Além da Petrobras, petroleiras latino-americanas vivem mau momento

Protesto de trabalhadores terceirizados na Petrobras na última quarta-feira (Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Denúncias de corrupção e baixa no preço do petróleo podem colocar em xeque investimentos no pré-sal

Não faz muito tempo que a Petrobras era vista como uma das empresas de futuro mais promissor entre as gigantes de energia das economias emergentes, principalmente graças às vastas reservas do pré-sal.

Hoje, a estatal parece enfrentar seu 'inferno astral'; nesta semana, teve o seu comando trocado, em meio a novas denúncias de corrupção e desvios milionários deflagrados pela nona fase da Operação Lava Jato, realizada pela Polícia Federal.

Na quarta-feira, o anúncio de que Graça Foster deixaria a presidência da estatal agradou o mercado ─ e as ações subiram.

Mas a expectativa com os novos rumos da empresa durou pouco.

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A nomeação de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, para chefiar a Petrobras foi mal recebida por investidores, reforçando a percepção de que será longo e espinhoso o caminho para recuperar a imagem da companhia e desenvolver plenamente as reservas de petróleo que poderiam devolver ao Brasil uma superpotência energética.

A Petrobras, no entanto, não é a única petroleira em 'maus lençóis'. Veja abaixo outras gigantes do setor que também enfrentam sérias dificuldades.

Pemex

Outra grande petroleira da região, a estatal mexicana Pemex também está em alerta e anunciou cortes drásticos justamente no momento em que entra em vigor no país uma reforma energética que, pela primeira vez em décadas, a colocará em competição direta com empresas privadas estrangeiras.

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Image caption A mexicana Pemex sofreu corte no orçamento e viu sua concorrência aumentar

Nos últimos dias, a Pemex anunciou um corte orçamentário de 62 bilhões de pesos mexicanos, ou US$ 4,2 bilhões (R$ 11,7 bilhões).

"É o primeiro corte em mais de uma década realizado na Pemex", disse à BBC Mundo o consultor mexicano de energia Ramses Pech.

Por meio de um comunicado, o presidente da empresa, Emilio Lozoya, afirmou que a Pemex está "imersa em um profundo processo de transformação para modernizar suas estruturas e processos e em mudança de sua cultura organizacional para ser mais eficiente, (...) algo essencial no novo ambiente de competição que a empresa enfrenta".

Esse "novo ambiente de competição" foi estabelecido pela reforma energética aprovada em 2013, que pôs fim a décadas de monopólio da Pemex.

Sendo assim, a empresa enfrenta, ao mesmo tempo, mais concorrência e seu produto sendo vendido a um preço mais baixo.

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Ecopetrol

A colombiana Ecopetrol, por sua vez, que por um breve intervalo, em 2013, chegou a superar até a Petrobras para se tornar a maior empresa da América Latina em valor de mercado, viu o valor de suas ações despencar em 43% ao longo de 2014.

Cerca de 500 mil colombianos que haviam investido nas ações da empresa, quando o governo anterior, de Álvaro Uribe (2002-2010), colocou à venda uma porcentagem minoritária de seu percentual da empresa, sofreram as consequências de um mercado que já não acredita tanto na petroleira.

A Ecopetrol tem sentido os efeitos da queda do preço internacional do petróleo, além de recorrentes problemas por conta de ataques de guerrilheiros à infraestrutura energética do país.

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As ações da empresa subiram 10% na última terça-feira, mas o preço delas segue bastante abaixo do que chegou a valer nos tempos de glória, no início de 2013: 5,5 mil pesos colombianos, contra os 2,32 mil atuais.

Como resposta à queda internacional dos preços internacionais do petróleo, a Ecopetrol anunciou, no fim do ano passado, uma redução de 25% em seus investimentos de 2015, o equivalente a mais de US$ 2 bilhões.

Além do cenário externo desfavorável, a empresa enfrenta constantes desafios causados pela persistente violência na Colômbia.

A Associação Colombiana de Petróleo (ACP) calcula que só em 2014 o setor petrolífero do país tenha sofrido mais de 650 atentados, com um impacto de US$ 420 milhões.

As dificuldades da Ecopetrol repercutem em todo o país.

A Associação Nacional de Instituições Financeiras da Colômbia estimou, em dezembro, que a piora no desempenho da Ecopetrol pode contribuir para uma redução de 1% a 2% no PIB do país em 2015 e 2016.

PDVSA

Outra petroleira latino-americana "em apuros" é a venezuelana PDVSA, que, por seu papel especial e amplo na implementação dos objetivos políticos e sociais do governo de Nicolás Maduro, quase poderia ser inserida em uma categoria distinta de atividade empresarial em relação às demais empresas do setor no continente.

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Image caption PDVSA também sofre escândalos de corrupção

A PDVSA também sentiu o golpe da baixa dos preços internacionais, estabilizados em um nível muito mais baixo do que os de anos anteriores.

Além disso, sofre com os mandos e desmandos do atual governo venezuelano, de inclinação socialista. Cerca de 95% da economia da Venezuela está ligada ao petróleo, aumentando a vulnerabilidade do país às oscilações do valor do óleo no mercado internacional.

A estatal enfrenta, ainda, escândalos de corrupção.

Nesta semana, um diretor da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), José Luis Parada, foi detido por suposto envolvimento em irregularidades administrativas na contratação de empresas para o embarque de combustíveis.

A apenas 0,016 dólar por litro, a gasolina na Venezuela é a mais barata do mundo, o que criou um negócio lucrativo para os contrabandistas de combustível que operam nos mais de 2,2 mil km de fronteira com a Colômbia.

Parada é irmão de Nubia Parada, ex-diretora geral de Mercados Internos do Ministério de Petróleo e Mineração do país, detida no fim de janeiro também por envolvimento em supostas irregularidades.

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