OIT: Ação contra exigência de roupa branca abre olhos de quem não enxerga segregação velada

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Image caption Especialista ressaltou que no caso dos uniformes das babás, o problema está ligado à segregação social

A decisão do Ministério Público de abrir um inquérito contra o Clube Pinheiros para apurar a exigência de que babás usem roupa branca para entrar no local foi elogiada pela OIT (Organização Mundial do Trabalho). Outros seis clubes de elite da capital paulistana também estão sendo investigados pelo MP.

"Muitos não percebem o que está por trás de normas assim. Não é apenas um uniforme. Em casos assim, é um uniforme usado para identificar uma classe social diferente, usado para marcar uma identidade social. Assim, ações como essas (do MP) ajudam a trazer à tona um problema velado", disse à BBC Brasil Amelita King Dejardin, especialista da OIT em trabalhadores doméstico.

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Ela cita o exemplo do Chile, que aprovou uma lei em outubro de 2014 proibindo que patrões exijam que seus empregados domésticos usem uniformes em público.

"Essa lei chilena também é outro exemplo de medida para desafiar e conter o tratamento discriminatório a essas pessoas no que diz respeito a sua identidade de trabalhadores domésticos, marcado por seus uniformes."

Piscina não

Mas para Amelita, cujo trabalho é focado em relações trabalhistas e condições de trabalho, o mais importante é deixar claro que o, nesses casos, o uniforme se transforma em uma maneira de discriminação aliada a outros problemas".

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Segundo ela, a segregação vai além da roupa branca porque isso está atrelado a questões como por que a babá não pode entrar na piscina se outros sócios podem.

De fato, na maioria dos clubes listados na ação do Ministério Público há proibição ou restrições para o uso das piscinas pela babá.

No Paineiras, por exemplo, de acordo com o clube, as babás só podem entrar na piscina do playground acompanhando bebês e crianças de até 7 anos.

Questionado sobre o fato de muitos leitores - no Facebook da BBC Brasil - terem dito que a vestimenta seria apenas um mero uniforme, como o de médicos, Amelita voltou a ressaltar a importância do significado da roupa branca nesses casos.

"É claro que profissionais como médicos e pilotos, por exemplo, usam uniforme e até se orgulham disso. Mas é preciso levar em conta que o problema do uniforme do trabalhador doméstico em um clube, por exemplo, é que essa pessoa é vista como à de uma classe mais baixa."

Comida de babá

A especialista da OIT diz que a exigência de alguns clubes paulistanos não é, nem de longe, um caso isolado.

Ela cita, por exemplo, o caso das Filipinas, país conhecido por suas empregadas domésticas, que costumam trabalhar em outros países.

"Lá há inclusive uma outra polêmica no momento, sobre as chamadas 'yaya meals', ou comida de babá. Muitos restaurantes só servem esse tipo de comida para elas e não o prato servido para o patrão", afirma.

Nesse caso, segundo Amelita, o foco da discriminação não é uma roupa branca, mas uma refeição diferente das outras.