Projeto colhe depoimentos inéditos de sobreviventes do Holocausto no Brasil

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Image caption Em 27 de janeiro de 1945, Auschwitz, o maior campo de concentração nazista, foi libertado por tropas soviéticas

Um projeto coordenado por uma pesquisadora brasileira pretende colher depoimentos, grande parte deles inéditos, de mais de 250 sobreviventes do Holocausto ─ o assassinato em massa perpetrado pelos nazistas contra os judeus durante a 2ª Guerra Mundial ─ que vivem no Brasil.

À frente da iniciativa está Maria Luiza Tucci Carneiro, professora de História da USP e uma das maiores estudiosas sobre o tema no país. Segundo Carneiro, que também dirige o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da universidade, o objetivo é gravar os testemunhos em vídeo até o fim de 2016.

Intitulado 'Vozes do Holocausto', o projeto ocorre em meio ao desafio de manter viva a memória de um dos maiores genocídios do século 20 uma vez que grande parte dos sobreviventes morreu e os poucos vivos possuem idade avançada.

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"É uma corrida contra o tempo", diz Tucci Carneiro à BBC Brasil. "Nosso objetivo é registrar em vídeo o máximo de depoimentos possível, já que, nos próximos dez anos, possivelmente não haverá mais sobreviventes para contar a história de uma das maiores atrocidades que já ocorreram no mundo", acrescenta.

"É uma memória que corre perigo de ser esquecida, especialmente porque, sem os sobreviventes, abre-se espaço para os que insistem em negar a existência do Holocausto."

Testemunhos

A primeira fase do projeto terá início em fevereiro e durará seis meses, período em que Tucci Carneiro espera gravar testemunhos de 90 dos 284 sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil.

Desse total, revela a pesquisadora, grande parte mora em São Paulo e chegou ao país vinda da Alemanha, Áustria, Polônia e Romênia durante a 2ª Guerra Mundial.

Os recursos para custear esta etapa, diz Tucci Carneiro, virão do Instituto Samuel Klein, criado após a morte do empresário em novembro do ano passado. Judeu nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, o fundador da rede de lojas de departamento Casas Bahia sobreviveu a dois campos de concentração, o de Majdanek e o de Auschwitz-Birkenau, este último o maior do regime nazista.

Segundo Tucci Carneiro, dos 90 depoimentos gravados, serão escolhidos os dez melhores, que vão se tornar cada um, um DVD. O registro será acompanhado de material paradidático e distribuído em escolas públicas, inicialmente da cidade de São Paulo.

"O projeto tem caráter multidisciplinar e pedagógico. O objetivo é propor uma reflexão sobre todas as formas de intolerância a partir do Holocausto. Normalmente, as escolas não dão a esse tema a sua devida importância", diz a pesquisadora.

"Em outras palavras, queremos mostrar para os mais jovens que quando se investe contra uma etnia ou um grupo específico, também se lapidam a memória e a cultura de um povo. Com isso, chamamos atenção para o perigo do racismo e ensinamos esses alunos a conviver com a diferença", acrescenta.

Importância histórica

Tucci Carneiro conta que obteve a lista dos nomes dos mais de 250 sobreviventes por intermédio da Claims Conference, instituição sediada nos Estados Unidos que zela pelo bem-estar de sobreviventes do Holocausto no mundo.

Segundo ela, alguns sobreviventes costumam relutar inicialmente em contar a história de como escaparam da máquina de morte criada e executada pelos nazistas.

"Alguns deles não querem passar pelo trauma de ter de relembrar um período difícil. Muitos perderam a família inteira e vieram ao Brasil sem um único centavo", assinala Tucci Carneiro.

"Nossa abordagem é sempre feita com muito cuidado e sempre ressaltamos a importância histórica do depoimento para as gerações futuras", complementa.

A pesquisadora, que também coordena o Arquivo Virtual do Holocausto (ArqShoah) da USP, diz ainda que muitos dos entrevistados possuem documentos de "inestimável valor histórico".

"Eles acabam nos cedendo cópias e registros importantes da época, que nos permitem remontar com maior verossimilhança os horrores do Holocausto", afirma.

"Também sensibilizamos as famílias no sentido de resguardar esse material", acrescenta.

Projeto maior

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Image caption Estima-se que apenas em Auschwitz 1,6 milhão de pessoas - a imensa maioria judeus - tenha morrido

A iniciativa de Tucci Carneiro é parte de um projeto maior, chamado 'Travessias: Narrativas e Representações dos Sobreviventes e Refugiados do Nazismo no Brasil'.

Segundo a pesquisadora, a intenção é reunir o maior número de informações possível sobre os judeus que, forçados a deixar seus países de origem em meio à ascensão da Alemanha nazista, passaram pelo Brasil durante a 2ª Guerra Mundial.

"Temos um número expressivo de artistas e intelectuais judeus, entre refugiados e sobreviventes, que aportaram no país antes, durante ou depois do confronto", diz Tucci Carneiro.

"Um dos exemplos foi a pianista polonesa Felicja Blumental, posteriormente naturalizada brasileira. Grande colaboradora de Villa-Lobos e uma das maiores intérpretes de Chopin, ela tornou-se uma das principais promotoras da música clássica brasileira."

"O Brasil precisa dessa memória ─ que nunca pode ser esquecida", diz Tucci Carneiro.