Quem é o líder do Sudão acusado de genocídio que é procurado pela Justiça internacional

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Image caption Omar al-Bashir é acusado de genocídio e crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional por conta da matança em Darfur

Buscado há cinco anos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) sob acusações de genocídio e crimes de guerra, o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, fugiu nesta segunda-feira da África do Sul - onde participava de uma conferência da União Africana - após a emissão de uma ordem judicial que o impedia de deixar o país.

A Suprema Corte de Pretória decidiria nesta segunda-feira se Bashir seria entregue ao TPI, e no domingo a Justiça sul-africana havia determinado que ele não poderia deixar o país até a decisão. Mas, segundo autoridades sudanesas, Bashir já voltou de avião a Cartum, capital do Sudão.

Alguns países africanos se recusam, muitas vezes, a cooperar com o TPI - acusando o tribunal de racismo e preconceito contra líderes do continente -, então é possível que Bashir tenha deixado a África do Sul com a bênção da União Africana.

Bashir é acusado de crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante o conflito em Darfur - região no oeste do Sudão na qual, segundo a ONU, cerca de 300 mil pessoas morreram e mais de 2 milhões foram forçadas a fugir de seus lares desde década passada.

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Sua carreira inteira foi definida pela guerra: ele tomou o poder no Sudão em um golpe, em 1989, quando o país vivia uma guerra civil entre norte e sul, e governa o país até hoje com mão de ferro.

Apesar de seu governo ter assinado um acordo para pôr fim à guerra em 2005, outro conflito eclodiu quase simultaneamente, em Darfur.

O conflito em Darfur

A partir de 2003, rebeldes armados da região passaram a enfrentar o governo, alegando negligência para com a região.

Eles foram combatidos por tropas do governo e milícias árabes aliadas, conhecidas como Janjaweed, atualmente acusadas de terem promovido uma limpeza étnica na região. Houve, desde então, diversos processos de paz em Darfur, mas os conflitos prosseguem até hoje. Diversos grupos armados se mantêm ativos.

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Image caption Governo é acusado de ter promovido limpeza étnica em Darfur

Ante a morte de 300 mil pessoas no conflito, em 2010, Bashir foi formalmente acusado de genocídio.

Mas ele nega as cifras apresentadas pela ONU e diz que tampouco apoiou os Janjaweed na matança.

Apesar de um mandado internacional de prisão emitido pelo TPI, Bashir venceu as eleições de 2010 e 2015 - esta última, em abril, foi marcada pelo boicote dos principais partidos de oposição.

E, mesmo com o mandado de prisão o impedindo de viajar, Bashir fez recentemente visitas diplomáticas ao Egito, à Arábia Saudita e, neste final de semana, à África do Sul.

Um dos objetivos de Bashir sempre foi manter o Sudão unificado, mas em um referendo - que foi parte das negociações de paz do país - em 2011, quase 99% dos sudaneses do sul votaram pela separação em relação ao norte.

O Estado independente do Sudão do Sul nasceu seis meses depois, dividindo o que era, até então, o maior país da África.

Carreira

Bashir sempre parece confortável em pronunciamentos públicos, aos quais costuma comparecer em uniforme militar.

Mas ele raramente concede entrevistas. Segundo jornalistas que cobrem o Sudão, isso provavelmente se deve ao fato de ele ser pouco articulado.

"Ele é um homem que preza a dignidade e é bem temperamental, dado a explosões de raiva especialmente se sentir seu orgulho ferido", diz o analista Alex de Waal, agregando que Bashir é muitas vezes subestimado.

"Ele é mais esperto do que parece, mas ciente do fato de que não é alguém que recebeu muita educação."

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Image caption Milícias Janjaweed mataram milhares de pessoas; Bashir nega tê-las apoiado

Nascido em 1944 em uma família de agricultores, Bashir entrou no Exército ainda jovem e subiu hierarquicamente. Ele combateu com tropas egípcias em 1973, na guerra contra Israel.

Como chefe de Estado do Sudão, ele costumava se dedicar mais às atividades militares e deixar as decisões políticas para dois aliados próximos. Um deles, nos anos 1990, era Hassan al-Turabi, um proeminente muçulmano sunita defensor da imposição da sharia (lei islâmica) às Províncias do sul. Os dois aliados romperam em 2000.

Depois, Bashir passou a confiar a política nas mãos de Osman Ali Taha, que negociou o acordo de paz norte-sul e é hoje vice-presidente. Mas sua influência vem decaindo, e Bashir passou a centralizar mais o poder.

"Ele tem exercido mais o poder. Nenhuma figura o ofusca", diz Waal.

A longevidade de Bashir no poder, acrescenta o analista, provavelmente se deve ao fato de que seus adversários não consigam unidade entre si.

Dinheiro do petróleo

Pouco se sabe da vida privada de Bashir. Ele não tem filhos, apesar de ter se casado pela segunda vez quando tinha ao redor de 50 anos.

A economia do Sudão cresceu durante seu governo: muitos enriqueceram graças à exploração do petróleo, e setores como o de telecomunicações avançaram fortemente.

Mas o Sudão do Sul ficou com três quartos da reserva petrolífera do país, e o norte precisou cortar gastos.

Apesar de as tensões norte-sul terem permanecido constantes após a independência, Bashir enfrentou poucos protestos durante a época de levantes da Primavera Árabe.

"Os que esperam que a Primavera Árabe chegue (ao Sudão) ficarão esperando um bom tempo", disse Bashir à imprensa local em novembro de 2013.