Fim do bipartidarismo britânico? 'Nanicos' forçam grandes partidos a diluir plataforma

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Image caption Premiê conservador David Cameron ou seu principal rival, o trabalhista Ed Miliband, terão desafio de angariar apoio para novo governo

As eleições britânicas do próximo dia 7 deverão "normalizar" uma situação comum na maioria dos países, mas até então considerada uma anomalia na cultura política local: as coalizões de governo.

Com o apoio do eleitorado fragmentado em meia dúzia de partidos, segundo as pesquisas de opinião, é inevitável que a sigla vencedora tenha de buscar parceiros para governar – e mesmo assim são grandes as chances de que nenhuma combinação matemática dê a maioria no Parlamento a quem vencer nas urnas.

O resultado da eleição de 2010, que levou à atual coalizão entre os partidos Conservador e Liberal Democrata, foi tratado na época como um fenômeno extraordinário em um país acostumado a governos com maioria clara no Parlamento.

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Mas os dois principais partidos, Conservador e Trabalhista, que juntos levavam 95% dos votos no período pós-2ª Guerra, obtiveram em torno de 65% cinco anos atrás.

Com a expectativa de um patamar semelhante desta vez, ambos lideram as pesquisas de olho nas negociações que inevitavelmente sucederão o pleito – e fazendo ajustes nos seus programas de governo para permitir acomodações.

"Hoje, os partidos esperam que venham negociações depois das eleições", disse à BBC o diretor do Departamento de Governo da London School of Economics (LSE), Simon Hix.

"Estávamos acostumados a programas de governo incrivelmente detalhados, porque os partidos, se eleitos, poderiam implementar tudo o que estava escrito ali. Agora os manifestos são tão vagos que é frustrante. Mas é natural, porque os partidos não querem se comprometer com coisas para depois abrir mão na hora de negociar."

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Image caption Para especialistas, manifestos dão espaço a propostas mais vagas para não comprometer negociações

Propostas flexíveis

A readaptação reflete a força que os partidos menores conseguiram acumular junto ao eleitorado, explica Nick Vivyan, professor da Escola de Governo e Assuntos Internacionais da Universidade de Durham.

A ascensão mais comentada é a do Ukip, partido de direita que se opõe à integração europeia e defende restrições para a imigração. A sigla deve receber 11% dos votos na quinta-feira, segundo estimativas de Vivyan e de dois outros pesquisadores (da LSE e da Universidade de East Anglia) atualizadas no site www.electionforecast.co.uk.

O partido deve receber quase o mesmo número de votos que o Liberal Democrata (12%), hoje parceiro na coalizão de governo.

"Vemos hoje os principais partidos (Trabalhista e Conservador) reagindo a partidos como o Ukip", diz Vivyan. Na prática, isso significa incorporar bandeiras que se fortaleceram sob os partidos menores.

Na questão migratória, por exemplo, o partido Conservador prometeu manter a entrada líquida de imigrantes para o país bem abaixo dos 100 mil – um patamar que não se vê desde 1997.

Além disso, o premiê conservador, David Cameron, planeja, se eleito, um referendo para decidir sobre a permanência do país na União Europeia até 2017.

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A consulta era descartada pelo partido Liberal Democrata até recentemente – mas hoje, diante da iminência de ter de negociar uma coalizão com os conservadores, o partido já acena com essa possibilidade.

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Image caption Nigel Farage, líder do Ukip, partido que deve conquistar poucas cadeiras no Parlamento mas conseguiu impor agenda

Já os Trabalhistas, ameaçados pelo Ukip junto a seu reduto eleitoral tradicional – trabalhadores britânicos mais afetados pela globalização –, têm adotado uma plataforma de proteção dos direitos para trabalhadores britânicos em detrimento de profissionais de outros países.

O trabalhismo também sofre pressão de siglas à esquerda, principalmente no campo econômico. Partidos como o Verde e os nacionalistas escoceses (SNP), cujos programas poderiam representar o fim da era de austeridade no país, "mantêm a pressão sobre os trabalhistas, que podem perder o voto do eleitor antiausteridade se caminharem demais em direção ao centro", diz Vivyan.

Assim, enquanto os Conservadores prometem terminar o governo com superavit fiscal e uma redução nos benefícios, os Trabalhistas preferem uma redução gradual do deficit e a criação de mais programas sociais financiados com a tributação sobre os bônus de banqueiros.

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'Discussão franca'

A variedade de propostas e a fragmentação do eleitorado britânico indicam que o vencedor terá uma complexa negociação pós-eleições para buscar a maioria parlamentar. Para Simon Hix, da LSE, isso precede uma mudança de cultura dos atores políticos do país.

"Agora entramos em uma realidade bastante similar à de outros países europeus, onde os partidos entram na corrida eleitoral com um núcleo de compromissos políticos que eles consideram intocáveis, sem os quais eles não concordam em integrar o governo", diz.

"Depois tem os compromissos que eles dizem que gostariam de alcançar, mas que podem ter de colocar na mesa de negociações depois das eleições."

Para analistas, isso explica a ênfase dos Liberais Democratas em considerar a educação – uma das "vítimas" das medidas de austeridade do governo de coalizão – um item prioritário. Seria um recado aos seus possíveis parceiros, os Conservadores, que poderiam optar por priorizar a redução do deficit fiscal na equação orçamentária.

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Image caption Nicola Sturgeon, líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP), que tem pressionado os trabalhistas em seus distritos

Outra plataforma "intocável" é a determinação do SNP de encerrar o programa de submarinos nucleares britânico, Trident, estacionado em águas escocesas. O fato de o partido Trabalhista se comprometer com a continuidade do programa representa uma diferença irreconciliável que dificulta uma coalizão formal entre os dois partidos.

Tanto Hix quanto Vivyan concordam que desde que o debate pré-eleitoral seja de qualidade, o risco de ocorrer um "estelionato eleitoral" é pequeno.

"Os eleitores conseguem ver as prioridades dos partidos e de certa maneira isso é bastante transparente. Eles sabem que os partidos podem ter de abrir mão das suas segundas prioridades em prol das primeiras", afirma Hix.

Para Vivyan, os acordos podem desagradar a alguns eleitores, mas é melhor para a democracia que os partidos promovam uma "discussão franca" sobre o que podem alcançar no governo.

"Há desvantagens em relação a isso, mas é melhor se os partidos foram abertos com os eleitores em vez de tentar convencê-los de que vão conseguir implementar tudo que prometeram em campanha."