Fundada por Ivã, o Terrível, cidade veste 'máscara' para sediar cúpula dos Brics

  • 8 julho 2015
Foto: AP Direito de imagem xx
Image caption Escolha de Ufá para sediar reunião anual dos BRICS pode ter tido motivação política. Foto: AP

Uma edição da Gazeta Russa publicada no Brasil na semana passada já alertava: apesar de a socialite americana Paris Hilton ter achado a cidade de Ufá, sede russa da 7ª Cúpula dos Brics, "linda e encantadora", nem todos que visitam a capital da Bachquíria "sentem a vibração logo de cara".

Construída por ordem do czar Ivã, o Terrível, para proteger o território de invasões, Ufá não lembra nem de longe os tempos de fortaleza.

Encravada na Rússia Central – a mais de mil quilômetros de Moscou, próxima do Cazaquistão e dos Montes Urais, que marcam a divisa com a Sibéria –, a cidade tem ruas largas, arquitetura insossa e luzinhas com aparência natalina acesas em pleno julho.

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As centenas de placas do evento espalhadas pela cidade não deixam dúvida da importância de sediar a cúpula dos Brics para Ufá. Mas nos longos trajetos entre os hotéis escolhidos pela organização para abrigar jornalistas e o centro de imprensa, é difícil ver qualquer vibração.

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Image caption Policiais vigiam as ruas de Ufá, que receberam adesivos para amenizar o visual. Foto: AP

Vazia

Apesar de ter mais de um milhão de habitantes, Ufá tem poucas pessoas nas ruas e calçadas. A polícia, por outro lado, está em quase toda esquina. Os policiais se posicionam discretamente nas calçadas, normalmente sem carros ou presença ostensiva na rua; costumam ficar sozinhos ou em duplas.

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Image caption Apesar de abrigar uma população em torno de 1 milhão de habitantes, a maioria das ruas de Ufá tem aparência deserta. Foto: AP

Escolhida para sediar a cúpula dos Brics – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – a cidade consumiu US$ 189 milhões (R$ 628 milhões) nos preparativos para o evento, de acordo com o governo.

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A maior parte, US$ 108 milhões, veio de investimentos privados, com o governo federal e o da república da Bachquíria bancando o resto. A administração de Vladimir Putin tem interesse em mostrar pujança com o evento – a Rússia sofre sanções devido à crise na Ucrânia e o líder russo quer fazer do encontro uma demonstração de poder.

Os principais investimentos foram para a reforma do aeroporto e a construção de novos hotéis – um deles, da rede Hilton, dá uma pista para justificar a propaganda positiva que a herdeira da rede fez da cidade.

Maquiagem

Nas redes sociais russas, os preparativos causaram polêmica: o governo foi acusado de maquiar a cidade para os participantes do evento.

Fotos publicadas por um blogueiro e compartilhadas por milhares mostraram casas escondidas por falsas fachadas, feitas de uma espécie de papel de parede, e também por grandes cartazes de árvores.

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Image caption Os prédios antigos receberam uma fachada falsa com a aplicação de adesivos. Foto: AP

Um prédio antigo também teria sido escondido atrás de uma espécie de adesivo simulando uma aparência mais moderna. Além disso, calçadas de cimento teriam sido cobertas por grama falsa.

Pela cidade, a reportagem da BBC Brasil viu os cartazes de árvores retratados, mas eles estavam tapando obras.

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Segundo a agência de notícias russa Tass, as autoridades de Ufá reagiram dizendo que o blogueiro não era mais bem-vindo na cidade.

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Image caption Calçadas de Ufá foram cobertas por grama artifical para melhorar o visual urbano. Foto: AP

Turisticamente, Ufá se vende como uma divisa entre Ocidente e Oriente. Ela não tem grandes atrações turísticas: segundo o Trip Advisor, o melhor programa da cidade é visitar o monumento Slavat Yulaev (líder de uma rebelião no local), visível a partir do centro onde será realizada a cúpula.

Já o guia Lonely Planet recomenda, em seu site, uma visita ao Museu Lênin, em uma casa onde o próprio líder da Revolução Russa morou por algum tempo, a 30 quilômetros de Ufá. A Gazeta Russa, suplemento em português financiado pelo governo russo, aconselha provar o mel de Ufá, especialidade local.

O turista que visitar a cidade, porém, pode ter problemas de comunicação: a maior parte das pessoas que a reportagem da BBC Brasil encontrou não falava inglês – mas elas não se abstiveram de falar em russo, mesmo sabendo que o interlocutor não falava a língua.

Exposição

Logo na entrada do centro de imprensa, há uma exposição sobre Ufá com basicamente quatro itens: uma maquete do antigo kremlin (fortaleza) da cidade, que não existe mais; um traje usado pelo bailarino Rudolf Nureyev, celebridade maior da cidade; um troféu do time de hóquei local e o motor de um caça produzido em Ufá.

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Image caption Traje usado pelo famoso bailarino russo Rudolf Nureyev, nascido em Ufá. Foto: Luiza Bandeira/BBC Brasil

A mostra termina com maquetes de projetos que prometem, nos próximos sete anos, mudar a paisagem da cidade – que, hoje, é marcada por prédios de arquitetura funcional típica soviética, sem grandes atrativos e em tons pastéis – com edifícios espelhados modernos e grandes áreas verdes.

Na sala de imprensa, telões mostram imagens turbinadas de Ufá – luzes acesas à noite, prédios históricos, igrejas e mesquitas com iluminação especial e imagens aéreas do rio que banha a cidade.

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Image caption Entrada do centro de convenções de Ufá. Foto: GETTY

Jornalistas que se interessaram em saber um pouco mais sobre o local ganharam pelo menos três livros: um sobre a história de Ufá, um sobre a Bachquíria e um sobre a Rússia.

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Mas qual o interesse do país em realizar um evento de grande porte em uma cidade longínqua e pouco conhecida?

Para o professor de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel, o objetivo é promover uma cidade fora do eixo.

"Assim como outros países, a Rússia usa a cúpula para beneficiar politicamente um aliado e apresentar ao mundo algumas regiões que não têm visibilidade", afirma.

Ele lembra que, quando o Brasil foi anfitrião da cúpula, escolheu Fortaleza como sede do evento – um afago ao aliado Cid Gomes, que quando governador, construiu um grande centro de convenções que acabou sendo usado para o evento.