Por que desligar aparelhos eletrônicos no avião?

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Tenho um pequeno pecado a confessar. Em março passado, meu avião estava se preparando para decolar do aeroporto de Heathrow, em Londres, quando um comissário de bordo fez o habitual pedido para que os passageiros desligassem seus aparelhos eletrônicos. Em vez de obedecer, empurrei meu smartphone para o fundo do bolso.

Eu tinha e-mails de trabalho importantes para receber e, claro, não seria meu aparelhinho que faria o avião despencar do céu, certo?

Bem, parece que não sou a única pessoa a pensar assim. Uma pesquisa recente revelou que quatro em cada dez passageiros nos Estados Unidos admitiram nem sempre desligar seus aparelhos eletrônicos nos aviões. Um caso famoso foi o do ator Alec Baldwin, que reagiu furiosamente no Twitter depois de ter sido retirado de um voo entre Los Angeles e Nova York por se recusar a parar o videogame Words With Friends em seu telefone.

De acordo com as regulamentações, que são bastante semelhantes em todo o mundo, o uso de aparelhos eletrônicos portáteis não é permitido abaixo de 3.000 metros de altitude, mesmo no "modo avião", que impede a transmissão de sinais. Acima dessa altitude, aparelhos como laptops e MP3 players podem ser usados, mas telefones precisam permanecer desligados.

A explicação é que essas leis são importantes para evitar uma interferência potencialmente perigosa entre os sinais desses equipamentos e os sistemas eletrônicos a bordo.

Mas será que esse temor tem base científica? Ou será que não está na hora de relaxar essas leis?

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Sistema equilibrado

O medo da interferência vem do fato de esses aparelhos se ligarem à internet e às redes de telefonia celular usando ondas de rádio. Peter Ladkin, professor de Redes e Sistemas de Distribuição da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, explica que em um avião, centenas de sistemas eletrônicos, conhecidos como aviônicos, são usados para a navegação, para a comunicação com o solo e para manter ativos os componentes que sustentam a aeronave no ar.

Alguns sistemas envolvem sensores que enviam informações para instrumentos do cockpit, e os sinais dos celulares poderiam interferir nessa comunicação, assim como e-readers, tablets, laptops e consoles portáteis. Todos emitem ondas de rádio e, se suas frequências forem próximas às dos aviônicos, sinais e leituras poderiam ser comprometidos.

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Image caption Celulares podem interferir na comunicação entre sensores e os aparelhos de navegação

Isso afetaria sistemas como radares, comunicações e tecnologia para evitar colisões. O problema pode potencialmente aumentar se os aparelhos estiverem danificados e passarem a emitir ondas mais fortes, ou ainda se os sinais de vários aparelhos se combinarem.

Mas existem provas de que isso tudo pode ser um problema? Bem, não há nenhum registro de um acidente aéreo que tenha sido identificado como tendo sido provocado por interferências desse tipo. No entanto, as causas de alguns acidentes podem ficar desconhecidas para sempre. Uma caixa-preta pode não identificar que um sistema crítico falhou por causa da interferência eletromagnética dos aparelhos dos passageiros.

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Enquanto não se tem uma prova definitiva, há vários casos que demonstram que os riscos têm que ser encarados com seriedade.

No ano passado, dados compilados pelo Sistema de Relatórios de Segurança em Aviação dos Estados Unidos, uma base de dados mantida pela Nasa, mostraram 50 casos de problemas de segurança que teriam sido provocados por aparelhos eletrônicos pessoais.

Uma análise dessa base de dados em 2006 identificou 125 relatos de interferência de eletrônicos, dos quais 77 foram definidos como “altamente correlacionados”.

Em uma ocasião, um erro de 30 graus em um equipamento de navegação foi imediatamente corrigido depois de um passageiro desligar um tocador de DVD portátil, a pedido da tripulação. O problema reapareceu quando o aparelho foi ligado novamente.

Em outro relatório, a Associação de Transporte Aéreo Internacional (IATA, na sigla em inglês) identificou 75 incidentes isolados de possível interferência eletrônica que, segundo pilotos, foram causados por celulares e outros aparelhos eletrônicos, entre 2003 e 2009.

Vantagem competitiva

No competitivo mundo da aviação, algumas companhias aéreas, como a Virgin e a Delta, começaram a anunciar a adoção de tecnologias de voo que permitirão um uso maior de telefones celulares durante o voo.

Sistemas de telefonia de voo, como o OnAir e o AeroMobile, usam estações de base em miniatura, chamadas picocélulas, que permitem que os aparelhos façam transmissões em baixa potência.

Essas transmissões são processadas, enviadas para um satélite e depois seguem para as redes normais em solo.

Segundo o CEO da AeroMobile, Kevin Rogers, isso permite o uso de celulares “como um serviço de roaming”. Por enquanto, as leis autorizam as chamadas durante o voo, mas não na decolagem nem no pouso. “Como ainda é difícil provar categoricamente que não há interferências, as companhias aéreas preferem adotar medidas mais conservadoras”, diz Rogers.

Richard Taylor, porta-voz da Autoridade de Aviação Civil da Grã-Bretanha acredita que o uso generalizado dos celulares em aviões é uma questão de tempo, mas duvida que seja autorizado nos procedimentos de subida e descida das aeronaves.

“Quando agências reguladoras como nós forem convencidas de que um avião pode operar com segurança mesmo com aparelhos eletrônicos ligados dentro da cabine, é possível que a legislação seja relaxada”, afirma ele. “Mas caberá aos fabricantes, e, claro, às companhias aéreas, provar que seus voos são seguros.”

Talvez esse dia esteja próximo. No entanto, sabendo da dificuldade de provar definitivamente que os aviões estão protegidos da interferência, vou sempre me assegurar de que estou desligando meu celular antes de voar.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.