O euro superaria a saída temporária da Grécia?

Christine Lagarde, do FMI, conversa com o Ministro das Finanças grego Euclid Tsakalotos (Foto: AP) Direito de imagem AP
Image caption Saída grega do euro dificultaria o pagamento de dívidas com o Banco Central Europeu

Previsivelmente há um tremendo nervosismo entre políticos e banqueiros em Atenas sobre o fracasso do Eurogrupo em fazer um progresso considerável sobre um acordo de resgate para a Grécia.

Após o fim de semana dado como limite para o estabelecimento de um acordo, líderes dos países da zona do euro adentraram a madrugada de segunda-feira reunidos em Bruxelas negociando uma solução para a crise grega.

Aqui estão apenas algumas das preocupações – focando em particular na ideia, sustentada pelo Ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, de que talvez deva haver uma saída temporária da Grécia do euro.

Então, o primeiro fator que está atemorizando os banqueiros é que não houve conversações entre o Banco da Grécia, o governo ou entidades reguladoras e os bancos comerciais do país sobre as questões técnicas que envolveriam sair do euro e adotar uma nova moeda.

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Isso é surpreendente – alguns poderiam até classificar como criminoso – visto que na noite da quarta-feira o presidente do Conselho Europeu, o ex-premiê polonês Donald Tusk, foi explícito ao dizer que as negociações deste fim de semana eram essencialmente sobre a permanência ou não da Grécia na zona do euro.

"Não houve conversações com as autoridades sobre o que nós faríamos se saíssemos do euro – nenhuma preparação técnica", disse um banqueiro experiente que pediu anonimato.

Ele também ressaltou outro ponto sobre a possível saída da Grécia do euro: "Se isso acontecer, bom, então não tenho ideia de como e quando nós vamos reabrir".

Ou seja, a saída do euro seria um pesadelo para os bancos e também para o Banco Central Europeu.

E aqui vai uma razão para isso:

Atualmente a entidade possui empréstimos gregos de 50 bilhões de euros para empresas, incluindo hipotecas – como parte colateral da Assistência Líquida de Emergência de 120 bilhões de euros fornecida pelo Banco Central Europeu e do Banco da Grécia.

Perdas colossais

Se a Grécia fosse adotar uma nova drachma, famílias e empresas gregas começariam a receber sua renda nessa nova moeda – cujo valor entraria em colapso em relação ao euro.

Mas as dívidas para o Banco Central Europeu dessas famílias e empresas quase certamente continuariam em euros.

Então, com sua nova renda colapsando em termos reais, eles não seriam capazes de continuar pagando as dívidas.

Dessa forma, o Banco Central Europeu teria perdas colossais – da ordem de 35 bilhões de euros.

Esse é apenas um dos problemas.

Um investidor influente disse que a sugestão de Schaeuble de saída temporária do euro seria uma ameaça existencial para a moeda única – mesmo sendo uma saída menos dolorosa e humilhante do euro.

Nesse ponto, investidores começariam a apostar qual seria a próxima nação a enfrentar dificuldades para pagar dívidas e lidar com um euro forte – e, portanto, qual seria a próxima a buscar uma saída temporária da moeda.

Os investidores então retirariam capital da nação identificada como vulnerável financeira e economicamente. Isso reforçaria a vulnerabilidade, pois a saída de capital elevaria o custo do dinheiro lá e prejudicaria a prosperidade.

Em outras palavras, assim como o Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio se transformou em desastre ao não ser entendido como permanente, a noção de saída temporária do euro poderia acelerar seu colapso.

Essa talvez seja a razão para que o Eurogrupo encontre uma solução para manter a Grécia no euro (pelo menos por enquanto). Mas eu ainda não estou apostando muito nisso.

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