Ginastas enfrentam ‘teste de nervos’ em SP de olho na Rio-2016

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Image caption Etapa da Copa do Mundo de ginástica serviu como teste para as Olimpíadas; Zanetti não sentiu pressão

Arquibancada cheia, torcida vibrando e o ginásio pulsando no ritmo dos gritos de 'Brasil, Brasil'...poderiam ser os Jogos Olímpicos de 2016, mas era apenas uma etapa da Copa do Mundo de ginástica neste final de semana em São Paulo, pouco mais de um ano antes da Olimpíada em casa.

A competição serviu como uma simulação para o grande desafio do ano que vem. As equipes feminina e masculina do Brasil se depararam com um Ginásio do Ibirapuera cheio e precisaram controlar os nervos e o frio na barriga na hora de entrar em ação com a torcida empurrando.

"É uma coisa diferente, a gente não está acostumado. No juvenil a gente não tinha tanta torcida", disse Ângelo Assumpção, que ganhou ouro no salto e ficou em sétimo no solo.

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"No primeiro dia eu fiquei bastante nervosa. Depois, na final, eu estava mais calma. Mas deixa a gente bastante tenso, é uma preparação mesmo para a Olimpíada", afirmou Lorrane dos Santos, que acabou caindo na final do solo e ficou em oitavo.

"Se pudesse existir essa competição uma vez por semana, seria top. O público brasileiro é diferente do da Europa, da Ásia, por causa desse barulho que o pessoal lá não faz", disse Francisco Barreto, bronze nas paralelas.

Ele próprio sentiu essa pressão com o barulho da torcida nas eliminatórias, ainda no primeiro dia de competições, quando acabou falhando no exercício. "Senti um pouco isso no cavalo. Faz parte, é onde você tem que estar focado, mas acabei tendo esse deslize", disse.

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Image caption Após cair nas paralelas, Flavia Saraiva usou técnica de psicóloga e conquistou ouro no solo

Barreto não foi o único brasileiro a sentir esse nervosismo a mais por causa da torcida presente. No primeiro dia – fase eliminatória – da Copa do Mundo, além dele, o ginasta Petrix Barbosa sofreu uma queda feia na prova da barra fixa, e as jovens Flávia Saraiva e Rebeca Andrade também caíram na trave e nas barras assimétricas, respectivamente.

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"Não sei o que deu errado. É mais positivo ter a torcida incentivando, dá uma alegria todo mundo gritando seu nome, mesmo se você erra eles te dão parabéns. Mas tem um nervosismo, sempre tem", afirmou Rebeca Andrade.

Antes da final, a ginasta não quis fazer promessas. Quando um repórter perguntou a ela se "dava para esperar medalha para o Brasil na Copa do Mundo", ela sorriu e disse: "Acho melhor não".

Volta por cima

Mas Rebeca Andrade foi modesta nas previsões. Apesar de algumas quedas no segundo dia, o Brasil se mostrou menos nervoso e mais acostumado ao barulho da torcida. Tanto que a própria Rebeca conseguiu uma prata no salto, apesar de ter sofrido outra queda na final das assimétricas – assim como sua companheira Flávia Saraiva, que também caiu na prova.

O segundo dia ainda teve o ouro de Ângelo Assumpção e o bronze de Diego Hypolito no salto, além do bronze de Francisco Barreto nas paralelas.

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No último dia, veio a redenção de Flávia Saraiva. Se em sua primeira final – barras assimétricas –, ela acabou caindo e ficou longe do pódio, 24 horas depois ela mostrou estar completamente recuperada da frustração.

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Image caption Petrix Barbosa sofreu queda no primeira dia de competição

Ouvindo os conselhos da psicóloga da seleção Aline Wolfe de que "o passado fica no passado", a jovem ginasta conseguiu fazer duas apresentações boas no solo e na trave e faturou um ouro e uma prata, respectivamente.

"Eu fiquei calma, treinei e fiz o que eu treinei", contou Flávia, após as duas medalhas. Ela disse que usou as técnicas passadas pela psicóloga de "se colocar em uma bolha" antes da competição, para se isolar completamente do que está acontecendo fora, e a de respirar pausadamente contando até 10 para manter a calma.

A tática deu certo, e a jovem de 15 anos e 1,33 m de altura conquistou duas medalhas em sua primeira competição internacional na categoria adulto.

Importância

Segundo a psicóloga Aline Wolfe, a competição em São Paulo foi importante justamente para as equipes aprenderem a lidar com a ideia de competir com o incentivo da torcida.

"A gente precisa viver situações assim pra habituá-los a esse universo, essa torcida, esse barulho. E para irem naturalizando isso, pra chegar na Olimpíada e pensarem 'ah, é só fazer o que eu faço todo dia'", disse.

A psicóloga também ressaltou que a equipe feminina que competiu na Copa do Mundo em São Paulo é muito jovem e pouco experiente em competições internacionais – Rebeca Andrade e Flávia Saraiva têm 15 anos.

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Image caption Rebeca Andrade (esq.) conquistou medalha de prata; para ela, torcida aumenta nervosismo

"Isso ainda é muito novo para elas. Competições assim ajudam para que elas treinem estratégias mentais para se concentrar da melhor forma possível, manejar ansiedade, a expectativa, o medo de decepcionar as pessoas que estão ali torcendo."

A coordenadora técnica da seleção brasileira feminina, Georgette Vidor, admitiu que as ginastas sentiram a pressão de competir em casa. Ainda assim, ela considera que o Brasil passou no teste de nervos.

"Elas sentiram um pouco da pressão. Estão na expectativa de que estamos aqui dentro, temos que fazer melhor, porque errar lá fora não é a mesma coisa, aqui é o Brasil que está vendo. Elas estão vendo o impacto da torcida, o quanto isso mexe com a gente e isso é muito importante", disse.

Teste psicológico

Houve também quem nem sequer sentisse a pressão da arquibancada na hora da prova. Um dos mais aplaudidos pelo público, Arthur Zanetti usou o incentivo que vinha da torcida como combustível para conseguir a melhor marca de sua carreira nas argolas.

Essa foi a primeira competição de Zanetti em casa. Na eliminatória, a nota do campeão olímpico foi 16,05, a maior que já conseguiu. Na final, ele obteve 15,9, a mesma que lhe deu o ouro nos Jogos de Londres.

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Image caption Ibirapuera recebeu 10 mil pessoas no último dia de finais da Copa do Mundo de ginástica em SP

"Foi muito bom competir em casa. No final da série eu ainda estava tranquilo, respirando bem, ainda tinha força pra gastar a vontade, então a gente sentiu mesmo que a energia do povo brasileiro faz a diferença", disse.

Seu companheiro de prova, Henrique Flores, também se sentiu motivado pela torcida e conseguiu a prata para confirmar a dobradinha brasileira nas argolas.

No geral, o Brasil teve um desempenho elogiado por todos os técnicos: nove medalhas no total (três ouros, quatro pratas e dois bronzes), superando as seis medalhas conquistadas na última Copa do Mundo em casa, em 2006. Mas o teste maior, para os treinadores, não foi o técnico – e sim, o psicológico.

"Você vê o país vibrando, isso mexe com o emocional. Ainda precisamos aprender a conviver com isso, mas acho que foi uma experiência positiva", avaliou Georgette Vidor, da seleção feminina.

"Para alguns atletas pesa a pressão. Na parte técnica eles estão prontos, aqui é muito mais uma avaliação psicológica do que física", disse Marcos Goto, técnico de Zanetti e Henrique e membro da comissão técnica da seleção masculina.

"Alguns não sentem, outros sentem, então agora vamos focar mais o trabalho psicológico com aqueles que sentem mais a pressão da torcida."

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