As ‘esculturas’ eletrificadas que ajudam a salvar os corais da Indonésia

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Image caption Correntes de baixa intensidade favorecem a produção de calcário, terreno fértil para corais

A apenas alguns metros da beira do mar, sob as águas límpidas do Oceano Índico, uma estrutura metálica na forma de uma gigantesca lombada, coberta de corais e atravessada por peixes tropicais, poderia claramente se passar por uma instalação artística.

Mas essa aparente escultura está impregnada de correntes elétricas. São elas que ajudam a estrutura a ficar coberta por uma camada rochosa – que, por sua vez, se torna uma espécie de "hospital" para corais que foram destruídos pela atividade humana.

Dezenas de formações elétricas como esta estão instaladas em Gili Trawagan, uma das três pequenas ilhas a noroeste de Lombok, na Indonésia.

Rapidamente tomadas pelo turismo, as ilhas atraíram também um grupo de ambientalistas estrangeiros que se juntaram para criar essas estruturas de aço submersas, chamadas de biorocks.

Com elas, eles estão mostrando como essa tecnologia pode ajudar o país a proteger algumas de suas maravilhas naturais.

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Princípio da eletrólise

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Image caption Corais danificados pela atividade humana se recuperam nas estruturas e depois voltam a seu habitat

"Fiquei realmente surpresa e impressionada ao ver os resultados dessa técnica", admite Delphine Robbe, gerente do Gili Eco Trust. Nascida na França, ela se mudou para Gili Trawagan no início dos anos 2000s para ser instrutora de mergulho, e iniciou o projeto de biorock no local há dez anos, investindo do próprio bolso.

Hoje as três "Gilis" têm, juntas, 111 instalações semelhantes. Cada uma custa cerca de US$ 2,3 mil (quase R$ 7 mil).

A técnica se baseia no princípio da eletrólise, que usa corrente elétrica para produzir uma reação química que não aconteceria de outra maneira. A corrente de baixa voltagem gerada através do metal interage com os minerais da água do mar e favorece o acúmulo de calcário na estrutura.

Após um certo tempo, o calcário se solidifica, tornando-se um terreno fértil perfeito para a vida aquática. "Além disso, a técnica permite acelerar a reação normal do crescimento dos corais, e na biorock, os corais sobrevivem mais do que em outras superfícies", explica Robbe.

Quando mergulhadores encontram corais danificados, eles os transferem para uma dessas estruturas para "curá-los". Ali, os corais podem recuperar sua coloração brilhante e suas densa ramificações. Uma vez totalmente reabilitados, são devolvidos ao mar aberto.

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Abrigo e biodiversidade

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Image caption Projeto interrompeu processo de erosão nas praias e gerou mais biodiversidade

"Apenas observar os recifes e torcer para que eles se recuperem não adianta nada", diz Robbe. "Os detritos de coral que estão no fundo do mar são constantemente removidos pelas ondas e pelas tempestades, o que torna sua regeneração impossível."

O comportamento de habitantes nativos e turistas não ajuda. Apesar de a pesca com rede pesada ser proibida e de restrições às atividades de mergulhadores, não há fiscalização, segundo a ambientalista.

As estruturas metálicas eletrificadas – que, nas mãos dos mergulhadores, ganham formas de arraias, golfinhos, tartarugas e pirâmides gigantes, entre outras – estão ajudando a compensar esses danos.

E não apenas os corais saem ganhando: as formações também favorecem as populações de peixes e crustáceos, particularmente lagostas e filhotes de peixes, que as usam como abrigo. "Agora temos mais biodiversidade e a qualidade da água ficou melhor", acredita a Robbe.

O projeto também está ajudando a combater a erosão em algumas das praias, pois desacelera a arremetida das ondas mais fortes, ajudando no depósito de areia na margem. Certas faixas de areia nas ilhas aumentaram em até 15 metros em poucos anos, como consequência do projeto.

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Energia das marés

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Image caption Alimentadas por combustível fóssil, estruturas não podem ser levadas para o alto mar

Apesar de não haver limites para o tamanho e o formato dessas estruturas – que podem chegar a cobrir centenas de quilômetros –, sua eletrificação dificulta que elas se expandam para o alto mar.

As biorocks da Indonésia são alimentadas por energia gerada a partir de derivados do petróleo. Elas poderiam evoluir com o uso de painéis de energia solar, mas, nas Gillis, esses painéis são roubados com frequência.

Os pesquisadores agora estão investigando a viabilidade de usar energia vinda das correntes marítimas. Como a biorock não precisa de um fornecimento de energia constante, as ondas poderiam ser capazes de suprir a quantidade necessária.

O problema, no entanto, é que essa tecnologia é muito cara e não está disponível na Indonésia, tendo que ser importada.

Um grupo de engenheiros está agora tentando desenvolver um gerador na própria ilha.

Robbe tem a esperança de que seu projeto seja replicado em todo o mundo e que ele mostre à Indonésia que o país poderia confiar mais na energia limpa das marés para produzir sua eletricidade, em vez dos combustíveis fósseis.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.