Visita frustrada de opositores de Dilma à Venezuela gera mal-estar diplomático

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Image caption Senadores tucanos afirmam que 'militantes vestidos de vermelho' impediram que eles visitassem opositores de Maduro presos em Caracas

A visita frustrada de uma comissão de senadores brasileiros a políticos que estão presos na Venezuela gerou um mal-estar diplomático entre Brasília e Caracas nesta quinta-feira.

O micro-ônibus que transportava os senadores Aécio Neves (PSDB) e Aloyzio Nunes (PSDB), Cássio Cunha Lima (PSDB), Ronaldo Caiado (DEM), Agripino Maia (DEM) e Sérgio Petecão (PSD) teve a passagem bloqueada por manifestantes vestidos de vermelho minutos após deixarem o aeroporto que dá acesso à capital.

Após ser informada sobre o episódio, a presidente Dilma Rousseff convocou o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, para esclarecer o incidente que impediu que os senadores brasileiros realizassem a visita a dirigentes opositores em Caracas, de acordo com o presidente da Câmara Eduardo Cunha.

No início da noite, o Itamaraty emitiu um comunicado em que critica os "inaceitáveis atos hostis de manifestantes contra parlamentares brasileiros" e afirma que pedirá ao governo venezuelano "os devidos esclarecimentos sobre o ocorrido".

De acordo com relato da comissão de senadores, o grupo teria lançado objetos contra o veículo e bloqueado a passagem momentaneamente. "Estamos em Caracas, sitiados em uma via pública. Nossa van foi atacada por manifestantes", disse Neves.

Apesar da afirmação do senador, a comitiva não chegou a Caracas e permaneceu no litoral de La Guaira.

Em um vídeo amador gravado do interior do micro-ônibus, um grupo de manifestantes aparece gritando "fora, fora" e "Chávez não morreu, se multiplicou".

Eles são, então, contidos por policiais, que abrem caminho para a passagem do veículo.

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A caravana prosseguiu poucos metros, mas teve novamente de parar porque a estrada que dá acesso a Caracas estava fechada.

Um caminhão que transportava farinha capotou interditando as duas vias de acesso ao litoral e à capital. Venezuelanos relataram nas redes sociais terem ficado até sete horas no trânsito na volta pra casa.

Autoridades afirmaram ainda que um venezuelano que foi extraditado ao país, acusado de assassinar uma mulher durante os protestos convocados pelo dirigente opositor Leopoldo López em 2014 estava sendo transferido naquele momento à prisão. López está detido, acusado de "golpismo" e "incitação à violência" durante os protestos que resultaram na morte de 43 pessoas.

A via alternativa que dá acesso a Caracas também estava obstruída por um protesto antigoverno.

Com o trânsito bloqueado, o veículo que transportava os brasileiros teve de retornar ao aeroporto. Tanto os senadores quanto as representantes da oposição radical que acompanhavam a delegação brasileira acusaram o governo de Maduro de fechar propositalmente a rodovia com o objetivo de impedir a visita do grupo aos políticos que estão presos.

Ao ter a passagem bloqueada, Aécio Neves telefonou imediatamente para o presidente do Senado, Renan Calheiros, que interrompeu a sessão em Brasília. Neves diz considerar que a a agressão afeta a todo o Congresso brasileiro, não apenas aos senadores que integravam a comissão.

Em resposta, o Congresso Nacional disse "repudiar" e "abominar" o cerco à delegação brasileira e que cobrará "uma reação altiva do governo brasileiro quanto aos gestos de intolerância narrados", diz um comunicado emitido pela presidência do Senado.

"As democracias verdadeiras não admitem conviver com manifestações incivilizadas e medievais. Eles precisam ser combatidos energicamente para que não se reproduzam", diz o documento.

Outra versão

Já o deputado federal João Daniel (PT-SE) tem outra versão para o ocorrido.

Ele diz que chegou ao aeroporto em um voo comercial às 11h52 desta quinta-feira e enfrentou as mesmas dificuldades da comissão do Senado, mas conseguiu chegar a Caracas após enfrentar mais de 4 horas de trânsito.

"Acabei de chegar ao hotel. O trânsito estava muito ruim, tivemos que retornar duas vezes ao aeroporto para tentar pegar vias alternativas. Na última deu certo, mas estava muito congestionado porque todos os veículos estavam desviando para o mesmo lugar", afirmou Daniel à BBC Brasil.

O deputado, que compõem a delegação de esquerda que veio a Caracas fazer "ruído" à presença dos senadores de oposição, diz não acreditar que o engarrafamento tenha sido provocado pelas autoridades.

"O governo venezuelano vai ter a intenção de criar um fato político contra ele mesmo? Não acredito nisso", disse.

O senador do PT Lindberg Farias disse após ser retomada a sessão no Senado que era preciso o exercício da diplomacia parlamentar. "Há discursos que acabam acirrando os ânimos. É preciso que o Brasil e os parlamentares do Brasil se disponham a conversar com os dois lados para garantir o processo democrático", afirmou Farias.

Os senadores debatem a criação de uma comissão "ampla" para visitar o país na próxima semana.

A chancelaria venezuelana não quis comentar o incidente.

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