Crise hídrica: São Paulo está preparada para enfrentar a estiagem?

  • 5 maio 2015
Bairros à margem da represa Billings, em São Paulo (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Águas da Billings, em São Paulo; secretaria estadual promete mais fiscalização de captações irregulares de água na cidade

A cidade de São Paulo entrou no período de estiagem, no mês passado, com cerca de metade da água que havia no reservatório da Cantareira (principal fonte de abastecimento para a capital) no início da estação seca de 2014.

Além disso, o sistema recebeu, em abril, a metade da chuva esperada para o período, e só nos primeiros cinco dias de maio viu seu nível de água cair por duas vezes.

Em meio à maior seca dos últimos 80 anos, manter a metrópole de 20 milhões de habitantes abastecida nos próximos meses é um dos maiores desafios já enfrentados por autoridades paulistas na história da cidade. Além de ter de vencer um período de inverno majoritariamente seco, os paulistanos têm de torcer para que as chuvas retornem na primavera ─ o que não ocorreu em 2014.

O governo paulista, no entanto, se diz preparado para a missão, embora especialistas ouvidos pela BBC Brasil se mostrem mais céticos.

Desde janeiro, um respeitado especialista em recursos hídricos - Benedito Braga, professor da USP e ex-presidente do Conselho Mundial da Água - assumiu a Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos (SSRH) do Estado.

Sob o comando de Braga, o tom da SSRH é confiante, mas cauteloso: tudo depende de quão severa será a estação seca, disse o secretário em entrevistas. Em nota à BBC Brasil, a SSRH disse que rodízio de água é um cenário "distante" mas que não foi completamente descartado e enumerou as principais medidas que vêm sendo adotadas para a segurança hídrica da cidade.

A vazão do Cantareira deve cair ainda mais. Programas de incentivo à economia de água - como o bônus para quem economiza, já em prática - serão mantidos. Além disso, a secretaria promete maior fiscalização de captações irregulares para uso industrial e irrigação e contra roubos de água na rede.

A estratégia do governo tem, como um de seus pilares, obras que visam diminuir a demanda sobre o sistema Cantareira. Assim, áreas antes abastecidas por ele passam a receber água de outras represas. No início do ano passado, o Cantareira atendia quase 9 milhões de pessoas; hoje são 5,4 milhões, informou a Sabesp. Ao mesmo tempo, obras emergenciais foram antecipadas para 2015 para reforçar a capacidade de abastecimento das represas Billings, Guarapiranga e sistema Alto Tietê.

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Em entrevista à BBC Brasil, a especialista em recursos hídricos Stela Goldenstein, ex-secretária estadual de Meio Ambiente na gestão Mário Covas e municipal na gestão Marta Suplicy, explicou a lógica por trás dos planos do governo.

"A estratégia do governo é 'não tenho água no Cantareira, mas tenho em outras represas'. Então, você encolhe a mancha urbana que era abastecida pelo Cantareira e expande a mancha abastecida por outros mananciais."

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Transparência

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Image caption Redução da vazão de água força comunidades a recorrer a caminhões-pipa

O problema, apontam especialistas, é que o plano depende de obras emergenciais que terão de ser feitas muito depressa.

E mesmo prometendo obras a toque de caixa, os primeiros atrasos começam a surgir. Na última segunda-feira, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou que uma das obras prometidas para evitar o rodízio, a ligação do sistema Rio Grande com o Alto Tietê, anteriormente prevista para ser finalizada em maio, só deve ficar pronta em setembro.

O cenário deixa especialistas apreensivos.

"Se na estiagem de 2015 for mantido o mesmo ritmo de uso de 2014, há chances reais de esgotarmos o Cantareira até o final de outubro próximo", disse à BBC Brasil Décio Semensatto Júnior, professor de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A SSRH disse à BBC Brasil que a vazão do Cantareira será ainda menor em 2015, o que alteraria o resultado desse cálculo. Mas como a vazão já era baixa em 2014 – um terço da vazão normal – há pouco espaço para manobra. Ou seja, a Sabesp (Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), a cargo das obras, corre contra o tempo.

"Vai dar tempo? Eles contam que sim", disse Goldenstein. "Mas para sabermos se dá tempo ou não, teríamos de ver contratos e cronogramas de obras. Ninguém fora da Sabesp faz a menor ideia."

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Aqui, a ex-secretária de Meio Ambiente, hoje diretora-executiva da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros – que trabalha pela limpeza do rio que corta a cidade e que poderia, um dia, ser parte da solução para o problema da água –, esbarra em uma questão que incomoda vários especialistas consultados pela BBC Brasil: eles apontam o que veem como uma falta de transparência do governo na gestão da crise hídrica, a ausência de uma estratégia mais ampla de comunicação com a população e uma suposta falta de um plano de contingência caso a estratégia atual dê errado.

"A população não foi informada sobre a crise, não sabe as dimensões econômicas, de saúde pública, da crise. Precisa ser informada brutalmente, como fez Churchill na Segunda Guerra, com aquela frase: 'Não tenho nada a oferecer senão sangue, suor e lágrimas'", disse à BBC Brasil o especialista em recursos hídricos e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) José Galízia Tundisi.

Tundisi estava se referindo ao primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que liderou a Grã-Bretanha na luta contra os nazistas. Tinha o apoio de todos os partidos políticos e da população.

"Fui demandado por bancos para fazer (um estudo com) alguns cenários para a crise hídrica. Vai continuar? Quanto tempo vai durar? Vai ter repercussões no abastecimento? As indústrias podem ficar inadimplentes? E eu vou emprestar dinheiro para essas indústrias? É isso que eles queriam saber", disse Tundisi.

"A população não sabe disso e precisa ser informada. Discordo dessa ideia de que você não pode informar porque a população entra em pânico. Você abre o problema para poder mobilizar a população", argumentou.

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Image caption Represa de Atibainha, parte do Sistema Cantareira, em fevereiro; "Se na estiagem de 2015 for mantido o mesmo ritmo de uso de 2014, há chances reais de esgotarmos o Cantareira até o final de outubro próximo", diz especialista

Para Tundisi, o plano do governo só dará certo com a adesão completa dos paulistanos.

"Se o governo for bem-sucedido em reduzir drasticamente a demanda, é possível que não seja preciso um rodízio. Mas teria de haver êxito completo na redução da demanda, com premiações, informações e educação."

Liderança

A SSRH disse em nota que, desde 2014, vem fazendo campanhas de esclarecimento da população. Mas, na opinião de especialistas ouvidos pela BBC Brasil, as campanhas não chegam nem perto do que precisaria ser feito para que se alcance uma mudança profunda na cultura de uso da água. Também falta orientação prática, na visão de Semensatto Júnior.

"Estamos vivendo uma situação sem precedentes e a sociedade não está preparada para isso. A desorientação e desorganização ocorrem porque as autoridades não informam de forma explícita o que devemos fazer. Tampouco informam se há, de fato, um plano geral de contingência e qual o nível de segurança dos reservatórios."

Ele exemplificou: "Eles poderiam determinar que a partir de um dado volume armazenado no reservatório, a vazão vai ser reduzida em x% e os usuários terão que tomar um conjunto de atitudes pré-estabelecidas para que essa redução não os prejudique mais".

A frustração do professor não tem apenas razões profissionais. Ele disse à BBC Brasil que, no início de abril, sem qualquer aviso, o prédio onde mora, em Diadema, na grande São Paulo, ficou quase três dias sem abastecimento de água. "Fiquei 60 horas sem água. Foi o maior tempo até agora na minha casa."

Casos como o de Semensatto são comuns. A BBC Brasil ouviu relatos de duas escolas na periferia de São Paulo afetadas pela queda na pressão da água. Em ambos os casos, as torneiras secaram. Administradores tiveram de recorrer à compra de água para o consumo e a higiene de bebês e crianças. Um diretor falou em "fezes se acumulando no vaso" e professores jogando baldes com água no sanitário periodicamente.

Também em ambos os casos, as escolas disseram não ter sido avisadas previamente pela Sabesp. Após informarem a companhia sobre a falta de água, a resposta teria sido lenta. A Sabesp teria, inicialmente, negado a existência do problema. "A Sabesp alegava que a pressão na nossa região era normal, não havia sido diminuída", disse o diretor, que não quis ser identificado.

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Em nota à BBC Brasil, a Sabesp informou: "Com a redução de pressão, áreas mais altas e distantes dos centros de distribuição podem registrar pontualmente problemas de abastecimento".

Goldenstein lembrou que os avisos antes do corte estão previstos no regulamento da Sabesp.

"Em situações como essas, o governo deveria informar previamente e orientar quanto aos procedimentos. E do ponto de vista de regulação do serviço, é previsto que tenha aviso."

Mas com ou sem aviso, a população parece estar recebendo a mensagem, ela ponderou. "A Sabesp diz que 82% dos usuários reduziram o consumo. Ela não diz qual foi a redução, então não sabemos se é suficiente. Mas se o número é real - e não tenho domínio desse número -, significa uma mobilização excepcional. É curioso, a informação se dá por outros meios. Talvez a imprensa e as ONGs tenham tido um papel importante."

E o plano de contingência caso a estratégia do governo não dê certo e as autoridades se vejam obrigadas a implantar um rodízio severo? Em nota, a SSRH informou que o plano está sendo elaborado. Um assessor disse à BBC Brasil que não há data para a sua divulgação.

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