Paulista é cenário de 'resposta antecipada' a protesto pró-impeachment

Manifestação em São Paulo, dia 13 de março de 2015 | Foto: BBC Brasil Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Segundo estimativas da Polícia Militar, passeata dos movimentos sociais mobilizou 12 mil pessoas na Paulista (organizadores dizem ter levado 100 mil às ruas)

Em meio aos ânimos exaltados que polarizaram a Avenida Paulista, no coração de São Paulo, na tarde desta sexta-feira, a moderação partiu dos céus: a chuva forte caiu tanto durante o ato convocado por centrais sindicais em defesa da Petrobras quanto durante o protesto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Mas, se do alto o dilúvio era o denominador comum, no asfalto as diferenças se pronunciavam. Por razões de segurança, as duas manifestações não se encontraram.

Tampouco o número de envolvidos em cada uma delas se assemelhou: segundo estimativas da Polícia Militar, a passeata dos movimentos sociais mobilizou 12 mil pessoas (os organizadores alegam ter levado 100 mil às ruas; já o Datafolha fala de 41 mil participantes), contra cerca de 60 reunidas pelos Revoltados Online, grupo que pede a saída de Dilma do poder.

Iniciado por volta das 13h, o protesto convocado por CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), UNE (União Nacional dos Estudantes) e outros movimentos sociais na principal avenida da capital paulista se concentrou em frente à sede da Petrobras.

O mote principal do ato, que também ocorreu em pelo menos outros 23 Estados e no Distrito Federal, era a "defesa" da estatal, dos "direitos dos trabalhadores", da "democracia" e da "reforma política". Entre as reivindicações, a retirada das Medidas Provisórias 664 e 665, que alteram as regras de acesso a benefícios sociais, como seguro-desemprego, abono salarial, pensão por morte e auxílio-doença.

Na prática, contudo, embora pontuadas nos discursos das lideranças sindicais do alto dos carros de som, as críticas às recentes medidas de ajuste fiscal perderam espaço para manifestações de apoio a Dilma e contra o impeachment, numa espécie de resposta antecipada ao protesto antigoverno previsto para o mesmo local no próximo domingo.

Cartazes, adesivos e bandeiras traziam o rosto da presidente, enquanto manifestantes entoavam mensagens de apoio à chefe do Executivo.

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Image caption Durante ato em defesa da Petrobras, manifestantes entoaram mensagens de apoio a Dilma

"Quem não pula é golpista", gritavam uns. "Pode chover, pode molhar, ninguém segura a resistência popular", bradavam outros.

"Eu vim defender a democracia brasileira pela qual nós lutamos e companheiros morreram. E hoje nós vemos aí uma questão de golpe, querem tirar uma presidente que foi legitimamente eleita", disse à BBC Brasil o metalúrgico e estudante de direito Manuel Domingos, de 40 anos.

Os manifestantes também aproveitaram para criticar os Estados Unidos e o capital estrangeiro.

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Um dos cartazes dizia "Não à espionagem americana. Yankees, go home". Outros também destacavam frases patrióticas. "Odeia o Brasil? Vá prá (sic) Miami lavar privada!" e "Respect democracy. Petrobras is ours! (Respeite a democracia. A Petrobras é nossa)".

Por volta das 15h, o protesto iniciou a marcha em direção ao centro. À medida que a manifestação avançava pela Paulista, discursos em tom mais crítico pediam o fim do financiamento privado das campanhas, a reforma política, a investigação e punição do escândalo de corrupção da Petrobras e o retorno do dinheiro roubado dos cofres públicos. Mas rechaçavam o que diziam ser "tentativas de golpe" e a ideia de privatizar a Petrobras.

"A luta contra os lacaios do capitalismo, contra quem quer saquear as nossas riquezas, continua. O petróleo é poder. A Petrobras é do Brasil", discursou uma liderança sindical, sendo acompanhada por salvas de palmas e gritos de apoio.

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Image caption Críticas a recentes medidas de ajuste fiscal perderam espaço para manifestações de apoio a Dilma e contra o impeachment

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Impeachment

Poucas horas depois, às 17h, a calçada em frente ao edifício da estatal começou a ser preenchida por alguns manifestantes, muitos protegidos por guarda-chuvas, que timidamente perguntavam uns aos outros sobre a exata localização do "outro protesto".

O "outro protesto" era a manifestação convocada pelas redes sociais do Revoltados Online, grupo que defende o impeachment de Dilma Rousseff.

"Vocês estão aqui para o protesto dos Revoltados? Não veio muita gente, né?", perguntou à reportagem da BBC Brasil o juiz de Direito Messias Cocca, de 66 anos.

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Image caption Poucas dezenas de pessoas comparaceram a ato convocado por Revoltados Online, grupo que pede o impeachment da presidente Dilma Rousseff

Ao ser informado de que conversava com jornalistas, ele afirmou ter ficado desapontado com o baixo comparecimento do público.

"Acho que a chuva afastou muita gente. Mas, de qualquer forma, o protesto principal é no domingo", disse ele, em alusão ao ato convocado para o mesmo local por pelo menos três grupos contrários ao atual governo no próximo dia 15 de março: além do Revoltados Online, Vem pra Rua e Movimento Brasil Livre também participam da manifestação.

Autor do chamado "Rock do Impeachment", canção que "abre" todas as manifestações do Revoltados Online, o músico Eder Borges tinha outra versão.

"Não participo da organização. Mas a manifestação pró-Dilma acabou atrasando e, por causa disso, só podemos vir para cá depois do previsto (o ato estava marcado para as 15h). Foi uma determinação da Polícia Militar, para evitar confronto", disse.

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Image caption Manifestantes entoaram cânticos contra Lula e Dilma; ato acabou encerrado por causa de forte chuva

Enquanto isso, um pequeno grupo discutia as possibilidades do impeachment da presidente: "Temer (vice-presidente) também não vai ficar, o povo está tão revoltado que vai colocá-lo para fora". Entre si, conjecturavam sobre uma eventual intervenção dos Estados Unidos no Brasil para "impedir o comunismo".

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"Isso tudo aí (o protesto da CUT) foi para aparecer na TV, mas é a realidade. O povo já não aguenta mais. Estamos à beira da recessão. Não somos elite branca", afirmou o representante Alexandre Murad, de 43 anos, enrolado na bandeira do Brasil.

A poucos metros dali, dois manifestantes vestindo uniformes militares seguravam um cartaz com os dizeres: "S.O.S Forças Armadas; Queremos uma faxina geral e o poder de volta em 90 dias". Eles pediam a "extinção dos partidos vermelhos, cassação dos direitos dos políticos ficha suja, fim das urnas eletrônicas, voto em cédulas de papel, prisão imediata dos corruptos, julgamento em tribunal militar para os traidores".

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Às 17h30, os organizadores do ato chegaram ao local do protesto entoando cânticos como "Lula cachaceiro, devolve o meu dinheiro" e "ô, ô, ô, o PT roubou".

Do alto de um carro de som, para cerca de 50 pessoas presentes, Marcello Reis, fundador do Revoltados Online, bradou: "Estamos aqui, como sempre, em poucos, para mostrar que não temos medo".

O grupo fez uma oração para dar início à manifestação, mas a chuva forte interrompeu os planos. Por volta das 18h, o protesto foi oficialmente encerrado, com a promessa de "lotar o Brasil de brasileiros que não querem o PT no poder", segundo Reis.

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O vendedor Ricardo Tezotti, de 41 anos, aproveitava para testar a popularidade de suas faixas amarelas para cabeça que estampavam, em glitter, as frases "impeachment já" e "Fora Dilma". Ele costuma produzir o mesmo tipo de faixas com nomes de artistas internacionais para vender diante de estádios e casas de show, mas decidiu se preparar para o ato contra a presidente no dia 15.

"Simpatizo com a causa, mas fiz (as faixas) porque vi que ia ser um evento grande. Já vendi mais de mil faixas como essa a R$ 5", disse ele à BBC Brasil.

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Image caption O vendedor Ricardo Tezotti, de 41 anos, diz estar faturando alto em manifestações pró-impeachment