbano, país em que muçulmanos (54%) e cristãos (40,5%) são os grupos majoritários da população.

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Image caption O governo libanês afirma que casos mais vulneráveis de pedidos de asilo, como os de crianças, continuarão a receber atenção especial

Se anteriormente sírios podiam ficar automaticamente até seis meses no Líbano sem necessidade de visto, agora será necessário fazer uma entrevista e o visto terá duração limitada pelas autoridades.

Para Ron Redmond, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) em Beirute, as novas medidas causam preocupação por não conter uma posição mais clara em relações a casos humanitários.

"O governo diz que dará acesso aos casos mais extremos, mas não vimos isso coberto pelas medidas anunciadas. Gostaríamos de algo oficial que defina como o sistema vai funcionar agora para que possamos ter certeza de que os refugiados mais vulneráveis consigam asilo", disse Redmond à BBC.

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Image caption Segundo estimativas do governo libanês, o número de refugiados sírios pode chegar a quase um terço da população do país

O fluxo de refugiados põe pressão sobre serviços como saneamento e saúde. Segundo estimativas veiculadas na imprensa europeia, o governo libanês e a ONU já gastaram o equivalente a mais de R$ 4 bilhões para tentar absorver os refugiados.

Para especialistas como Rami Khouri, da Universidade Americana em Beirute, a reação mais recente do governo libanês é previsível.

"As autoridades libanesas estão tentando descobrir uma maneira de continuar ajudando os sírios passando por necessidade, mas sem que isso destrua o país", afirma.