Em ano de Copa, futebol feminino é 'redescoberto' em homenagens atrasadas

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Image caption Léa Campos se tornou a primeira árbitra mulher do futebol mundial

Foi nos anos 1960, quando o Brasil já havia conquistado o mundo com o futebol de Pelé e Garrincha, que Léa Campos, uma mulher ousada que sonhava em jogar ou apitar, tentava ocupar seu espaço em um universo arredio.

Jogar bola foi realmente impossível, já que uma lei aprovada na época de Getúlio Vargas proibia as mulheres de praticar o futebol. Depois de ter sido presa e levada ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, a polícia da Ditadura Militar) várias vezes pela prática proibida, Léa decidiu desafiar a tudo e a todos e conseguiu a formação de árbitra pela Fifa.

Ela conta que precisou apelar ao então general militar e presidente do Brasil, Emílio Garrastazu Médici, para conseguir que João Havelange (então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, que depois viraria CBF) a liberasse para apitar um jogo da Copa do Mundo de 1970. Foi a primeira árbitra mulher do futebol mundial – uma história que ela se orgulha de contar atualmente.

"Lugar de mulher não é no campo, não falo com repórter mulher." Quando ouviu isso do então goleiro do Palmeiras, que ela nem gosta de citar o nome, Germana Garilli, a Gegê, deu de ombros e seguiu seu trabalho nos gramados. Como uma das primeiras mulheres a se aventurarem como repórter de campo no futebol, ela coleciona boas histórias e trata de esquecer as vezes que sua competência foi colocada em xeque – apenas por ser mulher.

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Image caption Gegê entrevistando Rivellino no campo - ela foi a primeira repórter de campo mulher no futebol

Nomes como o de Léa Campos, o de Gegê e de outras que atuaram dentro das quatro linhas, como Marcinha, Maycon, Roseli e Juliana Cabral, estiveram no Museu do Futebol em São Paulo, nesta terça-feira, onde foram homenageadas por serem protagonistas da história do futebol feminino no Brasil.

O Museu, que existe desde 2008, ainda não tinha nada que mostrasse a história das mulheres no futebol. Com a iniciativa chamada "Visibilidade para o Futebol Feminino", a instituição aproveitou o ano da Copa do Mundo de Futebol Feminino – que começa no próximo dia 6 de junho, no Canadá – para resgatar essas memórias inserindo as representantes femininas em todas as salas que contam a história do futebol brasileiro.

"Hoje foi a coroação total de toda a minha luta. Eu já tinha sido homenageada em diversos países, e nunca aqui, no meu país. Vocês não imaginam a felicidade e a emoção que é estar aqui", disse Léa Campos após uma visita emocionada ao novo Museu do Futebol, que agora também tem espaço para as mulheres.

História resgatada

Marta e Formiga ganharam espaço na sala "Anjos Barrocos", que homenageia ídolos do futebol brasileiro. Em outra ala do Museu, há um espaço especial para as pioneiras na história do esporte no país – nessa área, televisões mostram as imagens de mulheres como Léa Campos e Gegê, que ajudaram a cavar o espaço da mulher no futebol.

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Image caption Mulheres de todas as épocas que fizeram parte da história do futebol no Brasil foram homenageadas

"Era uma reclamação do público do museu desde que ele abriu. A gente sempre pensou em como fazer alguma coisa sobre a história das mulheres no futebol. E aí esse ano com a Copa do Mundo, que ninguém comenta, ninguém sabe que vai ter, a gente aproveitou o momento pra abrir esse espaço para as mulheres", explicou Daniela Alfonsi, coordenadora geral do Museu do Futebol.

Esquecidas até mesmo pelos jornais e arquivos históricos do futebol nacional, as primeiras mulheres a praticarem futebol no Brasil foram encontradas nas ocorrências policiais das publicações da década de 1920 e 1930. Naquela época, futebol feminino era caso de polícia e isso tornou ainda mais difícil o desenvolvimento da modalidade no país – e também o 'garimpo' de quem buscava resgatar essa história para colocá-la no museu.

"Nas ocorrências policiais do jornal, encontramos muitas histórias de mulheres que foram perseguidas pela polícia, jogos que foram interrompidos, crises que tinham entre a paróquia da cidade e as mulheres que jogavam…", contou Alfonsi.

Na década de 1940, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, as mulheres foram proibidas de praticar futebol – essa lei só seria derrubada após quatro décadas, em 1981. Até aí, muitas mulheres foram parar na delegacia apenas por "baterem uma bolinha" no país do futebol.

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Image caption Museu do Futebol abre espaço para mulheres que fizeram história na modalidade

Incluindo Léa Campos. "Eu levava a minha bola e as meninas para jogar no campo de várzea. A polícia chegava e me levava. No outro domingo, eu estava lá de novo. E me levavam pra delegacia de novo, era o DOPS, delegacia federal da ditadura. Eu fiquei até amiga do delegado, ele me falava: 'poxa, você de novo…'", contou ela à BBC Brasil.

Na época, as desculpas usadas para impedir as mulheres de jogarem futebol eram variadas. "João Havelange (presidente da CBD) disse muita coisa, chegou a dizer que a estrutura óssea da mulher era inferior a do homem", disse Léa.

E ela foi até o fim para provar que ele estava errado – se não como jogadora, como árbitra de futebol. Dentro de campo, a senhora de hoje 70 anos garante que nenhum jogador jamais questionou sua autoridade. "Pelo contrário, quando vinha um e falava algum palavrão, outros jogadores rebatiam: 'calma aí, tem uma menina apitando futebol aí, respeita'". O episódio mais inusitado aconteceu em Portugal, quando as penas torneadas da juíza chamaram a atenção de um jogador.

"O jogador estava me olhando e eu disse: 'vai, rapaz, corre atrás da bola', mas ele respondeu: 'é que essas pernas da senhora me tonteiam'", relembrou Léa, aos risos.

Dificuldades

Ao visitar o novo museu com a história das mulheres no futebol, foi preciso conter a emoção. Léa, Gegê, Marcinha, Roseli, Ester, todas elas sentiram na pele a dificuldade para conseguirem se destacar em um esporte considerado "masculino" em diferentes épocas e ver um pequeno reconhecimento nas paredes daquele prédio no Pacaembu já foi considerado uma grande conquista.

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Image caption Gegê se emociona ao ver sua história contada no Museu do Futebol

"A gente ouvia muito 'lugar de mulher é no fogão'", contou Marcinha, que esteve na primeira seleção brasileira convocada pela CBF. "A verdade é que o futebol feminino no Brasil não tem incentivo nenhum", opinou Léa Campos, que fez um apelo à presidente Dilma Rousseff pela causa.

"Presidente, apoie o futebol feminino no Brasil. Precisamos das mulheres nos campos de futebol, você é mulher, ajude-nos por favor."

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Image caption Jornais das décadas de 1960 e 1970 ressaltavam 'dieferenças biológicas' para justificar a proibição das mulheres no futebol

Recentemente, a presidente Dilma Rousseff sancionou a medida provisória polêmica de "modernização do futebol" para renegociar as dívidas dos grandes clubes e incluiu como contrapartida para parcelar o débito deles em 20 anos o investimento no futebol feminino.

A Confederação Brasileira de Futebol também tem aumentado o incentivo à modalidade e, com o uso do dinheiro de legado deixado pela Fifa após a Copa do Mundo do ano passado – do qual 15% teria de ser investido em futebol feminino, como determinou a própria entidade -, realiza nesta semana o Seminário de Desenvolvimento do Futebol Feminino em sua sede no Rio de Janeiro.

"O governo tem que nos ajudar. Temos que colocar o futebol feminino nas escolas, com as aulas de educação física. Temos que abrir oportunidades para as meninas que desejam jogar futebol", disse o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, durante o evento.