'Quem segura uma nota aguda?' A pergunta que fez adolescente brasileira cantar com os Beatles

Lizzie Bravo encontra John Lennon Direito de imagem Photo by Lynda Neale copyright Tracks. Ltd
Image caption Bravo foi para Londres sonhando conhecer John Lennon e acabou dividindo um microfone com o Beatle nas gravações

O ano era 1990 e, pouco depois de anunciar sua primeira ida ao Brasil, em uma entrevista coletiva para jornalistas brasileiros, Paul McCartney cumprimentou os profissionais de imprensa presentes no evento em Indianápolis, nos Estados Unidos.

Parou diante de uma fotógrafa. "Por que acho que te conheço?", perguntou.

"A gente cantou junto", respondeu Lizzie Bravo.

Há exatos 47 anos, a carioca fez história de maneira quase acidental ao participar de uma gravação dos Beatles no legendário estúdio de Abbey Road, em Londres. Ela e a britânica Gayleen Pease fizeram vocais de apoio em Across The Universe, balada composta por John Lennon. Uma história devidamente registrada em seus diários de adolescente, que ela transformou no livro Do Rio a Abbey Road.

E a participação ocorreu de forma inusitada: naquele 4 de fevereiro de 1968, Bravo, então com 16 anos, cumpria rigorosamente sua rotina de fã devota dos Beatles, montando guarda perto da portaria do estúdio em Abbey Road. Assim como fazia todos os dias desde que tinha chegado a Londres, em fevereiro de 1967, após convencer os pais a bancar uma viagem para Londres como presente pelo aniversário de 15 anos.

Mão levantada

"Paul apareceu na porta do estúdio e perguntou 'Quem aí de vocês consegue segurar uma nota aguda?'. Eu levantei a mão na hora, porque tinha sido soprano no coral do colégio. Nem pensei no motivo da pergunta", diz a brasileira, em entrevista à BBC Brasil.

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Direito de imagem Cortesia de Lizzie Bravo
Image caption Por dois anos, a brasileira diariamente esperou pelos Beatles nos estúdios de Abbey Road, em Londres.

Bravo logo descobriria: ao entrar no estúdio 2, usado pelos Beatles desde suas primeiras gravações para a EMI, em 1963, ela e Pease encontraram os Beatles em meio a uma sessão de gravação.

"John e Paul explicaram que precisavam dos vocais de apoio, ensinaram para a gente o que queriam. Foram bem gentis comigo e Gaylee", lembra a carioca.

"Paul até brincou comigo, pedindo para que eu cantasse em 'brasileiro'. Naquela época, em Londres, você vir do Brasil era como ser um E.T."

Na época, os Beatles já viviam tensões internas fortes, ao ponto do baterista Ringo Starr, meses depois, abandonar as gravações do Álbum Branco após uma briga com McCartney. Mas Bravo tem recordações de uma sessão bem diferente.

"O clima no estúdio era tranquilo e os quatro estavam de bom humor, fazendo piadas e tudo. Foi tudo muito surreal e eu acabei cantando no mesmo microfone do John, que foi o Beatle de quem sempre gostei mais", contra a brasileira, hoje com 63 anos.

Direito de imagem Cortesia de Lucy R
Image caption Nessa foto desfocada, de junho de 1967, Bravo consegue uma rara oportunidade de posar ao lado do ídolo Lennon

Foram duas horas de gravação e, segundo Bravo, "várias" tomadas foram feitas, o que obrigou as meninas a repetir à exaustão a frase "Nothing is gonna change my world" (nada vai mudar o meu mundo, em inglês), cantada de forma bem aguda. No final, Bravo e Pease simplesmente deixaram o estúdio. Bravo voltou para seus "posto" na porta. Pease foi para casa.

"A gente não tinha a menor noção do que acabara de acontecer. Éramos duas meninas, duas fãs. Não ficamos amigas dos Beatles. Costumo brincar que nenhum amigo me deixaria esperando por eles na neve. E, no dia da gravação, ficamos na porta do estúdio até duas da manhã", diz Bravo.

Sideral

A brasileira morou em Londres até outubro de 1969, religiosamente montando guarda todos os dias em Abbey Road.

"Trabalhava como babá e empregada, com pouca grana. Fiquei com saudades de casa", lembra Bravo.

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"Os Beatles estavam para se separar, já nem vinham todos os dias para o estúdio. E nem vinham juntos. Estava um pouco cansada daquela vida".

Direito de imagem Cortesia de Lizzie Bravo
Image caption McCartney recrutou Bravo e Pease na portaria de Abbey Road com a simples pergunta "Quem aí de vocês consegue segurar uma nota alta?"

Across The Universe foi lançada em quatro versões diferentes, em apenas uma há o vocal de Bravo e Pease. Mas foi esta versão que acabou sendo escolhida pela Nasa em fevereiro de 2008 para a transmissão de uma mensagem enviada na direção da estrela Polaris, localizada a 431 anos-luz da Terra, para tentar contato com extraterrestres.

"Foi algo extremamente especial para mim que justamente a versão de que participei tenha sido escolhida. Até porque pouquíssimas pessoas tiveram a chance de sequer estar com os Beatles na mesma sala, o que dirá cantar com eles pelo espaço", brinca.

Embora não seja desconhecida, a história da fã brasileira recrutada pelos Beatles ainda causa surpresa. Com o livro, Bravo espera não apenas contar suas memórias de Londres, mas lançar um pouco mais de luz sobre o que ela chama de "humanidade" do quarteto.

"Os Beatles ganharam status de deuses ao longo dos anos, mas é importante que as pessoas saibam que eles eram gente como a gente. Também é importante mostrar para as gerações mais novas que essas estrelas nem sempre viviam no alto de um pedestal, algo impensável nos dias de hoje. Era um mundo mais ingênuo, sem essa coisa de seguranças e guarda-costas", conta a carioca.

Cachê 'sumido'

Do Rio a Abbey Road é um projeto independente que Bravo vai publicar usando o financiamento coletivo pela internet (crowdfunding). Bravo também escreveu uma versão em inglês. Nas duas versões, o prefácio é do jornalista e escritor britânico Mark Lewinsohn, um dos mais respeitados estudiosos da vida e obra dos Beatles.

Direito de imagem Cortesia de Lizzie Bravo
Image caption Em tempos de menor isolamento de artistas, a brasileira conseguiu até posar junto ao carro "psicodélico" de Lennon

Depois de sua temporada em Londres, Bravo foi vocalista e trabalhou com uma constelação de nomes da música brasileira, em especial Milton Nascimento, Joyce e Egberto Gismonti. Ela foi casada com o músico Zé Rodrix e é citada de maneira cifrada em um de seus principais hits, Casa no Campo.

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"No verso 'Eu quero a esperança de óculos', ele está falando de mim", diz.

Atualmente, ela participa de palestras em eventos de fãs dos Beatles e já foi contactada para participar da Internacional Beatleweek, uma espécie de "peregrinação" anual dos fãs do grupo a Liverpool, a cidade natal dos quatro músicos.

A última vez em que ela viu pessoalmente um dos Beatles foi justamente no rápido encontro com McCartney em Indianápolis. Também naquela ocasião, nada foi falado sobre o cachê que ela e Pease deveriam ter recebido pela participação em Across The Universe

"Em 1968, Paul mencionou que a gente ganharia alguma coisa. Mas nunca quis cobrar, né?", argumenta a brasileira.

A ligação com os Beatles segue na vida da cantora: sua filha, Marya, faz parte do elenco de Beatles num Céu de Diamantes, musical inspirado na obras dos Beatles visto por mais de 350 mil pessoas no Brasil.

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