Quem são os ‘super-reconhecedores’, que formam a elite da polícia de Londres

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Image caption Morte de Alice Gross (acima) só foi desvendada com a análise de inúmeras imagens de má qualidade de câmeras de segurança

Em 28 de agosto de 2014, a adolescente britânica Alice Gross, de 14 anos, desapareceu em Londres. Ela foi vista pela última vez por câmeras de segurança enquanto andava à beira de um canal, sob a chuva, carregando sua mochila preta.

Para encontrá-la, a Polícia Metropolitana de Londres mobilizou 600 homens, na maior operação de busca realizada na cidade desde os atentados de 2005. Mas foi apenas depois de montar o quebra-cabeças das imagens das câmeras que os agentes encontraram o corpo da jovem em um rio, cinco semanas mais tarde. Eles também fecharam o cerco a um suspeito: o pedreiro Arnis Zalkalns, um imigrante da Letônia.

Durante toda a operação, uma equipe especial de dez funcionários da polícia estava sendo testada formalmente pela primeira vez: eram os chamados "super-reconhecedores".

Esse grupo de elite assistiu a milhares de horas de vídeos de má qualidade e imagem granulada e, em poucos dias, conseguiu identificar tanto a vítima como o ainda desconhecido suspeito. Esses agentes puderam ainda mapear com precisão os movimentos da garota e de Zalkalns, de maneira a montar uma linha do tempo e resolver o caso.

Talento sobre-humano

O que eles têm de extraordinário? Uma capacidade sobre-humana de reconhecer instantaneamente rostos que eles jamais tinham visto antes.

Cientistas estão apenas começando a entender por que algumas pessoas têm essa habilidade e como ela funciona. Mas já há avanços em se identificar que possui esse talento.

"Conseguir reconhecer as pessoas que estão fora de um determinado contexto pode ser um dos indícios dessa habilidade. Outro indício é se você é do tipo que é melhor em reconhecer os outros do que os outros em reconhecer você", explica o psicólogo Richard Russell, do Gettysburg College, na Filadélfia (EUA). Ele foi o primeiro a cunhar o termo "super-reconhecedor", em artigo publicado em 2009.

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Image caption Você conseguiria reconhecer estes rostos se os visse novamente? Essa é uma das habilidades dos 'super-reconhecedores'

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Russell começou a se interessar pelo assunto em 2006, quando estava na Universidade Harvard e estudava a propagnosia: pessoas com pouquíssima capacidade de reconhecer rostos. Ele descobriu se tratar de um problema muito mais comum do que imaginava – cerca de 2% das pessoas que testou. "Então pensei que deveria haver pessoas no outro extremo, com capacidades extraordinárias", conta.

A partir daí, ele encontrou "super-reconhecedores" em todo o território americano. Na mesma época, Mick Neville, chefe da equipe de imagem forense da polícia de Londres, começou a notar que eram sempre os mesmos policiais que identificavam criminosos, muitas vezes a partir de imagens de péssima qualidade.

"Eu queria encontrar um psicólogo que pudesse testar essas pessoas e descobrir como suas mentes poderiam trabalhar ainda melhor", conta Neville, que se associou a Josh Davis, da Universidade britânica de Greenwich.

Os testes de Davis consistiam em pedir para os policiais identificarem um número de celebridades menos conhecidas em imagens distorcidas ou para que eles memorizassem rostos completamente novos e os encontrassem em outras fotos.

Identificando 609 suspeitos

Pouco depois desses testes, em 2011, Londres foi tomada por uma onda de saques e vandalismo. As imagens capturadas pelas câmeras de segurança tiveram que ser analisadas rapidamente. Entram em cena 20 "super-reconhecedores" escolhidos por Davis, que tiveram que examinar quase 5 mil imagens.

Eles conseguiram identificar 609 suspeitos – 65% deles acabaram sendo indiciados. O evento virou a mesa para a equipe de Neville.

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Image caption Um bebê recém-nascido consegue diferenciar o rosto de sua mãe do de outra mulher com apenas dois dias de vida

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O inspetor e o psicólogo hoje ajudam polícias de vários países, como China e Canadá, a descobrirem seus próprios "super-reconhecedores".

O maior talento da polícia de Londres é Gary Collins, policial que atua na unidade de gangues de Hackney, um dos bairros mais violentos da capital britânica. "Eu sempre gostei de arte, e trabalhei como designer gráfico antes de entrar para a polícia. Acho que meu talento está ligado a essa atenção com detalhes e ao reconhecimento de padrões repetitivos", conta.

1% da população

Apesar de os cientistas ainda estarem tentando entender como funciona o cérebro de pessoas como Collins, eles já sabem que a maior parte da capacidade de reconhecer um rosto é processado no giro fusiforme – uma área longa e estreita do cérebro que também processa cores.

Psicólogos evolucionistas são particularmente curiosos a respeito dos "super-reconhecedores" porque o rosto oferece mais do que a identidade – ele está ligado à nossa compreensão do mundo.

Um bebê recém-nascido consegue diferenciar o rosto de sua mãe do de outra mulher com apenas dois dias de vida. Bebês com mais capacidade de reconhecimento facial tendem a ser mais extrovertidos e estabelecem relações de confiança mais rapidamente.

Em novembro de 2011, o psicólogo Ash Jansari, da Universidade de East London, na Grã-Bretanha, conduziu um dos maiores estudos sobre o assunto. Ele recrutou mais de 700 visitantes a um museu de Londres, com idades entre 6 e 74 anos, e usou os mesmos testes feitos por Russell em Harvard. O resultado sugere que cerca de 1% da população pode ser "super-reconhecedor".

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Image caption "Super-reconhecedores" tiveram que examinar quase 5 mil imagens dos distúrbios ocorridos em Londres

Ajuda de computadores

Outros estudos indicam que não existem pessoas melhores do que outras no reconhecimento de objetos. "Isso sugere que o cérebro utilizar um alto nível de processamento para memorizar rostos", afirma Jansari. As pesquisas também demonstraram que nós processamos um rosto da mesma maneira: como uma unidade e não uma coleção de características individuais.

O psicólogo Davis agora está desenvolvendo um teste para encontrar "super-reconhecedores" entre os novos integrantes da polícia de Londres. Ele também atua em um grupo de pesquisadores internacionais em um projeto que visa criar algoritmos capazes de filtrar dados vindos de câmeras, celulares e redes sociais, facilitando o trabalho desses policiais.

Mas ainda é cedo para nos incomodarmos com a ideia de que computadores vão substituir o Homem nessa função. Kelly Gates, que estuda o reconhecimento facial automático na Universidade da Califórnia em San Diego, acredita que os dois coexistirão pacificamente. "O ser humano sempre será muito melhor em identificar um rosto do que um um computador", afirma.

Além disso, o "super-reconhecimento" – por humanos ou por máquinas – poderá, no futuro, ajudar a identificar testemunhas confiáveis em processos criminais. Ou ainda levar os cientistas a compreender melhor a formação de imagens na memória.

Para vítimas de crimes violentos, como Alice Gross, a equipe de "super-reconhecedores" se tornou fundamental nas forças policiais. Naquele caso, após o suspeito ser identificado, a polícia conseguiu rastrear seus movimentos antes e depois do crime e fechou o cerco contra ele, posteriormente encontrando-o enforcado, em um aparente suicídio.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.