Ameaça na Bélgica reflete mudança no perfil de jihadistas

Verviers, na Bélgica, onde ação antiterror resultou em duas mortes (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Polícia ficou em alerta máximo nesta sexta, após realizarem uma ação antiterror que deixou 2 mortos na véspera

A atual ameaça extremista na Bélgica é reflexo de uma mudança no caráter dos extremistas islâmicos locais, que a partir de 2012 se tornaram mais jovens, menos absorvidos pelo ideal religioso e mais decepcionados com o próprio país, afirmam analistas.

"(Os jihadistas belgas) são muito mais jovens que antes e estão menos influenciados pela ideologia islâmica. Entre os partem para a Síria, a decisão é tomada mais impulsivamente", afirmou à BBC Brasil Rik Coolsaet, diretor do departamento de ciências políticas da Universidade de Gand e membro da Rede Europeia de Especialistas em Radicalização (ENER, na sigla em inglês).

"Na maioria dos casos, são jovens que se sentem perdidos aqui, deixados de lado. É isso que os motiva, o que explica ataques à sociedade e a símbolos do país, como a polícia, quando voltam."

André Jacob, ex-diretor da célula antiterror da polícia belga, também observa uma diversificação nos alvos dos terroristas islâmicos.

"Até os últimos anos a Bélgica não era um alvo principal para os jihadistas. A ameaça era a alvos judaicos, americanos e franceses. Mas depois de Mohammed Merah (o extremista francês que matou sete pessoas em uma série de atentados em Toulouse, em 2012), ataca-se também o que está de uniforme, que representa o Estado", disse em entrevistas a meios belgas.

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Segundo Claude Moniquet, cofundador do Centro Europeu de Inteligência Estratégica e Segurança, 40% desses "novos jihadistas" não são de famílias tradicionalmente muçulmanas, e sim convertidos.

"São deliquentes, solitários ou marginais nascidos e crescidos entre nós, que tentam se purificar por meio da guerra santa. Nem sempre há problemas de integração. O que há é uma mistura de sentimento de exclusão, de rejeição, e uma ideologia que os faz passar à ação."

Vulnerabilidade

Os analistas concordam que o elevado número de cidadãos belgas que se juntaram a grupos extremistas na Síria e no Irak fazem da Bélgica um país particularmente vulnerável a atentados terroristas.

Com 11 milhões de habitantes e cerca de 350 emigrados às filas do autodenominado Estado Islâmico - além de 100 que regressaram e outros 50 mortos em combate -, a Bélgica é o país europeu que mais exporta jihadistas proporcionalmente a sua população.

"Alguns voltarão decepcionados, mas outros voltarão extremamente estimulados e terão aprendido a usar armas. Alguns voltarão mais perigosos do que eram", afirmou Moniquet a vários meios locais.

E encontrarão em Bruxelas alvos potenciais, como as sedes da Otan (aliança militar ocidental) e das principais instituições da Uniao Europeia, por onde circulam diariamente altos representantes de países de todo o mundo e onde se reúnem com frequência ministros de chefes de governo dos 28 países do bloco europeu.

"Se a Bélgica não foi ainda vítima de um atentado terrorista de grande envergadura é porque os serviços de segurança fazem um bom trabalho, mas é também por uma questão de sorte, temos que admitir", disse Coolsaet.

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Segundo o analista, "atentados como os cometidos em Paris são muito difíceis de se prever".

"Não acredito que sejam organizados no exterior, que tenham uma grande organização por trás. São atos de pessoas isoladas ou de pequenos comitês, por isso são difíceis de se detectar", opinou.

Na quinta-feira, autoridades do país realizaram uma megaoperação policial para desbaratar o que chamaram de uma célula extremista que planejava um ataque "imimente" e de "grande escala". Dois suspeitos - cujas identidades ainda não foram confirmadas - foram mortos em combate e 13 pessoas foram detidas.

Segundo a imprensa belga, o projeto de ataque frustrado incluía o sequestro e decapitação de uma "personalidade importante", que seria filmada e divulgada na internet.

A Promotoria não confirmou essa informação para "não prejudicar o andamento das investigações", mas revelou que o objetivo dos terroristas era matar policiais nas ruas ou nas delegacias.

Em uma das doze batidas realizadas na quinta foram apreendidos uniformes da polícia, além de explosivos, equipamentos de comunicação, dinheiro e armas de guerra.

A sede da polícia federal e várias delegacias permaneceram fechadas nesta sexta-feira e cercadas por fortes dispositivos de segurança. Os policiais foram proibidos de fazer rondas a pé e aconselhados a não sair ou entrar uniformizados em suas residências.

O premiê belga, Charles Michel, disse que as autoridades do país estão em estado de "vigilância e prudência".