Filho de sociólogo marxista, Ed Miliband tenta recolocar Trabalhistas no poder

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Image caption Miliband é o nome da oposição para as eleições britânicas desta semana

Filho de um sociólogo marxista, detentor de credenciais acadêmicas prestigiosas, e uma espécie de "zebra" quando derrotou seu próprio irmão para assumir a liderança do Partido Trabalhista britânico, em 2010.

Essas são algumas características que definem o líder da oposição britânica, Ed Miliband, que tenta nesta semana recolocar o trabalhismo de volta ao poder no Reino Unido.

O partido tenta equilibrar a agenda conservadora de reduzir o déficit fiscal do país – política iniciada no governo atual após o início da crise econômica – com sua plataforma tradicional de governar para os trabalhadores e para a parte mais vulnerável da sociedade britânica.

No centro dessa estratégia, Miliband é o rosto que tenta combater a imagem de gastador que persegue o Partido Trabalhista e convencer o eleitorado de que sua equipe detém todas as credenciais econômicas necessárias para governar.

Ao mesmo tempo, ele é a personalidade que, às vésperas da eleição, inaugurou um monumento em pedra contendo cinco promessas intocáveis do partido caso seja eleito. Entre as "inscrições" estão mais investimentos no sistema de saúde e em moradias sociais.

Filho do pais intelectuais, ambos judeus, que imigraram para o Reino Unido nos anos 1940 e 1950 fugindo do nazismo, Ed nasceu em 1969.

Ele cresceu no norte de Londres, onde, coincidência ou não, um século antes, Friederich Engels e Karl Marx discutiam as ideias sobre a luta de classes e o papel do capital que influenciariam o mundo.

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Image caption Miliband, Cameron e Clegg disputam as eleições britânicas

Miliband estudou Filosofia, Política e Economia na Universidade de Oxford e tem um mestrado em Economia pela London School of Economics (LSE).

Ele iniciou sua carreira com uma passagem breve pela reportagem de TV, antes de ser contratado como pesquisador para a deputada Harriet Harman, uma das mais importantes parlamentares trabalhistas.

Quando o Partido Trabalhista venceu as eleições de 1997 com Tony Blair, Miliband se tornou conselheiro especial para o então ministro das Finanças – e futuro primeiro-ministro britânico – Gordon Brown.

Foi uma época de disputas entre o Tesouro de Brown e o gabinete de Blair – neste último, trabalhava o irmão mais velho de Ed, David Miliband.

Ed permaneceu na função até o fim de 2002, quando tirou um período sabático para estudar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Na volta para o Reino Unido, foi eleito para o Parlamento em 2005, entrou no governo no ano seguinte. Em 2008, assumiu o recém-criado Departamento de Energia e Mudança Climática, representando o país em um momento crucial das discussões sobre o acordo do clima pós-Kyoto.

Ele conduziu o país no compromisso de reduzir em 80% as emissões de gases que causam o efeito estufa até 2050, medida que o aproximou de muitos ambientalistas.

Seu mais audacioso passo, porém, foi a disputa para a liderança do Partido Trabalhista, após a derrota da sigla nas eleições de 2010.

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Image caption Ed Milliband disputou a liderança do Partido Trabalhista com seu irmão David Miliband em 2010

O favorito na disputa era seu irmão, David, mas Ed conseguiu angariar o apoio de membros do partido contrários à guerra do Iraque e fartos do Novo Trabalhismo de Tony Blair. Sua proximidade com os sindicatos lhe rendeu, na época, o apelido de "Red Ed" – "Ed Vermelho".

Desde então, Ed Miliband tem buscado uma roupagem ideológica alternativa para o seu partido. Combina a promessa de elevar o salário mínimo com um discurso de controle da imigração, dirigindo-se aos trabalhadores britânicos que se queixam da concorrência de mão de obra estrangeira.

O partido se compromete com uma redução gradual do déficit fiscal e promete taxar mais os ricos para financiar novas formas de bem-estar social. Diz que protegerá o sistema público de saúde de interesses privados e promete distribuir os benefícios da recuperação econômica.

Foi a Ed Miliband que os trabalhistas confiaram a tarefa de transmitir essa mensagem. Pode-se dizer que, para este fim, o líder passa uma imagem considerada levemente desengonçada – embora isso tenha melhorado recentemente em proporção direta aos avanços do partido nas pesquisas.

O próprio Miliband já se referiu a esta discussão, afirmando: "Se você quiser um político que acha que uma boa foto é a coisa mais importante, então não vote em mim".