'The Americans' põe em xeque ideia de KGB como vilã

Cena de 'The Americans' Direito de imagem Fox
Image caption Keri Russell e Matthew Rhys vivem um casal de agentes da KGB enviado aos EUA

A KGB, a famigerada agência de segurança soviética, é uma das grandes "vilãs" sem rosto no imaginário americano desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

E como muitas das "batalhas" da Guerra Fria ocorreram a portas fechadas, muitos dos principais momentos do conflito – e personagens também – ficaram desconhecidos da história.

Hollywood geralmente responde a essa falta de informação retratando a Guerra Fria como uma disputa contra russos caricaturais, onde a KGB paira como uma ameaça sombria.

Mas o seriado de TV The Americans – Rede de Espionagem, que recentemente estreou sua terceira temporada nos Estados Unidos, desafia essa noção, dando aos agentes soviéticos um rosto familiar – com quem inclusive simpatizamos.

Trata-se de uma mudança radical de ponto de vista, com implicações que ainda não foram analisadas como deveriam.

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Paródia sutil

Na série, que é transmitida no Brasil pelo canal Fox, Elizabeth (Keri Russell) e Philip Jennings (Matthew Rhys) são agentes soviéticos que fingem viver como uma tranquila família de um subúrbio de Washington nos anos 80. O enredo explora as constantes missões do casal para prejudicar interesses dos Estados Unidos enquanto adota uma estrutura cheia de reviravoltas, como toda boa história de espionagem.

O seriado tem um viés diferente, graças ao trabalho de seu criador, Joe Weisberg, um ex-agente da CIA cujas histórias sempre enfatizam as semelhanças entre os espiões e seus inimigos americanos.

Direito de imagem Fox
Image caption Série oferece nova perspectiva sobre quem era quem na Guerra Fria

O resultado é uma paródia sutil da vida suburbana americana: Philip e Elizabeth discutem sobre a melhor maneira de educar os filhos, superam traições, segredos e ciúmes, lidam com "problemas na cama" e com vizinhos intrometidos.

É material que renderia uma boa novela, mas esta é uma família que pode fazer o mundo literalmente explodir. Os vilões não só são "gente como a gente", como também sofrem como nós.

Há alguns anos, a minissérie americana Sleeper Cell tentou usar um conceito semelhante, mas concentrado nos dias atuais – com terroristas islâmicos lutando contra a CIA em solo americano. Mas sua trama parecia hiperbólica e desligada da realidade.

A atração exercida pelos floreios dramáticos também atrapalha outras séries que abordam o terrorismo doméstico, como Homeland e 24 Horas, que oferecem fantasias escapistas sobre medidas de segurança americanas mas sofrem para conseguir superar cada virada absurda do roteiro com eventos que são ainda mais absurdos.

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Paranoia americana

Apesar de se passar nos anos 80, o timing para a exibição de The Americans não poderia ser melhor. Com as revelações de Edward Snowden, a cultura americana se tornou mais paranoica do que nunca em relação ao que o governo está disposto a fazer em nome da segurança.

Os agentes da KGB de The Americans podem usar táticas nada éticas, como sedução, chantagem e assassinato, mas seus antagonistas americanos não estão muito longe disso. Na série, o FBI usa muitas das técnicas da KGB. E quando um supervisor do FBI encontra seu colega da KGB em uma rua deserta e diz "Você quer atingir nosso povo, nós queremos atingir o seu povo", é difícil determinar qual dos dois lados pode reivindicar ser moralmente correto.

Uma cena como essa seria inimaginável na cultura pop americana dos anos 80, com a divisão rígida entre "nós e eles", "heróis e vilões". Basta lembrarmos de filmes como Amanhecer Violento, Rocky 4 e Rambo 2 – A Missão.

The Americans projeta para o passado os medos contemporâneos em relação ao governo.

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Mocinhos e bandidos

Essa releitura da típica perspectiva hollywoodiana sobre a Guerra Fria cai bem com o clima da televisão hoje em dia.

Desde Breaking Bad, a TV tem dado cada vez mais espaço a anti-heróis, mas The Americans vai além. Ninguém sabe ao certo quem é mocinho e quem é vilão. Os dois lados defendem ardorosamente suas causas.

O seriado subverte até a própria ideia de patriotismo, ao abordar o caótico aspecto humano por trás dos conflitos internacionais. Philip é acusado de gostar demais da vida nos Estados Unidos, enquanto Elizabeth coloca em dúvida sua missão com a pátria ao se deparar com seus instintos maternos.

The Americans torna a História algo pessoal – e pode até fazer desses soviéticos os verdadeiros heróis, conforme vai ficando claro que eles são prisioneiros do governo de seu país tanto quanto são seus agentes.

Longe de representarem mais uma história sobre a Guerra Fria que coloca "nós contra eles", as aventuras de Philip e Elizabeth nos fazem questionar o próprio conceito de identidade nacional. E é assim que esse episódio tão importante da História ganha uma nova relevância.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.