Quem são as ‘babás’ dos astronautas da Estação Espacial Internacional

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Image caption A sala de controle é usada para monitorar os efeitos de missões de longa duração nos astronautas

Em uma sala escura, nas profundezas da base militar de Redstone Arsenal, um complexo de segurança máxima em Hunstville, no Estado americano do Alabama, oito homens e mulheres estão concentrados nas telas de seus computadores, recebendo uma incessante quantidade de dados.

De vez em quando, uma das mulheres fala em um microfone acoplado a fones de ouvido, mas sua voz é tão baixa que mal dá pare entender o que ela diz.

Na parede em frente a eles, vários monitores exibem imagens da Terra, gráficos, linhas do tempo e – neste momento – as costas de um astronauta, enquanto ele flutua através de uma escotilha a 400 quilômetros acima de nossas cabeças.

Operando 24 horas por dia, sete dias por semana, eis aqui o Centro Integrado de Operações de Transmissão da Nasa – a sala de comandos de todas as experiências científicas realizadas a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI).

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É aqui que se contabiliza, se monitora e se ajusta cada minuto de trabalho dos astronautas em órbita. A base da Nasa em Houston, no Texas, pode até ficar com a fama e a glória. Mas é esta desconhecida sala de controles, parte do Marshall Space Flight Center, que centraliza toda a Ciência executada na EEI.

"Somos os intermediários, a interface entre os cientistas na Terra e a tripulação a bordo da estação", explica a gerente de comunicações de transmissões Sam Shine.

'Trabalho árduo'

Shine é, aliás, uma das poucas pessoas do mundo – além de outro profissional em Houston – que podem falar diretamente com os astronautas na EEI, supervisionando-os enquanto realizam suas tarefas científicas diárias.

"É um trabalho árduo", define. "Temos problemas com os diferentes idiomas, com os diferentes fusos horários... Às vezes, obter as ordens de um pesquisador na Itália e transmiti-las a um tripulante alemão, por exemplo, é uma tarefa difícil."

Desde que foi concluída, em 2011, a EEI tem se dedicado quase exclusivamente aos experimentos científicos. As paredes, o teto e o piso de seus laboratórios – montados por Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Japão a um custo total de US$ 100 bilhões – estão abarrotados de materiais e dados. Os astronautas passam cada vez mais tempo em órbita atuando como técnicos de pesquisa – de seis meses a um ano.

"Pense em qualquer disciplina da Ciência e verá que muito provavelmente estamos realizando alguma experiência nessa área a bordo", afirma Shine. Os estudos nesse singular laboratório, sob gravidade zero, variam da investigação do crescimento de plantas à tentativa de compreender as propriedades de metais líquidos.

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Image caption A equipe é monitorada durante o trabalho, para garantir que nenhum equipamento essencial saia do lugar

Sobremesas e confissões

Mas uma boa parte das experiências supervisionadas pela sala de comandos no Alabama está relacionada ao estudo dos efeitos do espaço sobre os próprios astronautas – como, por exemplo, a perda de massa óssea e muscular que eles sofrem enquanto estão em órbita.

Trata-se de uma pesquisa fundamental se quisermos que, um dia, os seres humanos possam deixar a Terra por longos períodos.

Os cientistas também estão analisando os desafios psicológicos de viver longe do mundo em uma caixa de metal isolada, comendo alimentos reconstituídos e bebendo urina reciclada, na companhia apenas de colegas de trabalho.

Um dos experimentos mais intrigantes, chamado Astro Palate, foi desenvolvido por nutricionistas e engenheiros de alimentos da Universidade de Minnesota. Seu principal objetivo é compreender como a comida pode ser usada para reduzir o estresse.

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"Podemos pedir, por exemplo, que um dos astronautas faça algo de que ele não gosta, como passar um aspirador em toda a EEI. Em seguida, avaliamos como eles se sentem", conta Shine. "Depois, oferecemos a ele algum alimento reconfortante, mais caseiro, como uma sobremesa de chocolate, e avaliamos suas emoções novamente."

"Dessa maneira, estamos começando a descobrir formas de fazer nossos tripulantes se sentirem mais em casa, já que a permanência deles no espaço está cada vez mais longa", afirma a gerente.

Outro estudo pede aos astronautas que escrevam diários sobre a rotina a bordo da EEI – uma tentativa de obter relatos honestos sobre seus sentimentos, tensões e saudades. Como apenas o pesquisador que está coordenando o projeto pode ter acesso a esses diários, ele espera que a tripulação se sinta à vontade para se abrir.

"Uma das revelações mais interessantes é a de que o quarto mês da missão é, em geral, o período em que os astronautas mais desejam voltar para casa", conta Shine. "É quando eles começam a ficar cansados da EEI e querem ver suas famílias."

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Image caption Sobremesas reconfortantes são usadas para avaliar as emoções dos astronautas

Desorganização no espaço

Para lidar com as frustrações diárias de viver a bordo de um apinhado laboratório em órbita, a equipe no Alabama se responsabiliza até pelos pertences perdidos pelos astronautas.

É tarefa do oficial de estiva rastrear todos os objetos a bordo da EEI, ou "um dos trabalhos mais difíceis de todo o programa espacial", na definição de Shine.

Ela explica: "Às vezes, os astronautas não guardam seus pertences, como fazemos aqui na Terra. Eles nos chamam para perguntar onde está uma chave de fenda ou alguma outra ferramenta que não está onde pensávamos. Então, o oficial de estiva tem que analisar todo o histórico para saber onde o objeto foi visto pela última vez e localizá-lo".

"Estamos constantemente observando os astronautas, então quando vemos algum objeto flutuando pela estação, logo avisamos", conta Shine. "Muitas vezes encontramos as ferramentas perdidas no sistema de ventilação."

É verdade que por trás de cada astronauta, há sempre milhares – ou até dezenas de milhares – de outros profissionais de apoio. A diferença é que agora, conforme entramos em uma era de missões mais longas, eles vão precisar ser especialistas em coisas mais mundanas – como sobremesas caseiras ou armários arrumados.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.