Cristina escapa de ser indiciada, mas caso Nisman ainda atormenta governo

Casa Rosada (Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Para analistas ouvidos pela BBC, morte de promotor pode impactar na eleição para decidir sucessor de Cristina na Casa Rosada

O juiz federal argentino Daniel Rafecas decidiu nesta quinta-feira que não investigará a presidente Cristina Kirchner pelas denúncias feitas pelo promotor Alberto Nisman, morto em janeiro passado.

Nisman tinha acusado a presidente e assessores de tentarem acobertar iranianos que teriam supostamente participado do atentado a uma entidade judaica, a Amia, que deixou 85 pessoas mortas em Buenos Aires em 1994.

Rafecas ignorou assim o indiciamento da presidente determinado há 13 dias pelo promotor de justiça Gerardo Pollicita, que substituiu o colega morto. Segundo o juiz, a acusação de Nisman e de Pollicita é "insustentável".

Ele afirmou ainda que a denúncia contra a presidente e seus auxiliares, incluindo o ministro das Relações Exteriores, Héctor Timerman, "carece de provas". O promotor ainda pode apelar da decisão do juiz.

"O juiz Rafecas deu oxigênio à presidente que poderá agora se afastar do caso Nisman", escreveu o colunista do La Nación Adrián Ventura no site do jornal.

Leia mais: Entenda por que caso Nisman opôs governo e promotores na Argentina

Troca no ministério

A decisão de Rafecas foi divulgada pouco depois do anúncio, nesta mesma quinta, da troca de ministros no governo de Cristina.

Para analistas argentinos ouvidos pela BBC Brasil, a substituição de nomes em cargos-chave - como a Chefia de Gabinete, que passará a ser ocupada pelo ministro Aníbal Fernández - foi influenciada pelos protestos de 18 de fevereiro, que marcaram um mês da morte de Nisman.

"Existe um antes e um depois da morte de Nisman na Argentina", disse o cientista político Marcos Novaro, do Centro de Investigações Políticas (CIPOL).

Para o analista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, a decisão do juiz Rafecas foi "uma boa notícia para o governo", mas ele sugere que podem surgir novos capítulos.

"Ainda faltam outras instâncias judiciais. E a decisão de Rafecas evidencia que não fazia sentido a tese do governo de que existiria um ‘golpe judicial’ como foi dito", afirmou.

Direito de imagem EPA
Image caption Protesto para marcar um mês da morte do promotor reuniu milhares de pessoas em Buenos Aires

Fraga observou ainda que a expectativa agora é para o dia 1º de março, quando a presidente falará no Congresso Nacional, na abertura do ano legislativo, e seus partidários marcaram manifestação de apoio ao seu governo.

Alguns comentaristas da imprensa local disseram que o ato seria "para medir força" com o protesto que marcou a morte de Nisman. Segundo a Polícia Federal, que é ligada ao governo nacional, o ato reuniu 50 mil pessoas. Já a Polícia Metropolitana, subordinada ao governo do prefeito opositor Mauricio Macri, afirma que participaram 400 mil pessoas.

Acusações

Desde 18 de janeiro, quando Nisman foi encontrado morto com um tiro na cabeça no apartamento onde morava em Buenos Aires, o caso passou a ser a principal notícia no país, levando inclusive a presidente a comentá-lo nas redes sociais e em cadeia nacional de rádio e de televisão.

Cristina e seus ministros disseram que a acusação de Nisman era "mentirosa". Por sua vez, opositores acusaram o governo de "cumplicidade" com agentes de inteligência que poderiam estar envolvidos na morte do promotor, como afirmou a deputada opositora Patricia Bullrich.

A decisão desta quinta-feira do juiz Rafecas e a troca de ministros ocorrem a menos de oito meses das eleições presidenciais, em outubro, e em meio a falta de resultados na investigação sobre a morte de Nisman.

Para o cientista político Novaro, o caso pode influenciar o eleitorado na hora de votar este ano para presidente. Isso porque as últimas pesquisas, realizadas após o protesto de 18 de fevereiro, indicaram que teria caído o apoio popular ao possível candidato da presidente (o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli) e aumentado o respaldo aos seus opositores, os presidenciáveis Macri e Sergio Massa.

"Claramente, o caso Nisman influenciou o eleitorado", disse a analista Mariel Fornoni, da consultoria Management&Fit, à rádio Del Plata, da capital argentina.

"Os candidatos da oposição capitalizaram esta maior demanda por mudanças que ficou ainda mais evidente após o chamado ‘18F’ (18 de fevereiro)", disse.

Segundo ela, o eleitor teria revelado suas insatisfações com o andar da politica e da economia do país no protesto em homenagem ao promotor.

"Concordo que exista um antes e um depois da morte de Nisman e o tabuleiro eleitoral terá forte influência deste caso."