Cameron: De origem tradicional a conservador 'moderno'

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David Cameron saiu de uma origem privilegiada para ganhar a liderança do partido Conservador com uma plataforma de modernização.

O atual primeiro-ministro britânico, candidato a um segundo mandato nesta quinta-feira, foi educado no renomado internato privado de Eton, escola símbolo da elite britânica, fez seus estudos universitários em Oxford e foi descrito pelo seu tutor, o historiador Vernon Bodganor, como "um dos alunos mais aptos" que já havia ensinado.

Após a graduação, no início de sua carreira política, Cameron exerceu uma série de funções no Partido Conservador que incluíram a preparação do então premiê, John Major, para debates no Parlamento e consultorias para o Tesouro e o Ministério do Interior.

Após uma derrota em 1997, ele foi eleito para o Parlamento concorrendo pelo distrito de Witney, perto de Oxford, em 2001.

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O instinto político do futuro premiê britânico apareceria quando o jovem parlamentar, então membro do comitê de assuntos domésticos, co-assinou um relatório recomendando a liberalização de medidas de combate às drogas.

Cameron era chefe de políticas da equipe conservadora derrotada nas eleições de 2005 – e foi a escolha do partido para suceder Michael Howard na convenção que se seguiu às eleições.

O novo e jovem líder projetava uma imagem modernizadora – na aparência física, nas ideias e no comportamento – e não hesitava em tentar influenciar o resto do partido.

Em 2006, fotos do jovem líder conservador sendo puxado por cães da raça husky siberiano no Ártico estamparam os jornais britânicos. A organização ambiental WWF do Reino Unido havia financiado a visita de Cameron à ilha de Svalbard, nas altas latitudes norueguesas, para que o líder da oposição visse com seus próprios olhos os efeitos do aquecimento global.

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Image caption Cameron ganhou pontos com 'imagem verde' em viagem ao Ártico em 2006

No campo social, Cameron faria naquele ano um discurso marcante sobre os jovens vestidos em "hoodies", os moletons com capuz muitas vezes usados por adolescentes marginalizados.

A desconfiança em relação a pessoas que usavam a vestimenta era tamanha que, em 2006, um shopping center no condado de Kent proibira o uso de capuzes.

"Nós, as pessoas em paletó e gravata, frequentemente vemos o capuz como agressivos, o uniforme de um exército rebelde de gângsters", disse o recém-eleito líder conservador.

"Mas para o jovens, o capuz é normalmente mais defensivo que ofensivo – uma forma de permanecer invisível na rua. Em um ambiente perigoso, a melhor coisa pode ser, às vezes, manter a cabeça baixa, tentar se misturar à multidão, não se destacar."

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O líder conservador chamaria atenção referindo-se à "grande sociedade" britânica – uma formulação que se contrapunha à da ex-primeira-ministra conservadora Margareth Thatcher, que em seu tempo dissera que "não existe sociedade".

Ícone para os liberais e neo-liberais, Thatcher defendia que havia "apenas indivíduos e famílias" responsáveis por cuidar de si mesmos, uma crítica ao Estado do Bem-Estar social britânico.

Para Cameron, a estratégia da "grande sociedade" consistia em delegar poderes para organizações civis e comunidades – o que para os críticos era apenas uma roupagem diferente, mas com mesma finalidade, da ideologia thatcherista de reduzir o tamanho do Estado.

O desafio direto à política trabalhista apareceu durante a campanha para as eleições de 2010, cuja prioridade o líder conservador resumiu em três letras: N-H-S – o sistema público de saúde britânico, inspiração para o modelo do SUS no Brasil.

Porém, uma vez no poder, o premiê foi acusado de promover uma "privatização pela porta dos fundos" do sistema, terceirizando serviços para o setor privado e reduzindo os investimentos na parte pública.

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Image caption David Cameron retorna ao ônibus de campanha após evento

Com Cameron, os conservadores voltaram ao poder depois de 13 anos de oposição. O desgaste do trabalhismo após a crise financeira e a Guerra do Iraque empreendida por Tony Blair contribuíram para a mudança.

David Cameron se tornou premiê britânico aos 43 anos de idade, o mais jovem a ocupar o cargo desde 1812.

Entre os seus legados no poder, estão a legalização do casamento gay, um pedido de desculpas pelo Domingo Sangrento ("Bloody Sunday", a repressão brutal do Exército britânico a uma manifestação pacífica de católicos e nacionalistas na Irlanda do Norte em 1972) e o bloqueio aéreo que levou à queda do regime na Líbia.

No terreno econômico, os conservadores governaram durante o período de recuperação da economia britânica – embora muitos economistas argumentem que o repique não tenha nenhuma relação com as políticas conservadoras, que privilegiaram a austeridade.

Ele também será lembrado pela sua relação com envolvidos no escândalo dos grampos que balançou os tabloides britânicos, e a derrota no Parlamento quando tentava autorização para uma ação militar na Síria.

O resultado de seus cinco anos de governo não deve ser suficiente para levar o Partido Conservador à conquista de uma maioria clara na eleição de quinta-feira. Mas os conservadores esperam que os bons índices de aprovação pessoal de Cameron nas pesquisas facilitem as negociações para uma coalizão após o resultado das urnas.