O brasileiro que vende celulares chineses para a América Latina

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Image caption Há dois anos, Hugo Barra surpreendeu o mercado ao trocar o Google por uma desconhecida empresa chinesa

O mercado brasileiro está cheio de produtos fabricados na China, mas, na Santa Efigênia, rua no Centro de São Paulo conhecida por suas lojas de eletrônicos, os consumidores costumar torcer o nariz para as marcas chinesas.

"A primeira coisa que vem à cabeça quando você fala 'produto chinês' é se tratar de uma mercadoria de pouca qualidade e provavelmente contrabandeada. Eu os evitaria", diz um comerciante.

Existe até mesmo um termo pejorativo para as marcas chinesas que tentam competir ou imitar marcas mais renomadas: "xing ling".

Ainda assim, este foi o mercado escolhido pela fabricante chinesa Xiami para começar a vender smartphones fora da Ásia.

A empresa, que, apesar de ser a terceira maior fabricante de smartphones do mundo ainda é desconhecida fora do continente asiático, anunciou sua chegada ao mercado brasileiro na última quarta-feira - as vendas começam no dia 7 de julho, por meio de seu site.

Liderando esta "invasão" chinesa está um executivo brasileiro, Hugo Barra, vice-presidente para operações internacionais da companhia.

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Barra é um exemplo raro de um latino-americano no comando de uma empresa chinesa. Formado em Ciência da Computação e Engenharia Elétrica pelo Massachussets Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, o executivo de 38 anos fez carreira em Londres, no Reino Unido, e no mercado americano.

De 2008 a 2013, trabalhou no Google, onde desempenhou um papel-chave no desenvolvimento do sistema operacional para smartphones Android.

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Image caption Empresa criada pelo bilionário Lei Jun é hoje a terceira maior fabricante de smartphones do mundo

Mas, há dois anos, ele surpreendeu o Vale do Silício ao se mudar para uma start-up chinesa criada pelo bilionário Lei Jun.

A aposta parece estar dando certo. Sob a liderança de Barra, a Xiaomi se estabeleceu como uma grande fabricante deste setor, com 60 milhões de smartphones vendidos no ano passado.

América Latina

Para sua primeira empreitada no Ocidente, a companhia, em vez de optar por Europa e Estados Unidos, escolheu o Brasil, que servirá como porta de entrada para um mercado ainda maior.

"A América Latina como um todo representa uma tremenda oportunidade", disse Barra à BBC no mês passado.

"É um mercado muito grande onde as pessoas estão rapidamente substituindo seus celulares comuns por seu primeiro smartphone."

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Os números dão uma ideia da força deste mercado. A economia brasileira cresceu apenas 0,1% no ano passado, mas as vendas de smartphone saltaram 55%.

Atualmente, o Brasil é o quarto maior mercado de celulares do mundo, depois da China, dos Estados Unidos e da Índia.

Nos mercados europeu ou americano a Xiaomi teria de convencer consumidores a abrir mão das marcas que usam hoje; mas, no latino-americano, a empresa quer vender para quem está comprando seu primeiro celular inteligente.

Pesquisas indicam que 45% dos consumidores no Brasil ainda não têm um smartphone.

A Xiaomi tem planos de expansão para mercados desenvolvidos, mas isso dependerá de seu desempenho no Brasil e também no México, sua próxima parada na região.

Uma de suas grandes armas é o preço competitivo; vendendo seus produtos com o que chama de "preço justo" - normalmente, bem abaixo dos preços de marcas rivais - a Xiaomi conseguiu a participação de mercado que têm hoje em países asiáticos.

Na Índia, onde 41% do mercado de smartphones é dominado por fabricantes menos conhecidas, esta estratégia está funcionando bem.

Mas no Brasil há outros desafios. Os brasileiros gostam das grandes marcas. Apenas seis delas - Apple, LG, Microsoft, Motorola, Samsung e Sony - respondem por mais de 95% das vendas.

"Xiaomi precisará roubar participação de mercado destas marcas globais, que estão presentes no país nos últimos dez anos", diz Leonardo Munin, analista da consultoria IDC Brasil.

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Image caption Na Ásia, a empresa tem fãs devotos tal como Apple e Google no Ocidente

Outro desafio, ele diz, é que as vendas online não são tão volumosas no Brasil quanto na Ásia.

Só 15% dos smartphones são comprados pela internet no Brasil - e, por enquanto, a empresa pretende vender exclusivamente pela internet, mantendo-se fora do setor de varejo.

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Desconhecidas

A companhia faz parte de uma série de marcas chinesas, como a Alibaba, que têm forte presença no Oriente mas são desconhecidas nos mercados ocidentais.

Barra diz que a Xiaomi é diferente de outras empresas, porque opta em manter controle sobre várias etapas de produção e comercialização.

Ele a descreve como uma mistura de diversas companhias. Produz aparelhos, como a Apple. Desenvolveu seu próprio sistema operacional baseado no Android, como o Google. E dedica boa parte de seus esforços para as vendas online e a logística, como a Amazon.

A Xiaomi cresceu sob o comando de um executivo muito bem-sucedido no Vale do Silício.

O próximo desafio de Barra será ganhar consumidores em seu próprio país.

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