Londrina que escapou por pouco de atentado relata trauma de sobreviver

Shanie Ryan
Image caption Alguns dos sobreviventes de atentados a bomba de Londres acabaram sentindo-se culpados

Os ataques a bomba de 7 de Julho de 2005 em Londres mataram 52 pessoas e deixaram sequelas graves em outras dezenas. Mas centenas de pessoas que foram afetadas pelas explosões sofreram ferimentos leves e simplesmente deixaram o local – apenas enfrentando efeitos emocionais mais tarde.

"Foi uma decisão de uma fração de segundo, e isso possivelmente salvou minha vida", diz Shanie Ryan.

Naquela tarde de quinta-feira, há 10 anos, ela era uma estudante de dança de 20 anos de idade em sua rotina diária de ir de metrô para o colégio na companhia de seu colega Leon, pela Piccadilly Line.

Como de costume, os dois estavam no primeiro vagão, lotado. Na estação de King's Cross, ela desembarcou para se despedir do amigo, e acabou perdendo o lugar.

Naquele momento, o extremista Germaine Lindsay entrou no primeiro vagão com uma mochila cheia de explosivos.

Shanie acabou embarcando no vagão seguinte.

Segundos depois, quando o trem entrou no túnel do sistema metroviário, Lindsay detonou a bomba.

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"Eu só me lembro de uma grande explosão. Dor no ouvido. O trem guinchou até parar e uma mulher caiu sobre mim. Foi como se o tempo tivesse parado. Houve um silêncio assustador."

"Depois, os sentidos começaram a voltar. A fumaça começou a tomar conta. Havia sons de pessoas gravemente feridas pedindo ajuda: 'Estamos pegando fogo!' A mulher que caiu sobre mim – seu nome era Priscilla – me disse: 'Você está OK, você está OK'".

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Image caption Essa imagem foi retirada de um vídeo gravado no trem atingido entre King's Cross e Russell Square

Os passageiros começaram a debater se deveriam tentar escapar ou esperar por socorro. Mas a ajuda demoraria mais de uma hora para chegar.

"As pessoas confortavam umas às outras. Completos estranhos se aproximaram. Mas depois de um tempo, não sabíamos mais o que dizer e o silêncio voltou."

Shanie não conseguia ir ao outro vagão para ajudar.

"Quando você está lá e consegue ouvir a dor de alguém, e os gemidos vão diminuindo, a culpa é imediata porque você não conseguiu ajudar, porque são eles e não você."

No primeiro vagão, 26 pessoas morreram. Aquele foi o quarto dos ataques a bomba coordenados em Londres naquele dia.

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Quando a ajuda finalmente chegou, os sobreviventes começaram a ser retirados. Eles tiveram que caminhar pelo túnel em meio a destroços e partes de corpos, ainda tentando descobrir o que tinha acontecido.

Quando Shanie chegou à estação King's Cross, um paramédico tentou guiá-la para uma ambulância.

"Eu dizia: 'Estou bem, estou bem'. Olhei para a ambulância e havia sangue por todos os lados."

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Image caption Vários passageiros ficaram presos durante mais de uma hora dentro do metrô atingido pela bomba

"Apenas o afastei com o braço e corri o caminho inteiro até o colégio. Corri até a aula de balé de Leon e disse: 'acho que estive em um acidente de trem'".

"Todos pararam e ficaram olhando, e Leon correu em minha direção. Quando olhei no espelho mais tarde, vi que estava coberta de fuligem e sujeira. Até meus olhos estavam pretos. Minha língua estava preta".

'Inferno de Dante'

A polícia estima que cerca de 4 mil pessoas foram afetadas diretamente pelos atentados.

Como Shanie, a grande maioria não sofreu ferimentos físicos graves. Ela teve os tímpanos perfurados e problemas de respiração.

Grande parte dessas pessoas simplesmente foi embora. Alguns tentaram se limpar e ir trabalhar como se tudo estivesse normal.

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Image caption O passaporte do extremista Germaine Lindsay foi encontrado no vagão em que a bomba explodiu

O analista de risco Sudhesh Dahad também estava no trem da linha de Piccadilly. Ele ficou a apenas seis metros do extremista.

Ele diz se lembrar de um pipocar e de uma cena que descreveu como o "Inferno de Dante".

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"Pensei que estivesse morto e que aquilo era uma forma de vida após a morte. Pelos sons, percebi que pessoas estavam engatinhando, tentando conseguir ajuda, tentando fugir do fogo. Depois percebi que estava vivo".

No dia seguinte, Dahad estava de volta às reuniões com colegas americanos e às pressões de seu trabalho.

"Estava ali, mas mal conseguia contribuir. Estava como um zumbi".

Ele teve os tímpanos perfurados e cortes na face. Enquanto seus ferimentos físicos começavam a sarar, as feridas psicológicas só pioravam.

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Image caption Ao todo, 52 pessoas foram mortas nos quatro atentados coordenados em Londres

Flashbacks vívidos eram deflagrados por pequenos sons ou cheiros. Em seus pesadelos, voltava ao trem, e sentia uma ansiedade constante de que voltaria a ter de enfrentar tudo de novo.

A polícia chegou a procurá-lo para poder usar as roupas que usava como provas do crime e interrogá-lo. Ele diz que chegou a pensar: "Que bom, estou no sistema". Mas nunca recebeu qualquer oferta de apoio ou tratamento psicológico.

De 2006 a 2010, Dahad se dedicou inteiramente ao trabalho, até que as sensações se tornaram esmagadoras.

Estresse pós-traumático

Na sequência dos ataques de 11 de Setembro, o departamento de saúde de Nova York estimou que 61 mil pessoas sofreram de "provável desordem de estresse pós-traumático".

A psicóloga Patricia d'Ardene, chefe do Instituto de Psicotrauma do leste de Londres do serviço de saúde britânico, disse que naquele dia dos ataques, ela já sabia que haveria centenas, talvez milhares de pessoas como Dahad e Shanie Ryan, que correriam o risco de desenvolver problemas mentais futuros.

O problema era rastrear os sobreviventes após o ataque.

"No dia, a prioridade era liberar as pessoas. As pessoas recebiam a orientação: 'Vá, fuja o mais rápido que puder' porque ninguém sabia se haveria novas explosões."

"Nem nomes foram registrados".

Em duas semanas, d'Ardenne e uma equipe de clínicos criaram cinco centros de tratamento em Londres e anunciaram sua existência.

Mas foram poucos os clínicos gerais que enviaram pacientes, e alguns hospitais não forneceram nomes de pacientes por causa das leis britânicas de proteção de dados pessoais.

Muitos sobreviventes frequentemente sentiam culpa ao buscar tratamento, segundo a psicóloga.

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Image caption O analista de risco Sudhesh Dahad estava no metrô a apenas seis metros do extremista que se explodiu

A culpa foi uma das emoções mais fortes experimentadas pelos sobreviventes – culpa por terem deixado feridos para trás e culpa por sobreviver enquanto outros morreram.

"Nosso tratamento é reviver o episódio várias vezes. Aos poucos surge uma quadro mais completo. Havia equipes de emergência no local gritando: 'Saia. Você não é socorrista, você é vítima'".

Das 900 pessoas identificadas pela equipe, cerca de 600 passaram por exames, e metade apresentou problemas mentais suficientemente graves para requerer tratamento.

Os sintomas mais comuns eram flashbacks, hiper-vigilância – "como se estivessem em uma zona de guerra" – e fobia de transporte público.

"Passamos bastante tempo acompanhando pessoas que estavam com medo de andar de metrô. Eles caminhavam cinco, seis milhas (cerca de 9 a 10 km) por dia para evitar isso".

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Isso envolvia confortar e falar com as vítimas sobre a suas emoções.

Fatos e informações também fazem a diferença, segundo ela, na hora de ajudar a racionalizar o que havia acontecido, e mostrar que as chances de aquilo acontecer de novo são pequenas.

Duas semanas depois do ataque, uma tentativa frustrada de extremistas de atacar a rede de transportes de Londres, elevou o nível de medo novamente. Aquele seria o dia da primeira viagem de metrô de Shanie Ryan depois do ataque. Novamente, ela teve que ser retirada de Kings's Cross.

Além dos sintomas esperados, o grupo de Ardenne começou a identificar reações psicológicas não esperadas, identificadas apenas nos sobreviventes de 7 de julho.

"Descobrimos que as pessoas não estavam zangadas. Elas não culpavam a Al-Qaeda (que mais tarde assumiu a responsabilidade pelos ataques). Elas não culpavam os extremistas".

"Elas culpavam o governo e a política exterior. E se culpavam a si mesmos. Por exemplo, eu tive um paciente que estava tendo um caso e pensou que estava sendo punido".

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Image caption Centenas de pessoas simplesmente deixaram os locais correndo e não receberam apoio psicológico

A equipe também concluiu que, ao mesmo tempo que os sobreviventes se mantinham alienados do mundo normal, tinham grande afinidade com outros sobreviventes: "quase como uma tribo".

Sudhesh Dahad reconhece estes sentimentos. Ele diz não ter qualquer sentimento em relação aos extremistas: "Eles eram apenas fantoches, sofreram lavagem cerebral".

O que mais o ajudou foi um grupo criado por sobreviventes chamado King's Cross United que o ajudou a perceber que "estava certo sentir o que eu estava sentindo"

Os efeitos positivos do apoio para os sobreviventes começou a mudar o planejamento da forma de tratamento no caso de ataques futuros.

A Fundação pela Paz em Warrington, criada após um atentado do IRA em 1993, oferece apoio a qualquer pessoa afetada por terrorismo e é financiada pelo ministério da Justiça.

A instituição está se preparando para oferecer apoio aos sobreviventes do recente tiroteio na Tunísia.

Para Shanie Ryan, oito anos se passaram até que ela recebesse ajuda profissional – quando foi diagnosticada com provável desordem de estresse pós-traumático.

Ela disse que nunca mais será a garota destemida e descuidada que entrou naquele trem.

Até hoje, ela ainda tem problemas para usar o metrô e se sente culpada.

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