Jovens do Alemão tentam rir da realidade em série de humor

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Enquanto o Complexo do Alemão vivia outra espiral de tiroteios e mortes, incluindo a de um garoto de 10 anos que levou um tiro na cabeça, dois jovens da comunidade apostavam no humor para superar os problemas.

Alexandre Ferreira e Samuel Silva buscavam um tipo de humor que refletisse a vida cotidiana na comunidade pobre do Rio de Janeiro e que conseguisse arrancar um sorriso em meio ao sofrimento.

No YouTube, eles deram vida aos personagens 100g e Jurubeba, que protagonizam uma série de vídeos curtos em situações cotidianas com ironia e leveza.

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Image caption Alexandre Ferreira e Samuel Silva estudam teatro e tentam mostrar o cotidiano do Alemão com humor e leveza

Os criadores de 100g e Jurubeba cresceram nesta parte da zona Norte do Rio, marcada pela violência de traficantes e policiais - o que, segundo eles, esconde a outra face do local.

"Dizem aí fora na zona Sul que nas favelas só tem traficantes, criminosos, viciados em drogas...", diz à BBC Mundo Samuel Silva, o estudante de teatro de 19 anos que interpreta Jurubeba.

"Não, nas favelas também há pessoas criativas, pessoas de bem, que lutam para vencer mesmo com todas as dificuldades que temos."

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'Esquecer um pouco'

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Image caption Conjunto de favelas é território disputado entre traficantes e policiais no Rio

Com cerca de 70 mil habitantes, o Complexo do alemão é um ponto nevrálgico para a polícia e para o crime organizado no Rio de Janeiro.

A região era dominada por traficantes até 2010 e quase inacessível para as forças de segurança, que nesse ano retomaram o controle do lugar em uma operação de guerra com helicópteros e carros blindados.

Mas a anunciada "pacificação" do Alemão teve diversos percalços desde então.

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No mês passsado, a área foi outra vez cenário de tiroteios que deixaram seis feridos em dois dias. Quatro deles morreram.

O caso que provocou mais indignação foi o de Eduardo de Jesus, um menino de 10 anos que morreu na porta de sua casa, em abril, quando um policial atirou em sua cabeça em plena luz do dia.

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, afirmou que o episódio foi "um erro" cometido pela polícia.

Enquanto esses episódios dominavam os noticiários, Samuel e Alexandre gravavam episódios de As aventuras de 100g e Jurubeba, que tentavam mostrar o Alemão para além da violência.

"Não quisemos tocar nesse ponto (da violência) agora, mas trazer alegria: queríamos esquecer um pouco o que estava acontecendo, com humor", diz Alexandre, de 20 anos.

"Temos inspiração para fazer episódios sobre violência, tiroteios e mortes todos os dias", afirma Silva. "Mas, de tanto conviver com isso, não é o que queremos mostar para fora nem para o povo da nossa comunidade, que é o nosso maior público."

Percalços

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Image caption "A diferença é que nós trabalhamos dentro da favela", diz Leonardo França, o diretor da série

A série, no entanto, tratou de outros temas sensíveis aos habitantes do Alemão.

O capítulo Gringo mostra um estrangeiro que vai à favela de teleférico, com óculos de sol e uma câmera de fotos. Quando 100g e Jurubeba se aproximam, o homem corre apavorado, acreditando que será assaltado. Mas eles só queriam perguntar a hora.

Outro episódio satiriza o drama do transporte público: para ir ao trabalho, 100g tem que cruzar os estreitos corredores da favela, subir um morro, pular um muro, abrir caminho na mata com um facão... e quando chega ao final do trajeto descobre que esqueceu em casa uma pasta que precisava levar.

Ambos conhecem bem as dificuldades que os habitantes da favela enfrentam todos os dias. Alexandre, que também estuda teatro, trabalha em uma empresa no Alemão; Silva, por sua vez, é entregador em um minimercado na Tijuca.

"Vivo sozinho, então, se não trabalho, morro de fome. É difícil", diz.

A rotina de trabalho e estudos trouxe complicações adicionais para gravar a série – eles só podem fazê-lo aos domingos.

Mesmo que nunca tenham tido problemas de segurança para gravar, os atores contam que já foram abordados como suspeitos por policiais na rua e em uma estação de teleférico.

'Deus e nós'

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Image caption Falta de verba e equipamentos faz com que jovens produzam a série "por amor" à arte, segundo Bruno Alcântara

A série também tem episódios sobre a falta de experiência na hora de procurar trabalho, o dilema sobre o que fazer com um celular encontrado na rua, os conselhos equivocados de um amigo e o momento em que a vizinha o encontra roubando mangas do quintal dela.

Os personagens foram ideia dos próprios atores – o nome "100g" se refere ao corpo magro de Alexandre e "Jurubeba" é uma erva medicinal e também o nome de uma bebida.

Após gravar um primeiro episódio com seus celulares, eles foram convidados a trabalhar com uma produtora de vídeos também nascida no Alemão.

A pequena empresa, Sem Roteiro Produções, foi criada por outros dois jovens locais: Leonardo França, de 19 anos, que se tornou diretor da série, e Bruno Alcântara, de 27 anos, responsável pela fotografia e filmagem.

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Eles também ganham a vida com outras atividades, e Alcântara afirma que produzem os vídeos "por amor" à arte, apesar da falta de equipamento básico para gravar.

Apesar de terem se inspirado em outras séries, França garante que o que eles fazem é inédito no Rio. "A diferença é que trabalhamos dentro da favela, nosso humor é voltado para a favela", explica.

Os capítulos no YouTube já totalizam mais de 5 mil visualizações desde fevereiro, e os atores dizem que costumam ser reconhecidos no Alemão pelos nomes dos seus personagens.

"Quero, com essa série, abrir oportunidades no Complexo do Alemão para outras pessoas que têm esse sonho, mas não têm a oportunidade de fazer", afirma Silva.

"Mas falta verba, não temos ajuda para nada. Somos só nós. Deus e nós."