Parente de nazista busca reconciliação com sobrevivente de massacre na Itália

Credito: BBC
Image caption Muitas das vítimas foram mortas em frente à igreja de Sant'Anna di Stazzema

Andreas Schendel sempre soube que a violência fazia parte da história da sua família e que falar sobre a guerra era um tabu, já que dois de seus tios serviram na Waffen SS.

Seus piores temores se confirmaram em 2005, quando um tio, Heinrich Schendel, foi um dos dez condenados à revelia na Itália por um dos piores massacres civis na Europa ocidental na Segunda Guerra Mundial.

Enquanto os nazistas se retiravam passando pelo norte da Itália em agosto de 1944, a 16ª divisão da SS matou 560 civis, incluindo mais de 130 crianças em Sant'Anna di Stazzema, nas montanhas da Toscana.

Nenhum dos dez condenados foi extraditado.

Heinrich Schendel e sua família sempre negaram participação no massacre. Mas quando ele morreu, no ano passado, seu sobrinho resolveu agir.

"De alguma forma eu tinha que quebrar o silêncio na família. Me deparei com a história de Enrico Pieri, um garoto que escapou do massacre e se escondeu em uma plantação depois que seus pais e suas irmãs foram mortos", diz Andreas, um instrutor de defesa pessoal e escritor que mora em Dresden.

Image caption Andreas Schendel decidiu escrever para um sobrevivente do massacres depois que seu tio morreu, em 2014

"Achei que deveria falar com Enrico."

Ele entrou em contato com Enrico Pieri, hoje com 81 anos, e eles combinaram que Andreas viajaria para a Itália para que eles se encontrassem.

Image caption Enrico Pieri do lado de fora da casa em que sua família foi assassinada

Um dos poucos sobreviventes do massacre ainda vivo, Enrico vai a seu antigo vilarejo nas montanhas da Toscana várias vezes por semana.

Fora um museu e um parque nacional da paz, Sant'Anna está deserta, e a casa de seus pais está abandonada.

Do lado de fora da casa, árvores plantadas durante os primeiros anos da guerra ainda dão frutos todo inverno.

Image caption Enrico Pieri com mãe e irmãs
Image caption Após abraçar o sobrevivente Enio Mancini (direita), Andreas Schendel apertou a mão de Enrico Pieri em frente aos fotógrafos

Mas o único cômodo habitável é a cozinha, onde toda a sua família e uma outra família foram mortas na frente dele.

Ele só sobreviveu porque uma menina da outra família o arrastou para um armário embaixo da escada. "Na minha casa foi tudo muito rápido. Quando os alemães chegaram durou no máximo 30 minutos."

Enrico concordou em encontrar Andreas Schendelem em um festival juvenil da paz, mas os dois decidiram ter um encontro inicial privado na igreja da cidade. Em frente a esta pequena construção, 130 pessoas foram mortas e tiveram seus corpos queimados.

Image caption Heinrich Schendel recebeu um benefício para deficientes na Alemanha por lesões no rosto e, mais tarde, virou magistrado

"Nos abraçamos, e fiquei surpreso e aliviado. Mas depois, quando nos despedimos, só conseguimos apertar as mãos", diz Enrico. "Isso me fez perceber que há uma ferida que não vai sarar."

Dentro da igreja, Andreas Schendel se emocionou ao ver as fotos das vítimas crianças.

A dor do encontro foi muito grande para Enrico, que encolheu os ombros e disse "é difícil".

Ao falar depois a um grupo de adolescentes, dividindo o palco com Andreas, o rosto de Enrico se ilumina quando ele fala com paixão sobre a união da Europa e a reconciliação com a Alemanha moderna. Mas o aguardado aperto de mãos só ocorre depois, por sugestão dos fotógrafos.

"Esse homem é um santo, porque ele é capaz de perdoar os alemães em público, e isso é tudo que um santo pode fazer", diz Andreas. "Mas perdoar meu tio não é a questão."

SS no norte da Itália

Image caption Divisão da SS que foi para Sant'Anna era comandada por Anton Galler, que morreu em 1993

"A 16ª Divisão da SS foi uma das unidades mais cruéis do Exército alemão da Segunda Guerra Mundial", diz Carlo Gentile, que serviu em uma comissão ítalo-alemã que investigou a ocupação nazista na Itália. "Eles mataram de 2.200 a 2.500 civis em agosto, setembro e outubro", usando uma política de terra arrasada enquanto se retiraram para o norte ante o avanço dos Aliados.

Não se sabe exatamente o motivo do massacre de Sant'Anna. Uma teoria é que foi represália por uma emboscada feita à unidade por membros da resistência italiana quatro dias antes perto dali, em Farnocchia. Mas antigos integrantes da resistência dizem que não estavam no vilarejo e que receberam ordem dos Aliados para sair.

Alguns dos integrantes mais experientes da divisão haviam sido guardas de campos de concentração na divisão Totenkopf (crânio) da SS e outros participaram da exterminação do gueto de Varsóvia.

Schendel era um dos soldados menos experientes da divisão.

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Vítima mais nova

Outros sobreviventes, a maioria com idades entre 70 e 80 anos, ficaram sabendo da viagem de Andreas.

Licia e sua duas irmãs, Adele e Siria, perderam sua mãe e outras duas irmãs - uma delas, Anna Pardini, tinha apenas 20 dias e foi a vítima mais nova do massacre.

"Não sei se é bom ou não ele vir aqui", diz Licia, enquanto suas irmãs deixam rosas vermelhas no memorial onde foram enterrados os restos mortais das vítimas. "Mas se ele quer vir, vamos ouvir sua história."

Image caption As irmãs Pardini prestam homenagem a sua mãe e irmãs em memorial
Image caption Anna Pardini, vítima mais jovem do massacre, morreu com 20 dias

Outro sobrevivente, Romano Beretti, destaca que, sendo filho de um dos irmãos do assassino, Andreas Schendel não tem responsabilidade pessoal pelo massacre.

Mas Beretti decidiu não fazer a difícil escolha de conhecê-lo. As irmãs foram ao encontro, assim como o sobrevivente Enio Mancini, que, assim como Enrico Pieri, tem lutado por justiça há décadas e só conseguiu um veredito simbólico na Itália.

"Queríamos justiça"

As irmãs sentam quietas, ouvindo Enio e Enrico, que lutaram para manter viva a memória de Sant'Anna di Stazzema.

"Não queríamos vingança, queríamos Justiça", diz Enio Mancini aos adolescentes. "O que me deixa bravo é que esses dez oficiais que foram condenados viveram suas vidas como se nada tivesse acontecido."

Depois ele dá um abraço em Andreas e os três homens ficam juntos.

Image caption Vilarejo de Sant'Anna di Stazzema nos anos 1940

No alto da montanha acima de Sant'Anna, um memorial guarda os restos mortais dos civis mortos em 12 de agosto de 1944. Com os nomes de sua família, Enrico Pieri incluiu seu próprio nome e os de sua mulher e seu filho.

Embora nenhum dos sobreviventes tenha permanecido em Sant'Anna, eles moram perto, e sempre viveram às sombras do monte onde suas famílias foram mortas.

E é nos mais novos que a memória é mais clara. "Parece estranho mas eu esqueço facilmente coisas que aconteceram há dias, mas não consigo esquecer o que aconteceu aqui durante a guerra", diz Romano Beretti, que tinha apenas sete anos na época.

Batalha judicial

Tribunais formados pelas forças aliadas depois da guerra condenaram o comandante, general Max Simon, pelo massacre de Sant'Anna. Mas outro comandante da SS, Walter Reder, foi absolvido em 1951. Ele, no entanto, foi preso pelo massacre de Marzabotto, ocorrido algumas semanas depois, em que 770 civis foram mortos.

Nos 40 anos seguintes, houve silêncio. Até que, em 1994, 695 arquivos de inquéritos dos Aliados foram descobertos em Roma, trancados no que ficou conhecido como o "gabinente da vergonha", e a busca por justiça recomeçou.

Depois de investigação intensa, dez alemães foram levados a julgamento à revelia e condenados em junho de 2005: Werner Bruss, Alfred Concina, Ludwig Goering, Karl Gropler, Georg Rauch, Horst Richter, Heinrich Schendel, Alfred Schoenemberg, Gerhard Sommer e Heinrich Sonntag.

Mas nenhum deles foi extraditado e, no mês passado, o tribunal de Hamburgo decidiu que Gerhard Sommer, de 93 anos, por estar com demência não poderia ser submetido a julgamento.

"Até 2002, as autoridades alemães não fizeram absolutamente nada para investigar crimes de guerra em Sant'Anna", disse a advogada Gabriele Heinecke, que lutou por justiça para as vítimas dos nazistas na Itália e na Grécia. "Os promotores e juízes da jovem República Federal da Alemanha eram em sua maioria antigos nazistas. Eles não tinha interesse em buscar andamamento em fatos que, por fim, eles poderiam ser responsabilizados."

Como os perpetradores morreram ao longo da última década, o investigador e historiador Carlo Gentile argumenta que o departamento de Justiça em Stuttgart poderia ter trabalhado muito mais rapidamente.

"É difícil acreditar que não houve intenção de desacelerar as coisas. Não tenho provas, mas os fatos já eram conhecidos e posso entender a frustração das pessoas."