A etiqueta ‘made in China’ vai virar sinônimo de luxo?

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Image caption Mercado de luxo da China é um dos mais cobiçados por marcas internacionais

Não é de hoje que os consumidores chineses de alto poder aquisitivo recorrem aos países ocidentais para encontrar os produtos de luxo que desejam. Mas isso pode estar prestes a mudar.

Para satisfazer o apetite de uma nova classe alta no país, marcas "made in China" que já apostavam em produtos de qualidade e conhecem o gosto desses consumidores começam a despontar como autênticos competidores no mercado de luxo.

Elas ainda detêm uma fatia bem pequena do mercado local, mas alguns especialistas acreditam se tratar do início de uma tendência permanente.

E enquanto ainda é bem mais fácil encontrar, no closet de alguma chinesa endinheirada, um vestido Louis Vuitton ou Gucci do que peças das grifes nacionais Uma Wong ou Masha Ma, estas estão tirando partido de uma mudança que ocorreu em três vertentes.

Primeiramente, os consumidores de alto poder aquisitivo mudaram suas preferências e trocaram os produtos de pura ostentação por artigos com mais classe e exclusividade.

Em segundo lugar, a melhora na qualidade ajudou novas marcas chinesas a se livrarem do estigma ruim do "made in China" e as colocou em um patamar mais competitivo junto a concorrentes globais. Por fim, surgiu um sentimento geral de patriotismo como consequência do ideal do "sonho chinês" implantado pelo presidente Xi Jinping.

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‘Orgulho de ser chinês’

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Image caption Estilista Guo Pei é um dos nomes nacionais mais bem-sucedidos na China

"As marcas chinesas agora estão se afirmando sozinhas", diz Jean-Baptiste Andriani, diretor acadêmico da filial em Xangai da IFA, uma das principais escolas de moda e design do mundo, com sede em Paris.

"Antes as pessoas tinham vergonha de qualquer coisa ‘made in China’. Isso já não acontece mais", afirma Shaun Rein, autor do livro The End of Copycat China ("O fim da China imitadora", em tradução literal) e fundador da consultoria China Market Research Group. "De maneira geral, este é um momento muito animador para as marcas chinesas. As pessoas estão procurando um estilo de vida chinês ao qual elas possam aspirar."

Um bom exemplo é a mais recente coleção da estilista chinesa de alta-costura Guo Pei. Na década passada, suas peças extravagantes eram basicamente reinterpretações da cultura europeia. Agora, seus elaborados vestidos vermelhos e designs éticos fazem referência às raízes chinesas. Pei, que frequentemente veste os VIPs locais para eventos badalados, conta que mudou sua abordagem em 2008, quando se deu conta de que "tinha orgulho de ser chinesa".

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Grandes desafios

Mas apesar de alguns sucessos recentes, essas novas marcas de luxo ainda enfrentam muitos desafios.

Para começar, elas não aparecem em nenhuma das listas de "Top 10" compiladas por empresas de pesquisas junto a consumidores chineses e continuam desconhecidas fora da China.

Além disso, são tão caras quanto suas concorrentes estrangeiras e não têm o glamour que vem junto com a etiqueta.

Aos poucos, no entanto, essas marcas e alguns produtos estão ganhando terreno entre os chineses famintos por luxo e também começam a aparecer nas prateleiras em todo o mundo.

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Tirando partido da tradição

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Image caption Para analistas, fabricantes de cosméticos que valorizarem mulher asiática vão sair na frente

Em 2013, o mercado de cosméticos chinês movimentou US$ 26,5 bilhões – quase o dobro dos US$ 14,5 bilhões de 2010, segundo dados do Centro Nacional de Estatísticas da China.

Enquanto gigantes internacionais como Procter & Gamble e L’Oréal ainda dominam a cena, sua participação tem caído anualmente, conforme mais marcas locais se adaptam ao mercado.

"As mulheres chinesas não gostam das marcas estrangeiras, que elas enxergam como algo para ‘brancas’", afirma Shaun Rein. "As fabricantes de cosméticos locais estão se focando em cuidados para o biótipo asiático e acredito que mais marcas de luxo apareçam neste segmento."

Uma dessas grifes é The Herborist, lançada como uma linha de cosméticos finos pela Jahwa, uma gigante farmacêutica chinesa, em 1998. Em 2007, ela abriu sua primeira loja no exterior, apostando em seus "dotes" chineses – as ervas e as terapias da medicina tradicional chinesa. O endereço: nada menos que a prestigiosa Avenue de l’Opéra, em Paris.

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O movimento da moda

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Image caption Bao Bao Wan (à dir.) é outra estilista que se favorece da atual preferência por marcas exclusivas

O mais recente relatório da consultoria americana Bain & Co sobre o mercado de luxo mostra que 44% dos consumidores chineses estão dispostos a experimentar uma nova grife de luxo nos próximos três anos.

É uma boa notícia aos vários jovens estilistas chineses que estão se instalando em Xangai ou Pequim. Já de olho nessa tendência, a Brand New China (BNC) escolheu o descolado bairro de Sanlitun, em Pequim, para sua loja flagship, que oferece o melhor da moda e do design chineses contemporâneos. O endereço fica a poucos metros de grifes internacionais como Chanel e Armani.

Mas, enquanto ainda é cedo para formalizar uma identidade chinesa na moda, mais e mais nomes estão surgindo e fazendo parcerias com grifes internacionais. Um exemplo é a coleção de joias Swarovski de inspiração chinesa criada por Ye Mingzi e Bao Bao Wan.

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Caviar três estrelas

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Image caption Caviar chinês hoje está no cardápio de premiados restaurantes internacionais

Em menos de uma década, a China despontou como o maior produtor mundial de caviar, ocupando o espaço deixado pelo excesso de pesca predatória no Mar Cáspio. As preciosas ovas são obtidas do cultivo, em lagos de todo o país, de esturjões que foram importados há 20 anos do Irã e da Rússia. E sua qualidade se compara àquelas dos produtores mais tradicionais.

O caviar local recebeu o certificado "made in China" para começar a ser exportado em 2006. Hoje, ele está no cardápio de restaurantes agraciados com três estrelas pelo prestigioso Guia Michelin, em todo o mundo.

"Há cinco anos, essas ovas tinham gosto de lama. Mas os fazendeiros se adaptaram aos padrões internacionais e elevaram a qualidade do produto", diz Giorgio Brandinelli, gerente da Gourmet Fine Foods, fornecedora de alimentos de luxo para hotéis e restaurantes na China continental.

Até agora, o caviar chinês tem sido essencialmente voltado ao mercado internacional – com 70% da produção exportada. Mas essa parcela deverá cair conforme aumente o interesse dos milionários chineses.

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Mergulhando em vinho

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Image caption Chineses já são os maiores consumidores mundiais de vinho tinto

Quando um vinho fino chinês ganhou um prêmio internacional em 2008, críticos e especialistas em enologia de todo o mundo invadiram a China em busca de uma nova fronteira vinícola.

Empresas estrangeiras como Remy Cointreau, Moët & Chandon e a LVMH formaram parcerias com as vinícolas locais na esperança de se posicionar melhor no que se tornou um dos maiores países que consomem vinhos no mundo.

A China é hoje o maior consumidor mundial de vinho tinto e o sexto maior produtor, segundo a Vinexpo, conferência de produtores e exportadores com sede em Bordeaux, na França.

Enquanto o consumidor chinês ainda prefere os vinhos franceses e italianos, algumas vinícolas chinesas têm ocupado um nicho alternativo. Nomes como Grace Vineyard estão começando a fazer sucesso com certos consumidores e podem ser encontrados em restaurantes locais e em Hong Kong.

Especialistas acreditam que a qualidade dos vinhos chineses deva melhorar com o amadurecimento do mercado.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Capital.