Itália tem carnaval com ‘Rei Nhoque’ e ‘floresta que anda’

Carnaval de Veneza (Foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Itália tem centenas de festas de Carnaval com diferentes estilos

Fiel a suas tradições, a Itália celebra o Carnaval com centenas de festas espalhadas por todo o país. Com estilos, origens e duração diferentes, cada localidade preserva o seu próprio modo de cair na folia, embora sejam todos igualmente dedicados à exaltação dos prazeres, à ironia e à diversão.

As festas vão desde as mais célebres como Veneza, com suas máscaras exuberantes e refinadas, ou Viareggio, com seus imponentes carros alegóricos, até a celebração em pequenos vilarejos de rituais ancestrais com o objetivo de afastar os maus espíritos e favorecer a prosperidade.

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E se os grandes centros urbanos tendem a uma disseminação de eventos de Carnaval com pouca caracterização, as pequenas cidades conservam tradições populares e aproveitam a data para afirmar a própria identidade cultural, com intenso envolvimento e empenho da comunidade.

A Floresta que Caminha

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Em Satriano de Lucania, uma cidade com pouco mais de 2 mil habitantes na região Basilicata, seguindo um rito antigo, os foliões vestem-se de árvore para comemorar o Carnaval. A fantasia natural é confeccionada com hera, uma trepadeira comum na localidade.

Conforme a tradição, no domingo de Carnaval os "rumit" percorrem as ruas das cidade em silêncio e, utilizando ramos de plantas, batem às portas das casas oferecendo bons presságios para a próxima primavera em troca de doações de alimentos como cebola, batata, salame, ou pequenas quantias em dinheiro. Os visitantes também podem participar do evento "A Floresta que Caminha" reservando a própria fantasia ou participar das quadrilhas.

Pelo terceiro ano consecutivo, a festa de Satriano será ecológica: todo material promocional foi impresso em papel com certificado de proveniência de áreas reflorestadas e os moradores plantarão árvores. Os bares e quiosques da cidade irão oferecer lanches preparados exclusivamente com alimentos produzidos na região. Os copos e pratos de plástico serão substituídos por utensílios reutilizáveis ou em material biodegradável e a coleta de lixo será diferenciada.

De acordo com os realizadores, o evento tem incrementado o turismo da região.

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"Os aspectos inovadores e a mensagem ecológica que procura restabelecer a relação do homem com a natureza atraem o interesse de um público cada vez maior", disse à BBC Brasil Rocco Perrone, um dos organizadores do Carnaval. "Há várias semanas todos os hotéis, pensões e campings da região estão reservados para os dias de festa", acrescentou.

Rei Nhoque

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Desde 1872 a cidade de Castel Goffredo, na província de Mantova, elege o seu "Rei Nhoque". Com coroa, capa e um garfo gigante o monarca dá início à folia, que prevê a distribuição gratuita do prato típico na praça principal nos três dias de festa. Para ser eleito, além de ser morador do município que conta com 12 mil residentes, é preciso ter muito peso e simpatia.

Outra atração do Carnaval inclui ainda uma disputa entre as quatro partes da cidade pelo melhor desfile de carros alegóricos. A preparação dos blocos dura meses, a participação popular é grande e a competição é acirrada.

Mulheres laçadas

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Um dos espetáculos carnavalescos mais sugestivos da Itália acontece no domingo de Carnaval em Mamoiada, uma cidade com 2,6 mil habitantes no centro da Sardenha, quando os "mamuthones" desfilam seus trajes típicos, feitos com lã de ovelhas negras e uma máscara de madeira. A fantasia inclui ainda sinos de diferentes tamanhos, atados ao corpo por tiras de couro, e que produzem um som inquietante durante o cortejo. A preparação do personagem é um cerimonial solene, que requer a ajuda de várias pessoas e o traje completo chega a pesar até 30 quilos.

Ao lado dos "mamuthones" desfilam os "issohadores", vestidos com casacos vermelhos e máscaras brancas, dando ritmo às danças. As canções são rigorosamente em dialeto e durante a brincadeira jovens mulheres são laçadas por cordas, como símbolo de um rito de fertilidade. Para serem liberadas, o público deve oferecer aos mascarados uma taça do vinho local.

A insólita procissão remete à cultura agropecuária e à presença de animais na vida cotidiana da população.

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"Por terem origem em tempos ancestrais e serem muito radicados na cultura tradicional, os rituais pagãos da nossa região acabaram sendo englobados pelas festividades da Igreja Católica", afirmou à BBC Brasil Mario Paffi, diretor do Museu de Máscaras Mediterrâneas de Mamoiada.

Banda com instrumentos bizarros

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Os habitantes de Fano, cidade litorânea da região de Marche, reivindicam o título de Carnaval mais antigo da Itália, graças a um documento datado de 1347 e conservado no arquivo histórico do município. Uma das características do evento, realizado em três domingos consecutivos, é a tradição satírica de seus carros alegóricos, com caricaturas que ironizam políticos, personalidades internacionais e fatos da atualidade. Outra particularidade do Carnaval de Fano é o "getto", um jato de quase 200 tonaladas de balas e doces lançados às crianças durante os desfiles.

Mas a principal marca do Carnaval da cidade é a "Musica Arabita", uma banda criada em 1923 por um grupo de músicos amadores que resolveu utilizar objetos bizarros em suas composições, como tampas de panela, latas, sinos, cafeteiras, guarda-chuvas, garrafas, entre outros, ao lado das tradicionais sanfonas e saxofones.

"A banda foi formada por um grupo de populares, operários, porteiros e pescadores como uma alegre paródia aos proprietários de terras e à elite burguesa que realizavam suas festas em salões nobres, com orquestras clássicas. Em contraposição a estas celebrações, eles preferiam marchar pelas ruas da cidade criando uma música enérgica e divertida", disse à BBC Brasil Silvano Clappis, autor de um livro sobre o grupo.

Procissão em chamas

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Considerada uma das aldeias mais bonitas do país, Offida, na região de Marche, atrai todos os anos centenas de moradores de cidades vizinhas e turistas para participarem do seu Carnaval. Durante os dias de festa, os foliões marcham pelas ruas vestidos com o "guazzarò", traje típico composto por uma túnica branca e um lenço vermelho ao pescoço, que até meados de 1700 era utilizado por homens e mulheres durante o trabalho nas lavouras.

Uma das principais atrações é o "Lu Bov Fint", que acontece na sexta-feira de Carnaval, quando um falso boi feito com madeira e ferro e coberto por um pano branco é carregado por um prolongado percurso pelas ruas do centro histórico até chegar à praça principal, onde a multidão, instiga o boi com gritos e danças regadas a vinho tinto, como em um corrida de touros. Ao final da festa o boi é simbolicamente morto, e uma nova procissão marcha pelas vielas com o defunto, entoando o hino oficial da festa.

Na terça-feira, é a vez do "Vlurd", uma procissão formada por pessoas que carregam nas costas feixes de cana e palha em chamas. Caminhando em fila, eles simulam uma serpente de fogo e entre gritos e danças selvagens percorrem a avenida principal antes de reunirem-se na praça maior onde depositam os "bagordi" ainda acesos, e prosseguem as celebrações em volta da fogueira. Quando as chamas se apagam, o silêncio volta reinar na praça, representando o fim do carnaval.

Inspiração napoleônica

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Os moradores das pequenas aldeias de Coumba Freida, um vale dos Alpes italianos particularmente frio devido à intensidade dos ventos que atingem a região, também têm um modo próprio de festejar o Carnaval.

"A tradição local associa o surgimento da festa à passagem de Napoleão Bonaparte pela região, por volta de 1800. Os trajes típicos, chamados 'landzette', fazem uma paródia aos uniformes da campanha napoleônica. Até os chapéus mantém a mesma forma dos que o imperador francês usava, ainda que decorados por flores", disse à BBC Brasil Andrea Triolo, presidente da Comissão Carnavalesca de Valpelline, um município com cerca de 600 residentes.

"Os pedaços de espelhos presentes na fantasia servem para refletir a luz e afastar os maus presságios, assim como o rabo de cavalo que os soldados empunham, que simbolizam a passagem do vento, capaz de enxotar as desgraças e a má sorte", afirmou.

"A festa é muito muito popular em todas as onze cidades situadas no vale. Quem não pode mais brincar o Carnaval por causa da idade, participa da festa abrindo suas casas, oferencendo hospitalidade e pratos típicos."