Novo naufrágio no Mediterrâneo pode ter 'matado centenas'

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Image caption Em 2014, 170 mil pessoas foram resgatadas nas travessias do Mediterrâneo

Em menos de uma semana, uma segunda tragédia marítima pode ter custado a a vida de centenas de imigrantes em busca de refúgio na Europa.

Autoridades italianas informaram que um barco de 20m de comprimento, carregando de 500 a 700 pessoas, virou na noite deste sábado, ao sul da ilha italiana de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo.

De acordo com os primeiros boletins da Guarda Costeira, apenas 28 pessoas tinham sido resgatadas até o início desta manhã. E 24 corpos tinham sido encontrados

Na quarta-feira, 400 imigrantes se afogaram num incidente semelhante, desta vez perto da costa da Líbia, país que por conta da proximidade geográfica com a Itália é um dos principais pontos de partida de embarcações com imigrantes em busca de asilo.

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Segundo relatos divulgados pela mídia italiana, o barco virou quando os passageiros tentaram chamar a atenção de um navio mercante para serem resgatados e se deslocaram para o mesmo lado da embarcação, causando um desequilíbrio - na maioria das travessias, imigrantes são colocados por traficantes de pessoas em embarcações em estado precário.

Apelo papal

Carlotta Sami, porta-voz do Acnur, o órgão das Nações Unidas para refugiados, disse à mídia italiana que a agência estava se preparando "para uma tragédia de grandes proporções", que pode ser a maior perda de vida numa travessia de imigrantes rumo à Europa.

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Image caption O papa Francisco fez um novo apelo para que autoridades europeias cuidem dos imigrantes

Segundo informações da Guarda Costeira, 20 navios e três helicópteros estão envolvidos nas buscas.

O primeiro-ministro de Malta, Joseph Muscat, disse à BBC ter informações de que apenas 50 pessoas teriam sobrevivido. Numa emocionada entrevista, Muscat comparou a situação com o genocídios que ocorreram na Europa no passado.

"Estamos vendo algo de proporções épicas. Se a Europa e a comunidade internacional continuarem a fazer vista grossa, seremos julgados da mesma maneira", disse.

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Em Roma, o papa Francisco fez o seu segundo apelo em menos de 24 horas para que as autoridades europeias intervenham para evitar novas mortes.

"São homens e mulheres como nós, buscando uma vida melhor. Estão com fome, fugindo de guerras, são exploradas. Querem a felicidade", afirmou o papa.

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Image caption As operações de patrulhamento e resgate no Mediterrâneo foram reduzidas no final do ano passado

Federica Mogherini, representante da União Europeia para assuntos de relações internacionais, disse que a onda de naufrágios no Mediterrâneo é "inaceitável".

"Já dissemos muitas vezes que isso jamais aconteceria de novo. Chegou a hora da União Europeia realmente evitar essas tragédias sem demora".

O presidente da União Europeia, Donald Tusk, já cogita a possibilidade de chamar uma reunião de emergência com membros do grupo para discutir a questão. Ele se manifestou sobre o assunto pelo Twitter dizendo que falou com o primeiro ministro de malta, Joseph Muscat, e "irá continuar as conversas com líderes da União Europeia sobre como aliviar a situação". Tusk deve decidir se irá ou não convocar uma reunião de emergência após consultar os principais líderes do grupo, segundo seu porta-voz, Preben Aamann.

Escala reduzida

Nesta segunda-feira, ministros europeus terão uma reunião especial sobre o assunto.

Um recente relatório do Acnur estima que, no ano passado, 219 mil pessoas fizeram a arriscada travessia para a Itália, que partindo da Líbia tem cerca de 500km. Pelo menos 3.500 teriam morrido em acidentes.

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Apenas nos últimos dias, 10 mil pessoas foram recolhidas pelas equipes de resgate italiana.

A maioria dos imigrantes vem de países africanos e de regiões de conflito no Oriente Médio, como a Síria.

Pelo menos mil pessoas já morreram em incidentes este ano, um número bem maior que nos primeiros quatro meses de 2014.

Em outubro, autoridades marítimas da Itália anunciaram uma redução na escala de operações marítimas para tentar coibir as tentativas de travessia. No entanto, o número de pessoas arriscando a vida para fugir da pobreza ou de conflitos se manteve no mesmo patamar. Só que agora com menos chances de resgate caso as coisas deem errado.

As autoridades agora temem um aumento de travessias, porque nos meses do verão Europeu as condições de navegação no Mediterrâneo melhoram.

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