A ‘Mini-Amazônia’ na Nicarágua que está ameaçada por obra gigantesca

Direito de imagem Sarah Shearman
Image caption Ometepe com o vulcão Conceptión ao fundo, um dos mais ativos da América Central

Uma tranquila e isolada comunidade na Nicarágua, aninhada na base de um dos vulcões mais ativos da América Central, enfrenta um futuro incerto. E o perigo não vem do eterno risco de um desastre natural. A ameaça vem do homem.

Na última década, a ilha de Ometepe viu o número de turistas disparar, atraídos pelas notícias de que se trata de um paraíso de belezas naturais.

Mas esta formação vulcânica no meio do Lago Nicarágua, frequentemente chamada de “Mini-Amazônia”, recentemente se encontrou no epicentro de um polêmico megaprojeto de engenharia: um canal interoceânico que será mais profundo e mais longo que o Canal do Panamá, ideal para a passagem de navios cargueiros gigantes – tudo construído e administrado por empresas chinesas.

A obra deverá ter 278 quilômetros de extensão e ligará o Mar do Caribe ao Oceano Pacífico, atravessando o Lago Nicarágua e potencialmente perturbando a floresta tropical à sua volta e a comunidade local. A rota também trará navios-tanque para as margens de Ometepe.

As obras do canal começaram oficialmente em dezembro de 2014, lançando uma onda de protestos por parte daqueles que estão preocupados em perder suas casas e com os danos que o canal poderá causar para o meio ambiente.

Também surgiram dúvidas sobre se haverá fundos suficientes para que a construção termine dentro dos cinco anos planejados.

Leia mais: Em imagens: Livro reúne os mais incríveis templos do século 21

Leia mais: Sete maravilhas arquitetônicas desconhecidas

Ecoturismo rudimentar

Direito de imagem Sarah Shearman
Image caption Floresta tropical e fauna típica renderam à ilha o apelido de 'Mini-Amazônia'

A ilha de 267 quilômetros quadrados, habitada por pouco menos de 30 mil pessoas, recebe cerca de 40 mil visitantes por ano. Não fosse a rudimentar travessia de balsa e as estradas precárias, esse número poderia ser ainda maior, já que sua uma beleza é incrível.

No dia em que cruzei o Lago Nicarágua – o maior reservatório natural de água doce da América Central – os vulcões de Ometepe estavam envoltos em uma densa neblina.

A vegetação exuberante emitia sua luz verde sobre a réstia de cinza no céu. Pássaros e borboletas voavam por todos os lados enquanto os moradores seguiam suas vidas.

Fiquei hospedada na Hacienda Mérida, uma antiga fazenda de café transformada em hotel, localizada no Parque Nacional Volcán Maderas. Seu dono, Álvaro Molina, foi um dos primeiros a incentivar o turismo na ilha, quando abriu o local em 2001.

Um deck oferece uma vista panorâmica de Conceptión, o vulcão ativo de 1.610 metros de altura que domina o Lago Nicarágua. Do outro lado, o vulcão Maderas, extinto, com seu pico coberto de vegetação, completa o cenário.

Em vez de sair para caminhar, nadar, pedalar ou andar a cavalo – atividades muito populares por aqui – escolho desabar em uma rede.

Leia mais: O sombrio segredo para a felicidade no Butão

Leia mais: Um roteiro de fé e adrenalina pelas igrejas secretas da Etiópia

Sem natureza e sem empregos

Direito de imagem Sarah Shearman
Image caption Cachoeira de San Ramón tem uma queda de 50 metros e é a única da ilha

Na manhã seguinte, saio cedo para andar de caiaque no Rio Istiam, um estreito pantanoso que corre por dentro da ilha. No percurso de 3 quilômetros até a boca do rio, passo por moradores nadando e pescando.

Meu guia, Maykel Carillo, conta que os nativos nunca entravam na água, que era infestada por tubarões-de-cabeça-chata. Mas nos anos 1980, a pesca predatória acabou com eles e hoje só alguns espreitam sob a superfície.

O leito do Lago Nicarágua terá que ser removido com dragas para possibilitar que o canal seja profundo o suficiente para grandes navios cargueiros. “Isso vai matar o lago”, afirma Carillo. “Muitas plantas e animais vão morrer.”

A maioria dos moradores depende da pesca e da agricultura de subsistência, e não possui a formação necessária para os tipos de empregos que serão criados com a chegada do canal. “Alguns nunca foram para a escola, então não há oportunidades para eles”, diz o guia.

Por outro lado, a Nicarágua é um dos países mais pobres do mundo, e as autoridades esperam que o canal atraia um investimento de quase US$ 40 bilhões – mais do que o triplo do atual PIB do país.

Leia mais: O visual surreal do Lago Verde, na Áustria

Mais turistas

Direito de imagem Sarah Shearman
Image caption Vulcão Conceptión pode ser escalado, assim como o vulcão Madera, já extinto

Quando chegamos ao pântano, o volume do canto dos pássaros aumenta. O local abriga uma enorme variedade de aves, e pudemos ver garças, jacanas e gaios-azuis. Um bando de abutres se reunia nos galhos das árvores.

Muitos turistas escalam os vulcões de Ometepe, mas as condições climáticas sempre transformam a caminhada em um passeio nas nuvens. Uma desculpa conveniente para que eu me aventurasse por uma trilha mais curta para a única cachoeira da ilha, San Ramón, que tem uma queda de 50 metros.

Na hora do pôr do sol, os hóspedes da Hacienda Mérida se reúnem no deck. Molina, o dono, aponta para o horizonte: “Dentro de cinco anos, é capaz de vermos apenas enormes navios passando por aqui”.

Para ele, o canal poderá até atrair mais turistas, como aconteceu no Panamá – principalmente agora que Ometepe ganhou uma nova pista de pouso.

Somando-se ao fluxo de trabalhadores que deverá se mudar para a ilha, Molina está preocupado com a sustentabilidade do crescimento populacional, principalmente porque a ilha já está tendo dificuldades de se desfazer do lixo gerado pelos turistas.

Grupos ambientalistas, como o Forests of the World, alertaram sobre os danos que o canal vai causar a essa biosfera, levando à destruição de habitats, à poluição, à introdução de espécies invasivas e à deterioração das reservas de água para consumo e irrigação.

Leia mais: 8 pontes que desafiam a engenharia

Possíveis vantagens

Para o empresário, uma vantagem poderá ser a variedade de estudos ecológicos sendo realizados pela primeira vez na região, trazendo grandes biólogos e entomologistas a Ometepe.

O canal também pode ajudar a evitar o desmatamento – um problema grave na Nicarágua – se conseguir tirar as pessoas da pobreza.

No meu último dia na ilha, a nuvem que vinha cobrindo o pico de Conceptión foi embora, revelando toda a magnitude do vulcão. Faz cinco anos que ele entrou em erupção pela última vez.

A caminho da balsa, paro em um pequeno istmo que se projeta para o lago. Ando até a água chegar a meus tornozelos, e consigo ver a imagem mais famosa da ilha, descrita por Mark Twain em Travels with Mr Brown: “Duas magníficas pirâmides, revestidas do mais suave e rico verde, com sombras e sol, cujos picos perfuram as nuvens.”

Mas 149 anos depois da visita de Twain, com tantas incertezas pairando sobre o futuro da ilha, me pergunto se a observação do autor sobre Ometepe – “tão isolada do mundo e de suas confusões” – vai perdurar tanto quanto a imagem diante de mim.

Leia mais: Um passeio pela verdadeira Westeros, de 'Game of Thrones'

Leia mais: Em imagens: O precioso 'Pantanal' africano

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Travel.