Após criticar capitalismo, papa chega ao Paraguai, país dividido sobre o aborto

Papa Francisco no Paraguai | Foto: AFP Direito de imagem AP
Image caption No Paraguai, Francisco deve enfrentar perguntas sobre aborto, tema em debate controverso no país

Com quase um quarto da população abaixo da linha de pobreza, o Paraguai, terceiro e último destino do papa Francisco em sua visita à América do Sul, é majoritariamente católico. Quase 90% de seus cidadãos consideram o papa como seu líder espiritual e o governo declarou feriado nacional na sexta e no sábado, devido à visita.

O país é um bastião do catolicismo, apesar do avanço do secularismo e das igrejas evangélicas na maior parte do continente. No entanto, o pontífice também encontra uma sociedade profundamente dividida sobre o aborto, após o caso polêmico de uma garota de 10 anos que teria sido estuprada por seu padrasto e foi impedida de interromper a gravidez, apesar dos pedidos de sua mãe.

O caso enfureceu ativistas pelo direito de abortar e esquentou o debate em um país que luta contra altos índices de violência contra a mulher, de abuso de crianças e de casos de gravidez de menores de idade.

O papa deverá ser questionado sobre estes assuntos, e os detalhes de suas respostas serão importantes, já que a Igreja Católica se opõe ao aborto, em teoria, em todos os casos.

Não é a primeira vez que o papa argentino enfrentará assuntos espinhosos durante esta "viagem de volta para casa", que está sendo marcada por gestos simbólicos e discursos inflexíveis.

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Na Bolívia, ele condenou o que chamou de "novas formas de colonialismo" das sociedades modernas e pediu a rejeição do consumismo atual.

"O novo colonialismo tem diferentes faces. Às vezes, ele aparece como a influência anônima de mamon (termo bíblico usado para descrever dinheiro ou riqueza material): corporações, agências de empréstimo, certos tratados de livre comércio e a imposição de medidas de austeridade", disse o papa, em um encontro com movimentos populares na quinta-feira.

Nenhum poder atual ou estabelecido tem o direito de impedir povos de exercitarem sua soberania... Sempre que eles fazem isso, vemos o surgimento de novas formas de colonialismo."

Papa Francisco
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Capitalismo 'desenfreado'

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Image caption Francisco e o presidente boliviano Evo Morales, que já fez duras críticas à Igreja, trocaram amabilidades durante visita

Falando na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, o papa Francisco pediu a criação de uma nova ordem econômica global, em que os países menos desenvolvidos não atuem mais como meros provedores de mão de obra barata e matérias-primas.

"Estamos percebendo que este sistema nos impôs uma mentalidade de lucro a qualquer custo, sem preocupação com a exclusão social ou com a natureza?", disse, durante uma missa a céu aberto em Santa Cruz, no sudeste da Bolívia.

O papa Francisco já desdenhou do capitalismo, da especulação financeira e da ideologia do livre mercado antes – assim como seus antecessores João Paulo 2º e Bento 16 –, mas seus comentários na Bolívia foram a crítica mais forte do tipo até agora.

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Desde que foi eleito, em 2013, o pontífice já falou sobre assuntos políticos e religiosos delicados: desde pedir o fim dos conflitos no Iraque e na Síria até uma mensagem de acolhida a homossexuais católicos.

Muitos o veem como um humilde reformista e progressista.

Céticos e críticos, no entanto, dizem que parte de seus pronunciamentos é apenas retórica vazia, e que Francisco deveria estar fazendo mais para lidar com a crise interna da Igreja e o acobertamento escandaloso de padres supostamente envolvidos em casos de abuso sexual.

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Política dos pobres

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Image caption O papa usou uma lanchonete como sacristia improvisada para vestir-se antes da missa aberta em Santa Cruz, na Bolívia

A viagem do papa de 78 anos para a América do Sul também é uma declaração de posicionamento: ele quis visitar três países pequenos e frequentemente relegados a segundo plano, em vez de ir às grandes potências da região, como o Brasil ou a Argentina, em um continente marcado pelas relações entre política e religião.

É, afinal, o continente onde nasceu a teologia da libertação, um movimento ligado à esquerda que interpretava a fé cristã pelas lentes dos pobres e pedia que os católicos se envolvessem em mudanças políticas e estruturais fundamentais.

Francisco, no entanto, nunca fez parte da teologia da libertação e já fez críticas a aspectos do movimento, que atingiu seu ápice durante o final dos anos 1960 e os anos 1970, em meio a ditaduras militares em diversos países do continente. Muitos o consideram uma forma de "marxismo cristão".

Mas esta preocupação pela ordem política e econômica mundial – e pelos pobres – faz parte do novo papado desde seu início.

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'Por favor, perdoem'

Durante a turnê pelos países latino-americanos, o papa também fez um gesto de reconciliação: ele pediu perdão por todas as atrocidades cometidas séculos antes naqueles países em nome da Igreja Católica.

"Digo isso com pesar: muitos pecados graves foram cometidos contra os povos nativos da América em nome de Deus", disse à multidão.

Peço perdão humildemente, não apenas pelos erros da Igreja, mas também pelos crimes cometidos contra os povos nativos durante a chamada conquista da América."

Papa Francisco
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Desde sua chegada ao continente, em 1500, colonizadores espanhóis e portugueses avançaram sobre os territórios ocupados por nativos, com a bênção da Igreja Católica, dizimando populações, destruindo parte de seus territórios e forçando sua conversão à fé católica.

João Paulo 2º já havia se desculpado aos povos indígenas do continente pela "dor e sofrimento" causados durante a colonização, durante uma visita à República Dominicana em 1992.

Agora, o papa pediu ao povo boliviano, em sua maioria indígena, que perdoe os "pecados do passado", uma mensagem que ecoou no Paraguai e no Equador, outros dois países com forte herança indígena pelos quais passou em sua turnê.